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Tirada DAQUI
Foi casual, como tudo.
A rádio emitiu o tema apropriado no preciso momento.
Três ou quatro canções depois de entrar no meu táxi, começou a soar “California Dreamin”, (The Mamas And The Papas) e então ela, franziu o sobrolho, deu um suspiro, abriu a boca nesse instante e como por instinto do decoro cobriu o rosto com ambas as mãos.
Era, sem dúvida, a reacção de quem se vê surpreendida por um estímulo já esquecido cuja recordação emite de súbito imagens e vivências, também esquecidas, qual tsunami de múltiplas ondas.
Nos casos como este, as recordações são mais importantes que a própria canção em si.
Como uma sorte de teletransporte.
Ou um retrocesso no mais recôndito do alma.
Os da minha geração e anteriores, temos uma ou várias canções passadas que iniciaram, sem querer, o que agora somos.
Canções cujo rasto por vezes perdemos e só a casualidade encontrou ou que se perderam (como lágrimas na chuva) e talvez regressem um dia.
Canções que não retomamos ou só por casualidade, porque ainda não existia Yotube nem Spotify.
Não eram tão acessíveis como agora: escutavas o tema num “boteco” ou num “recinto de bailação” e aí ficava, cantarolada na tua lembrança, mas nem sempre era fácil conseguir o seu título ou intérprete e daí, o procurar na tua loja de sempre ou no vinil de um amigo.
E isto mesmo, nas próximas gerações, não voltará a passar-se.
Agora o acesso a qualquer canção é imediato.
Inclusivamente cantarolando-a ao micro do computador, a Web de sempre “chiba-te” o nome, o intérprete e a tradução para o teu idioma.
Agora a casualidade já não será tão surpreendente como para aquela utente.
E todas essas lembranças sonoras súbitas serão megas arquivadas em pastas.
E a memória sonora será cache.
E a música perderá o seu excitante campo gravítico.
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