O VIDEIRINHO

domingo, fevereiro 13, 2011

MÓDICAS MULTAS

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Ontem chegou-me a casa outra multa de trânsito por uma infracção que não tenho a mais leve ideia de ter cometido. 

Segundo o papelucho, em 17/12/2010 (que coincidência coincidente, dia dos meus anos), ás 3 horas (da matina), circulava a 110 km/h num troço duma estrada limitado a 90. 

Naquela estrada não há nenhum radar fixo, pelo que, assim suponho, a foto junta, terá sido tirada por um qualquer veículo camuflado da GNR. 

Nessa foto posso ver com atemorizante nitidez, a traseira do meu táxi com a matrícula bem legível. 

No interior também pude divisar a minha silhueta com o cabelo “à escovinha”, por cima do encosto de cabeça e, a meu lado, no assento do pendura a silhueta de outra cabeça de cabelo comprido ondulado virada para mim. 



Não podia ser uma passageira (para além de viajar á frente, as luzes exteriores do tejadilho estavam desligadas), tão-pouco um qualquer relacionamento fortuito da noite (recordar-me-ia). 

Peguei numa lupa e fiz uma biopsia à foto. 

Não reconheci a fulana, mas pareceu-me que estava a falar comigo e a sorrir-se ao mesmo tempo. 

O caso é que tinha um perfil atractivo e uns caracóis desses que parecem espirais de infinitas voltas. 

Era a exacta criatura dos meus sonhos e tal e qual eu imaginava uma mulher arrebatadoramente sedutora. 

Aquela mulher que aparecia na foto, nunca existiu mas sempre ansiei que existisse: uma mulher de caracóis de ouro e perfil grego, sempre a meu lado, no meu táxi, fugindo os dois para Sul, mais rápido que os radares, como viciados em busca da urgência, do sal do mar.

A óptica daquele radar tinha conseguido captar o etéreo dos meus desejos em forma de mulher. 

E tudo por só 60 euros. 

Parece-me que é barato.
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sábado, fevereiro 12, 2011

- Um ladrão é um comerciante da escuridão !

FABULOSO

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O bom de falar com desconhecidos que não voltarás a ver é que podes fingir ser outro... inventares outras vidas sem te denunciares. 

A um passageiro ontem, disse-lhe que o táxi, na realidade, era do meu pai e que eu trabalhava pelas tardes para pagar os gastos com mulheres e vinho, para além dos estudos… 

– E o que estuda? Perguntou-me. 

– Teologia, disse-lhe. 
Foi a primeira coisa que me veio à cabeça. 

– Prepara-se para padre? Perguntou-me. 

– Já não. 
Quis sê-lo, mas acabei por abandonar o seminário. 

 
– Uma dessas crises de fé? 

– Não exactamente. 
Uma mulher. 

– Quer dizer que abandonou o seminário por uma mulher? 

– E acabei por casar com ela e ter um filho. 

– Bom, pelo menos formou uma família. 
Poderá educar o seu filho nos valores cristãos. 

– Duvido. 
A minha mulher e eu separámo-nos faz três meses. 

– Puxa! Disse o homem surpreendido. 

– E ainda por cima abarbatou-se com a casa e com o filho, que lhe parece? 
Nem sequer me deixa vê-lo! 
Que Deus me perdoe, mas… valente filha da p*ta! disse, exaltado. 


– Sinto-o… 

– E eu agora, já me vê: com 50 anos, a viver em casa de meus pais, que são uns santos, tratando de retomar a minha vocação pelas manhãs e trabalhando o táxi do meu pai pelas tardes.

É que quando se tira a fé a qualquer um, tira-se-lhe tudo. 

NOTA: 
O passageiro deu-me quase cinco euros de gorjeta. 
Foi então que soube da minha vocação frustrada. 
A de actor.
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sexta-feira, fevereiro 11, 2011

- Ah, o eterno feminino! 
Dizia o indivíduo cuja mulher nunca mais morria !

AMORES A DOIS

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Depois de saber que Natália, o meu borracho, não podia esquecer-se da sua ex, depois de saber que esse ex não era um homem, mas sim uma mulher, depois de saber que essa sua ex se chama Eduarda, o mesmo nome da minha ex Eduarda, compreendi que lá no fundo eu também continuava enamorado da minha ex, não de Natália. 

Mesmo assim, ou precisamente por isso, Natália e eu decidimos continuar a nossa relação de namoro. 

Agora Natália utiliza-me para esquecer a sua Eduarda e eu utilizo-a, a ela, para esquecer a minha. 

Somos a nossa mutua terapia. 


A simbiose perfeita. 

O curioso é que agora nos entendemos melhor do que nunca. 

Falamos muito, abertamente: ela da sua Eduarda e eu da minha. 

Também fazemos amor com muita mais frequência. 

O sexo converteu-se numa rotina tão estranha como deleitosa. 

Agora sempre que nos começamos a beijar parece que ambos procuramos os lábios da Eduarda, de duas Eduardas distintas mas unidas pelo seu mesmo nome. 

Como se estivéssemos os dois a beijar a mesma pessoa que não seja ela nem eu. 




Inclusivamente excito-me só de pensar que Natália pensa na minha Eduarda e eu na sua, enquanto me beija. 

Finalmente, também me excita pensar na sua Eduarda. 

Não sei o fim que isto terá mas, de momento, parece que funciona. 

Lambermos as feridas mutuamente, está a ajudar-nos a esquecer e a recordar ao mesmo tempo. 

Assim como os outros casais, mas com mais animalidade.
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quinta-feira, fevereiro 10, 2011

POSTIGO DO CARVÃO



"Polvo assado no forno" 

- Não te esqueças de provar.

A amabilidade e o profissionalismo sempre presentes.

Atreve-te e já agora convida-me!!!
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- Uma amiga deve ser como o dinheiro; o valor já conhecemos, falta saber a qualidade do material ! (josé torres)


OBCESSÃO (II)

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... Continuação

Natália saiu da RTP, mais ou menos à hora que eu calculei e apanhou o primeiro táxi na postura. 

Parado no outro lado da rua arranquei com o meu e, mantendo uma certa distância prudente, de três ou quatro carros, dispus-me a segui-la. 

Atravessámos a ponte, circulámos por diversas ruas até à rua Júlio Dinis. 
 
Deteve-se frente a uma entrada de prédio, vi-a pagar, saiu do táxi e entrou no portal do prédio. 

Estacionei e dei uma pequena corrida para entrar logo atrás dela. 

Escutei a fechar-se a porta do elevador. 

Acerquei-me e comprovei o seu destino: quinto piso. 

Com este dado procurei nas caixas do correio de algum quinto piso onde aparecesse o nome de Mário Coração. 

Encontrei-o imediatamente. 

Tinha que ser aquele. 

Era no 5º, sala F. 

Tinha a seguinte indicação: 
“Mário G. R. – Psicanalista”. 

Natália nunca me mencionou que consultara qualquer psicanalista. 

A ser assim, por que o tinha como “Mário Coração” no seu telemóvel. 

De qualquer maneira saí dali. 

Apenas duas horas depois recebi uma chamada da Natália. 

Parecia furibunda: 
- Por que leste as mensagens do meu telemóvel? Perguntou-me antes de desligar. 

– Um momento. 
Bom, dois. 
Necessito ver-te. 
Quem raio é Mário Coração? 

– O meu psicanalista, disse-me. 

– Desde quando tens um psicanalista? 
Por que lhe chamas Coração? 

– Chamo-lhe coração porque me ajudou a superar a minha ruptura com a Eduarda. 

– Espera lá. Eduarda? 
Quem é essa Eduarda? 

– É… era a minha noiva. 

– Tua noiva? És lésbica? 

– Não. Sim. Não sei… 

Desatou a chorar. 

– Bissexual? 

– Não o entenderias…, disse-me entre soluços. 

– O quê? 
Tenho uma namorada lésbica? 

– Liguei ao Mário porque de repente lembrei-me muito dela… 

– Enquanto jantavas comigo? 

– Pensei que só me conseguiria esquecer saindo com alguém completamente oposto. 

– Porreiríssimo. 
Nem mais nem menos, que aqui, com este tipo. 

– Necessito continuar a teu lado Zé. 
Estes dias têm sido incríveis. 
Amo-te. 

– Adeus. 

Desliguei confuso. 
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quarta-feira, fevereiro 09, 2011

- Sou monoteísta.
O meu único deus?
Um corpo de mulher !

OBCESSÃO (I)


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Enquanto Natália toma banho, toca o seu telemóvel. 

Sinal de SMS. 

Gatinho meio colchão até à sua mesa-de-cabeceira, olho para o ecrã e leio: 
“Uma (1) mensagem de Mário Coração”. 

Fico estarrecido, meio morto. 

Que raio, quem é Mário? 
Porquê Coração? 

Carcomido por dentro abro a mensagem e leio: 
“Esta tarde ás 7 e meia?".

Debaixo aparece outra mensagem anterior enviada ontem pelas 22,30h de Natália para o tal Mário Coração: 
“Necessito ver-te”. 

Ontem aquela hora estava a Natália comigo a jantar num restaurante japonês. 

Recordo que se ausentou um par de vezes para ir ao WC. 

Enviou-a a partir daí. 

Não há dúvida. 



Volto a pousar o seu telemóvel na mesa-de-cabeceira. 

Desabei-me. 

A Natália continua no duche. 

Não posso suportar o ruído da água. 

A água a cair sobre a suja cabeça de Natália. 

O impacto de cada gota de água no sacana de cada recanto do seu corpo desnudo. 

Cada gota agora convertida na língua daquele Mário lambendo o seu pescoço, descendo até aos seios, aos seus cálidos mamilos, ás suas costelas, ao seu ventre, ao seu triângulo com um escanhoado bem apurado, à sua infectada ferida (não mais do que a minha…). 

Natália acaba o duche. 

Silencia-se a água mas a língua de Mário continuará esta tarde, ás sete e meia, lambendo o seu corpo e violando a recordação do seu tacto na minha cabeça. 

Sai do WC com uma toalha em redor do corpo bastardo. 

– Já estás desperto? Pergunta-me sorridente. 

– Sim, digo-lhe. 

– Dormiste bem?

– Sim, volto a dizer. 

Não faço nada. 

Prefiro esperar pelas sete e meia. 

Seguirei como um fantasma os passos da Natália desde o seu curro até á porra do Coração. 

Quero surpreendê-la em flagrante. 

Necessito ver as suas duas caras. 

As duas caras da Natália.

CONTINUA...

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terça-feira, fevereiro 08, 2011

- Natália, desfrutemos da luxúria, do sexo e da paixão, façamos amor cada dia e nunca me digas não !

VIAGEM EM SILÊNCIO

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Nunca participo nas conversas privadas que mantêm entre si os meus passageiros, mas dado as dimensões do habitáculo de um táxi, tão-pouco posso evitar escutar o que dizem. 

Os homens, naquela ocasião, começaram a falar de doenças, de vírus, de fármacos raros. 

Dado o seu verboso conhecimento (seriam médicos, supus), apenas consegui entender palavras soltas: plaquetas, glóbulos vermelhos, rinovírus, anticorpos… 

Anticorpos, anticorpos… 

 
Curiosa palavra, pensei eu. 

Anti, prefixo que significa “em lugar de “ ou “contra”, seguido do lexema ou semantema “corpo”. 

Fazendo um guisado disto, teríamos algo como, “no lugar do corpo” ou “contra o corpo” .

Contra o corpo? 

O que pode existir contrário ao corpo? 

Conheço gente complexada com o seu físico, que não gosta dele ou rechaça-o. 

Em tais casos, poder-se-ia dizer que a mente estaria contra o próprio corpo. 

Que o anticorpo seria, precisamente a sua cabeça. 

Mas também, se a mim me derem a escolher “em lugar do” meu corpo, prefiro o corpo da Natália. 


Deleito-me mais com a sua pele do que com a minha. 

As suas curvas, as suas nádegas, o seu ventre, o seu peito, o seu pescoço, o seu andar bamboleante… 

Será a Natália, por acaso, o meu particular anticorpo? 

Mal se apearam os médicos (?) do táxi, telefonei à Natália: 

- És o meu anticorpo, disse-lhe. 

E desliguei. 

Minutos depois recebi um SMS dela: 

“Não pude evitar encerrar-me no quarto de banho da redacção para masturbar o teu anticorpo enquanto penso em ti”.
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domingo, fevereiro 06, 2011

- Esquivar-se da filosofia é, certamente, filosofar !

“ O PROTAGONISTA”

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Ontem encontrei novamente a Natália. 

Propôs-me um “negócio” em que ela servia de isca. 

A ideia consistia em fazer entrevistas fictícias aos clientes do meu táxi (valendo-se de um microfone da RTP que trouxe “emprestado" lá do trabalho), um plano para repórter co-piloto, enquanto eu conduzia. 

Queria com isso que me fixasse na mudança que experimenta qualquer pessoa quando acredita que o seu testemunho será escutado por milhares de ouvintes. 

Há uns tempos reparei neste curioso, mas inversamente. 

Quando alguém gravou com uma câmara oculta e os “pessoais” não sabiam que estavam a ser gravados até ao final da brincadeira. 

Quando se inteiravam, a grande maioria raciocinava com um certo nervosismo, encantados por aparecerem na TV. 

Inclusivamente falavam ao telefone para dizer ( a quem estava do outro lado da linha) o que lhes acabava de ocorrer e que, sorte a deles, iam sair na televisão! 


Assim, Natália sentou-se ao meu lado e de microfone na mão, começou a abordar cada cliente. 

Não havia gravação alguma. 

De facto, ligou o outro extremo do cabo a um pacote de lenços dentro do seu bolso. 

Imaginai a sequência: entra o cliente para o banco traseiro, dá-me as indicações da viagem e então a Natália diz: 

– Olá! Sou a Paula Fino do programa, “Praça da Alegria”. 
Conhece-o? 

– O do Jorge Gabriel e Sónia Araújo? 

– Sim, sim, esse. 
Agora vão ter uma nova rubrica, “O Protagonista do dia”. 
Sabia? 

– Não. 
E de que trata? 

– Cada dia escolhemos um cidadão ao acaso e convertemo-lo no protagonista. 
Hoje, foi você o escolhido, o que lhe parece? 

– Não sei… o que tenho que fazer? 

– Contar-nos o que quiser. 

– E isto é escutado por muita gente? 

– Milhares e milhares, de Norte a Sul do país, incluindo as ilhas e a RTP África.


– Está bem. 
Espere que tire o casaco. 

Ao longo do dia de ontem foram sete os clientes “protagonistas” de um total de oito. 

Só um declinou a proposta da Natália (alegou que não tinha nada importante para dizer, nem ninguém em especial para se dirigir; mas contou-nos igualmente a sua vida, com o microfone fechado. 

Os sete restantes, antes de iniciar a suposta gravação, modulavam a voz de um modo diferente e os seus gestos, efectivamente, mudavam. 

Ficavam mais hirtos. 

Mais solenes. 

Uma cliente chegou até a dizer-nos: 

- Espere, espere. 
Não comece já a gravar… e passou as mãos para afeitar o cabelo. 

– É só um microfone, não uma câmara, senhora, aclarou Natália, esforçando-se por conter o riso. 


Ao finalizar todos eles perguntaram quando era transmitida a gravação. 

– Amanhã mais ou menos ás 11,30 h será o protagonista do dia, disse-lhes a Paula Fino, aliás Natália, a cada um deles. 

Todos eles, enfim, amanhã ás 11,30 estarão de olhos na TV. 

Eles mesmos e muitos familiares e amigos também (estes acontecimentos correm céleres). 

Agora deleitar-me-ia saber como reagirão quando não se virem ou se dêem conta de que esse programa nem sequer existe. 

– Chingados, dizes? 
Não o creio. 
Pelo menos, durante uns instantes, sentiram-se protagonistas.

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sábado, fevereiro 05, 2011

- Aviso a toda a população: 
O simulacro de Paz e Amor, vai terminar. 
Guardem o marisco, o bacalhau, o peru, insultem os vossos sogros e cunhados, desentendam-se e haja porrada de “três em pipa”!

CONVERSA INFORMAL

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– Não é necessário estar louco para matar, disse-me o cliente que conduzia para a Estação de Campanhã. 

– E você está louco? Perguntei. 

– Não. 

– Pensa matar-me? 
Digo isto para que antes possa aparcar o táxi… 

– Não. 
Não tenho motivos para o matar. 

– Por acaso existe algum motivo razoável para matar? 

– Sem dúvida, meu amigo. 
A vingança por exemplo. 
Olhe o caso que ocorreu perto de Ponta Delgada, o indivíduo que matou o chefe. 
Não se sabe qual o motivo, se por ir para o desemprego, se lhe pagaram com um cheque sem fundo, se com medo que o banco lhe confisque a casa por falta de pagamento das prestações, se…


Crê que aquele tipo estava louco quando fez o que fez? 
Acredito que não; foi vingança pura e dura levada ao extremo do desespero. 

– Eu seria incapaz de matar… 

– Você nunca se viu numa situação idêntica, suponho. 
Tão-pouco surpreendeu algum homem a violar a sua própria mulher ou a sua filha. 

– Não tenho mulher; logo não tenho filhos, disse-lhe. 

– Todos somos susceptíveis de encontrar motivos para matar, querido amigo. 

– Voltando ao caso da morte do controlador de máquinas, há quem diga que o assassino é um tipo estranho. 


– Para a comunicação social todos os assassinos são psicopatas ou tipos esquisitos. 
A palavra “transtorno” ou “alienação mental” vende jornais ou faz subir o “share”. 
Também ajuda a manter-nos controlados com os pés assentes no chão. A comunicação social adoutrina o nosso subconsciente; lançam-nos mensagens subliminares: “Matar só é uma coisa de perturbados”. 
Mas não é assim. 
Nem pouco mais ou menos. 
Os jornalistas não são psiquiatras, quero dizer… 

– Você é psiquiatra? 

– Sim.

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sexta-feira, fevereiro 04, 2011

- Estava lindo no caixão. 
No rosto aquele ar levíssimo de quem acabava de dar as últimas !

SEDUÇÕES

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Desarrolhei a garrafa e disse-lhe que o vinho era ideal para acompanhar peixes de sabor intenso ou ainda peixes gordos assados no forno, crustáceos, mariscos e presumidamente, para acompanhar com ‘ela’. 

O piropo desenhou-lhe um leve sorriso. 

Servi o Alvarinho no copo, observei a cor por detrás do cristal, senti o aroma e levei o líquido à boca. 

Notei a terra, as montanhas, o sol banhando a colheita, o perfil floral e frutado muito característico, com notas de tília, erva-cidreira, madressilva, pêssego, toranja e maçã, tudo muito bem casado com a elevada acidez típica dos brancos frescos do Noroeste da Península Ibérica e presumivelmente, o sabor das suas próprias mãos. 


— Tivesse eu também convertido a água em vinho — disse à minha companheira e voltei a roubar-lhe um sorriso. 

Alcancei absolutamente todos os objectivos a que me propus na vida, com o único incentivo de brindar por eles. 

Aquela noite não foi excepção. 

Enamorados, como sempre, tilintávamos os copos até não nos restar mais nada por brindar, mas o vinho era tão bom que tivemos que continuar a inventar escusas. 

Um bom Alvarinho embala-nos.
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quarta-feira, fevereiro 02, 2011

- Bebe do bom e do melhor, que a vida é curta para beberes porcarias !

AFORRAR ou CRISE NO VINHO?

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Um dia destes, estava a almoçar com um bom amigo de longa data. 

No momento de pedir o vinho passou-me a carta e disse-me: 

- Não te alambazes com o preço que eu ando a aforrar. 

Não era a primeira vez que me dizia que não escolhesse um vinho de preço elevado mas nunca ousara fazer qualquer coisa para se qualificar, dizia-mo com certa timidez, pensando talvez, que eu ia chamar-lhe tacanho. 

Mas agora estamos em crise e o ser aforrador parece um motivo de orgulho para muitos, com esse lema, fazem-se anúncios e anúncios e parece que quem tem essa característica tem uma verdadeira superioridade sobre os demais. 

Para tentar situar as coisas no contexto, quero explicar que o meu amigo e eu temos sensivelmente o mesmo nível de vida. 

Não somos dos que mais ganham mas, tão-pouco, somos mileuristas. 


Isto é, que nos podemos dar a um luxo volta e meia sem que por isso a nossa economia vá à bancarrota. 

Mas o meu amigo é aforrador e para ele, o vinho deve ser barato. 

O vinho e a comida, as outras coisas não. 

Nesse dia levava eu uns jeans de Armani e não me censurou por esse gasto, nem lhe pareceu supérfluo. 

Claro que ele vestia marcas similares. 

Li há uns tempos por aí, algumas críticas furibundas, porque Marinho Pinto, que gosta de comer e beber bem, bebeu (com o ministro da Justiça e Noronha do Nascimento, quando este era Procurador-Geral) um ‘Evel Grande Escolha’ de 2004” que custa no Gambrinus (onde jantaram) 96 euros, pagos pelo Bastonário e assim gasta o dinheiro (dele ou da Ordem, para o caso não me interessa). 
 

Há sempre muitos motivos para criticar, mas o que tem de mal gostar de um bom vinho e gastar o “seu” dinheiro a bebê-lo? 

Não faço a mínima ideia do seu salário mas suponho que se afastará também do mileurismo. 

Se tem possibilidades por que criticá-lo? 

Por gastar o dinheiro em algo que gosta, beber ou comer? 

Por que é isto um esbanjamento criticável e não o é, ter uma super-casa, um super-carro ou vestir roupa de marca? 

Lembrei-me das palavras dum “amigo”, Sebastián Damunt, dono do Restaurante La Tana, no Cabo de Palos (Múrcia-Espanha): 

“Antes da crise o “pessoal” queria que os demais vissem que bebiam um bom vinho, deixando bem visível o rótulo da garrafa. 
Agora os que continuam a bebê-lo solicitam que decante a garrafa na cozinha para que as outras mesas não os critiquem por estarem a beber um vinho caro”. 

Mas nos restaurantes continuam a exibir roupas de marca, bons sapatos e certamente que chegam em bons carros. 

Isto não está malvisto nestes tempos de crise. 

Pedir um bom vinho, sim. 

Mas eu não sou um aforrador, com o meu dinheiro, que ganhei a trabalhar, continuarei a comprar bons vinhos, ainda que gaste menos em roupa, não tenha casa de sonho, nem chalé perto da costa num local de “Reserva Ecológica Nacional” ou "área ou paisagem protegida por lei".

Boas pingas "pra" todos!

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terça-feira, fevereiro 01, 2011

- A esfregona só gosta de chãos sujos !

A MAIORIA

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99,64 % dos portugueses, (sondagem elaborada por mim), rejeita, repudia, nega, recusa e muitos mais adjectivos, a subida de impostos. 

Mas apanha com ela no toutiço em todos os cortiços. 

Já se sabe que na nossa democracia não tem qualquer influência a opinião da imensa maioria. 

É o mesmo, quer vivam no Piodão ou à intempérie. 

Alguns estão convencidos que para sair da ratoeira da crise, ter-se-ia que ser mais astuto que a rataria engravatada com calças coçadas no cu, podres inerentes ao poder; outros acreditam que bastaria ser-se menos lerdo que os nossos governantes, mas devemos optar por um prudente termo médio: suprimir oito de cada dez inúteis, por exemplo, aliviaria consideravelmente a situação. 

Tão-pouco ficaria mal pedir a receita ao Executivo da senhora Merkel, que baixou em 24.000 milhões de euros a pressão fiscal, para que não estoure a panela. 


Difícil mesmo é saber como se pode arrecadar mais, espremendo menos aos de sempre. 

Quiçá, teríamos que ser alemães e isso é uma vantagem. 

A Alemanha e a senhora Merkel são assim: obedientes, inclusive para o que eles gostam. 

Pelo contrário, a nossa acreditada rebeldia que nos faz reprovar sistematicamente os abusos e a alta de impostos é unanimemente repelida. 

Pensamos que é necessário ter muito pouca vergonha para pensar em tal desaforo, porque isso é o que fazem as pessoas que acreditam que ainda nos resta alguma. 
Reduzir os gastos públicos, eliminar as criminosas empresas públicas, que não são assim tão públicas, mas mais tipo “sociedade secretas” ou “clube de amigos”, ministérios estéreis e esbanjar menos em futilidades, são remédios que se prescindem neste Portugal Camoniano e Camiliano onde cada um coloca os seus problemas à frente de tudo. 

E os interiores interesses.

É irremediável que quase todos nós tenhamos que acomodarmo-nos a viver com menos. 

Ou com mais apertos, depende do lado do torniquete onde nos encontramos. 

Tal e qual soa, já que o que não soa são os euros no nosso bolso. 

Para alguns será o retorno a épocas distantes, mas não para alguns dirigentes. 

Para eles será uma novidade o continuo e habitual blá-blá-blá!!!

26OUT09
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