O VIDEIRINHO

terça-feira, abril 12, 2016


- Hoje regresso ao trabalho mas não estou a chorar, é que me entrou num olho, um pouco de preguiça infernal !

SARRABISCOS

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Apesar do seu estado de embrieguês, o passageiro parecia lúcido, iluminado pela necessidade de dar um sólido conteúdo ás suas palavras. 

Tinha-se sentado ao meu lado.  
E enquanto eu conduzia, o jovem falava e olhava-me muito perto de mim, quase auscultando o meu rosto. 

Mesmo com isto, em nenhum momento cheguei a sentir-me observado ou desconfortável. 

Mais parecia um anjo que esqueceu as suas asas no último bar. 

Cruzando a Av. da Liberdade, deu-lhe para falar da janela de Johari.

- Tem um papel e uma esferográfica? 

- Aí, no porta-luvas, disse-lhe. 

Sacou do porta-luvas de uma maço de guardanapos de bar (tenho sempre; agrada-me o seu tacto impermeável para escrever poemas ou tomar uns apontamentos) e pôs-se a gatafunhar e a explicar-me cada uma das suas partes (isto é real, vejam a foto):


Segundo me disse, a janela, a janela de Johari é uma ferramenta que os psicólogos utilizam para ilustrar os nossos processos de interacção: quantos de nós conhecemos os demais ou em que grau nos conhecemos a nós próprios. 

Tudo isso dividido em quadrantes. 

Concretamente quatro: 

Aberto ou livre: a parte de nós que os demais também vêem. 

Oculto: o que ou outros compreendem de nós, mas nós não. 

Cego: A parte mais misteriosa do subconsciente que nem o sujeito nem os demais em seu redor compreendem. 

Desconhecido, perdido e escuro: o espaço pessoal provado. 
 
JANELA DE JOHARI - relacionamento interpessoal
  

 
O importante, acrescentou, é ser consciente desses quatro quadrantes; tender a ampliar o que conhecemos de nós próprios com a intenção de reduzir ao mínimo o desconhecido. 

Se conseguirmos, por exemplo, que os demais nos descrevam tal como nos vêem, talvez possamos descobrir qualidades ocultas em nós. 

Dou-lhe um conselho, amigo: 
Abra-se aos outros e assim conhecer-se-à melhor. 

Mas o realmente inquietante chegou depois. 

Ao chegar ao destino estendeu-me a importância do trajecto juntamente com o guardanapo e, antes de sair, acercou-se de mim e deu-me um beijo na face. 

E eu nem tive tempo de pestanejar, deixei-me beijar.

10NOV2011
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segunda-feira, abril 04, 2016



- Quando alguém deve ser mandado à merda, não hesites em fazê-lo; a diplomacia é para as embaixadas !

AGUILHOADAS

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Agora a dor também viaja através da internet. 

Do cabo de minha casa, ao cabo da tua. 

Ou pior: via Wi-Fi. 

05/12/2010: 
Numa ocasião sucumbi a essa infernal tentação de querer saber, poder procurar e entrar no fim como um voayeaur na tua recente vida através de Facebook. 

Noutra altura 'biopsiei' cada nova foto tua (o mesmo corpo de ninfa, o mesmo sorriso, por que sorris agora se comigo eras feliz?). 

Outra vez beijei a electricidade estática do meu monitor ante essa tua fotografia que eu tirei, naquele analógico verão e continuas a mantê-la intacta. 

Mas desta vez afundo-me ao ver mudado o teu estado civil, de “solteira” pelo de, “Tem uma relação com…” e clico na merda do seu nome, comparo-o comigo (mais bonito, reconheço-o; mas nunca chegará a querer-te tanto) e borrifo-me no seu perfil (porquê ele?). 



Que terá para além desse físico? 

Com que direito violou a lembrança de meu nome?). 

13/02/2011: 
Não consigo entrar no teu perfil completo. 

Só posso ver as tuas fotos (apagaste as daquele verão, mas apareces numa nova, com aquele boné que te ofereci). 

Entro na tua lista de amigos, mas eu já não consto. 

Já não estou entre os teus. 

Decidiste votar-me ao ostracismo. 

Não queres que eu seja de ti. 

Talvez a tua nova vida o impeça. 

Ou foi ele que to pediu. 

04/05/2011: 
Agora nem sequer posso ver as tuas fotografias. 

Agora só as podem ver os teus amigos. 

Os teus 107 amigos. 

Eu não. 

Só uma. 

A foto do teu perfil. 

Sentada e sorrindo, com uma janela por fundo que não é a tua janela. 

Não são as tuas paisagens. 

Nesta há árvores e um baloiço. 


05/05/2011: 
Dei três ou quatro voltas ao teu quarteirão. 

Nem rasto do teu carro, não há luz na tua janela. 

Aproveitando o descuido de um vizinho colei-me ao teu portal. 

Na caixa do correio já não aparece o teu nome. 

Não és a Maria Cavaco Silva e muito menos José Sócrates. 

Tu mudaste de residência e não sei para onde. 

Para essa casa com jardim. 

Já só me resta o meu táxi, a casualidade do meu táxi. 

Que apareças, um qualquer dia, por uma rua de tantas que há… e me levantes o braço sem saber que sou eu. 

E que me alcances e eu acelere veloz e me deixes explicar-te. 
NOV2013
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