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Ontem chegou-me a casa outra multa de trânsito por uma infracção que não tenho a mais leve ideia de ter cometido.
Segundo o papelucho, em 17/12/2010 (que coincidência coincidente, dia dos meus anos), ás 3 horas (da matina), circulava a 110 km/h num troço duma estrada limitado a 90.
Naquela estrada não há nenhum radar fixo, pelo que, assim suponho, a foto junta, terá sido tirada por um qualquer veículo camuflado da GNR.
Nessa foto posso ver com atemorizante nitidez, a traseira do meu táxi com a matrícula bem legível.
No interior também pude divisar a minha silhueta com o cabelo “à escovinha”, por cima do encosto de cabeça e, a meu lado, no assento do pendura a silhueta de outra cabeça de cabelo comprido ondulado virada para mim.
Não podia ser uma passageira (para além de viajar á frente, as luzes exteriores do tejadilho estavam desligadas), tão-pouco um qualquer relacionamento fortuito da noite (recordar-me-ia).
Peguei numa lupa e fiz uma biopsia à foto.
Não reconheci a fulana, mas pareceu-me que estava a falar comigo e a sorrir-se ao mesmo tempo.
O caso é que tinha um perfil atractivo e uns caracóis desses que parecem espirais de infinitas voltas.
Era a exacta criatura dos meus sonhos e tal e qual eu imaginava uma mulher arrebatadoramente sedutora.
Aquela mulher que aparecia na foto, nunca existiu mas sempre ansiei que existisse: uma mulher de caracóis de ouro e perfil grego, sempre a meu lado, no meu táxi, fugindo os dois para Sul, mais rápido que os radares, como viciados em busca da urgência, do sal do mar.
A óptica daquele radar tinha conseguido captar o etéreo dos meus desejos em forma de mulher.
E tudo por só 60 euros.
Parece-me que é barato.
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