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Nos seus 60 anos, Estevão, nunca trabalhou na sua vida.
Disse-mo sem dar muito importância ao assunto.
Pertence a uma família endinheirada, a culpa não é sua.
Recebeu a sua primeira herança milionária ao cumprir 18 anos e, desde então, só se ocupou da gestão do seu património sem grandes ganâncias nem mais ambição que a sua inata curiosidade.
– Dois dos meus irmãos arruinaram-se porque quiseram sacar a maior rentabilidade possível da sua parte da herança.
Um deles na Afinsa e Forum Filatélico.
Outro nos casinos de meio mundo, disse-me.
Estevão optou por viver a vida e aprender dela.
É um leitor voraz, cultíssimo.
No fim dos anos setenta comprou uma casa na ilha de Formentera (a mais pequena ilha habitada das Baleares e o último paraíso do Mediterrâneo, onde só se tem acesso de barco a partir de Ibiza.
Que nostalgia ao escrever estas linhas…).
Ai possui uma pequena horta que ele mesmo cultiva e o abastece.
Também pesca.
E pinta a óleo e a sua televisão não tem antena (só vê filmes em DVD).
E anda de bicicleta.
Encanta-se com as conversas de bar e jogar xadrez com os amigos.
Agora deu-lhe para aprender a tocar guitarra e está a estudar à distância História de Arte.
Nos seus 60 anos não sabe o que é aborrecer-se, faltam-lhe as horas.
Muitos outros não sabem o que fazer depois do trabalho.
– Viemos a este mundo para sacar-lhe o suco.
Estamos obrigados a aprender e a crescer.
Muitos trabalham, não só para subsistir, como para criarem necessidades que não necessitam ( redundância é propositada).
Pensam que trocar o seu velhinho carro por um mais pequeno é um sintoma de fracasso.
Lutam para aumentar o seu património e, com ele, o seu conceito de status.
Café Majestic - Porto
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Associar o crescimento pessoal ao dinheiro é um erro que, no final, sai caro.
Gera uma eterna insatisfação.
E rancor.
E invejas prejudiciais.
Diz-me isto enquanto o transporto no meu táxi desde o aeroporto até ao Majestic.
Ficou no Porto com um amigo de infância para jogar uma partida de xadrez.
– Se perder, regressarei a Formentera est mesma Tarde/noite, disse-me.
Pedi por favor para presenciar a partida.
Disse-me que sim.
Deixei-o em Santa Catarina (Majestic) e fui aparcar na Praça dos Poveiros.
Tínhamos combinado encontrarmo-nos no Clube de Xadrez do Porto logo ali em Passos Manuel.
Fui.
A partida durou cerca de hora e meia.
Ele só bebeu dois cafés, pagou tudo e deixou uma suculenta gorjeta.
Quando o amigo ganhou, Estevão deu-lhe um forte abraço e agradeceu-lhe a lição de hoje.
Pediu-me para o levar novamente ao aeroporto.
Ao despedirmo-nos, com outro abraço, convidou-me a passar uma temporada em sua casa na ilha de Formentera.
– Quando quiser telefone-me.
A minha casa é sua.
Ali poderá actualizar o blog com calma.
Pago o avião e empresto uma cana para pescar.
Deu-me um cartão com o seu nome; só, Estevão, sem apelidos, e o número do seu telemóvel.
Talvez lhe telefone.
Vou necessitar de lições intensíssimas de xadrez.
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