- Escrevo estas linhas mal alinhavadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer outra coisa, mas sim para ocupar nalguma coisa a minha desatenção !
O VIDEIRINHO
terça-feira, novembro 29, 2016
ESTÁVEL
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Na sala de espera do dentista, pegas numa revista à sorte e dispões-te a folheá-la.
Passas as páginas sem muito interesse, mais para aplacar os nervos: conselhos de beleza, cinema, música, moda...
Detens-te num teste de personalidade.
Lês as perguntas e mentalmente vais respondendo.
Ainda que o aceites como um jogo, somas os pontos e chegas à conclusão que és uma pessoa emocionalmente estável.
Isso diz a revista:
Mais de 50 pontos, emocionalmente estável.
“Sacaste 55”.
Chama-te o dentista.
Sentas-te na cadeira e abres a boca.
Abandonas-te aos trabalhos do médico enquanto pensas na tua estabilidade emocional.
Sentes como a agulha se introduz na tua gengiva, uma dor que pouco a pouco se transforma em anestesia.
A tua vida sempre foi assim: uma soma de anestesias contra a dor.
Meia hora mais tarde estás num táxi a caminho de casa.
O taxista tem uma fotografia dos seus dois filhos dependurada no espelho retrovisor.
Os efeitos da anestesia começam a desaparecer.
A dor volta.
Pela primeira vez, inverte-se o processo.
Dizes ao taxista:
- Páre aqui.
Aqui mesmo.
Pagas a corrida e sais do táxi.
Está a chover.
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sábado, novembro 05, 2016
- Até cortar os próprios
defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito
que sustenta o nosso edifício inteiro. (Clarice
Lispector)RUÍDOS
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"A Rua Penetra na Casa" - Umberto Boccioni (1911)
Todas as manhãs acordava-me a obra em construção.
A orquestra sintonizada de ferramentas, serras, máquinas de furar, betoneira, picaretas, pás, martelos.
Não tardei a identificar as vozes dos operários que gritavam ás mulheres que caminhavam pelo passeio.
Animais no cio.
Palavras como chupar, loira e boazona, conformavam o desafortunado coro de minha própria «Ópera do Ruído», como a tinha baptizado.
Foram meses a despertar muito cedo ao som do estrepitante chiar da serra eléctrica.
Levantava-me da cama com os maxilares tensos e os dentes doloridos.
A minha própria “Ópera do ruído” durou um ano e pico.
O som foi-se esbatendo à medida que o edifício crescia em altura, até que por fim, regressou o silêncio; o implacável silêncio das buzinas dos automóveis, o motor dos transportes colectivos, as discussões do casal do 6º. andar Centro e o pranto do bebé do 7º. Traseiras.
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