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Os táxis servem-lhes para as pressas.
Chegam tarde ao trabalho.
Quanto mais perto vivem do
trabalho mais tarde chegam.
Chegam tarde a um encontro.
Quanto mais importante
é o encontro mais tarde chegam, ou maior é a angústia, ou o relógio pesa mais.
E os semáforos em vermelho, são o inimigo.
E aquele inepto do carro que tenta
estacionar numa rua estreita, é o inimigo.
Ou o taxista fleumático.
Matá-lo-iam
ali mesmo.
Ou a impotência de um engarrafamento.
A pressa é um vírus que flutua
ao comprido e largura do habitáculo; cola-se aos tapetes como sémen adolescente.
A passageira de olhos vermelhos tem pressa e naquele instante entra-me uma dor
no útero que não tenho e acho que se me romperam as águas, saco o lenço mental
pela janela imaginária e sorteio carros, persegue-nos a policia e eu Thelma e
tu Louise, que Brad Pitt espera-nos ao fundo do precipício de seu destino.
Amiúde,quando chegamos e travo de repente, pagam-me rapidamente, agradecem-me e saem a
correr; e eu fico com o coração ainda latejando, bombando as amígdalas da minha
garganta e irrigando, além disso, a minha cara de idiota.
E costumo aproveitar
a inércia para telefonar-te, ofegando:
Amo-te.
E tu assustas-te porque crês que
voltei para as drogas, mas não.
Ou pelo menos creio nisso.
A testosterona
continua a ser legal.
E telefono-te porque o amor é também urgente nesses
casos.
Ou mais que amor é a ansiedade por ter-te ou por saber que te tenho, que
ainda estás aí, no outro lado, e pensando em mim tal e qual como eu mas num
ritmo diferente.
E digo-te: acabo de arriscar a vida por ti.
É mentira, mas
vivo num país de mentira.
Posso permitir-mo.
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