O VIDEIRINHO

domingo, fevereiro 28, 2016

FÁBULAS

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Os táxis servem-lhes para as pressas. 

Chegam tarde ao trabalho. 

Quanto mais perto vivem do trabalho mais tarde chegam. 

Chegam tarde a um encontro. 

Quanto mais importante é o encontro mais tarde chegam, ou maior é a angústia, ou o relógio pesa mais. 

E os semáforos em vermelho, são o inimigo. 

E aquele inepto do carro que tenta estacionar numa rua estreita, é o inimigo. 

Ou o taxista fleumático. 
Matá-lo-iam ali mesmo. 

Ou a impotência de um engarrafamento. 

A pressa é um vírus que flutua ao comprido e largura do habitáculo; cola-se aos tapetes como sémen adolescente. 

 

A passageira de olhos vermelhos tem pressa e naquele instante entra-me uma dor no útero que não tenho e acho que se me romperam as águas, saco o lenço mental pela janela imaginária e sorteio carros, persegue-nos a policia e eu Thelma e tu Louise, que Brad Pitt espera-nos ao fundo do precipício de seu destino.

Amiúde,quando chegamos e travo de repente, pagam-me rapidamente, agradecem-me e saem a correr; e eu fico com o coração ainda latejando, bombando as amígdalas da minha garganta e irrigando, além disso, a minha cara de idiota. 

 

E costumo aproveitar a inércia para telefonar-te, ofegando: 
Amo-te. 

E tu assustas-te porque crês que voltei para as drogas, mas não. 

Ou pelo menos creio nisso. 

A testosterona continua a ser legal. 

E telefono-te porque o amor é também urgente nesses casos. 

Ou mais que amor é a ansiedade por ter-te ou por saber que te tenho, que ainda estás aí, no outro lado, e pensando em mim tal e qual como eu mas num ritmo diferente. 

E digo-te: acabo de arriscar a vida por ti. 

É mentira, mas vivo num país de mentira. 

Posso permitir-mo. 
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sábado, fevereiro 27, 2016


- A minha namorada tem a fantasia sexual da “colegial”, mas eu não me sinto cómodo com aquele traje vestido!

ÚLTIMO CIGARRO

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Tirada daqui

Os pais de Irene dirigem uma tabacaria perto do centro da cidade. 

Poderia dizer-se que Irene cresceu entre pacotes de tabaco, caixas de cubanos e artefactos para os fumadores. 

Ainda se recorda como brincava, em pequena, a esconder-se atrás de caixas de "SG Gigante", ou a formar figuras com os cartões das embalagens de "Gama" ou "Mayflower". 

Também costumava observar, desde a cortina da parte traseira da loja, os clientes que os seus pais atendiam. 

De entre eles havia um que se destacava sobre os demais.

Chamava-se Cosme, snr. Cosme e entrava na tabacaria todos os dias com o seu sorriso impecável, o seu fato de alfaiate, o seu chapéu, para pedir com aquela voz de actor de cinema, dois maços de tabaco "Português Suave" sem filtro. 

Irene chegou a sentir um certo amor platónico por aquele homem. 

 

Irene cresceu e acabou por ajudar os seus pais no atendimento do negócio. 

Recorda que um dia o snr. Cosme, já um pouco entradote na idade, mas ainda atractivo entrou como sempre para comprar os seus dois maços de tabaco, despediu-se com um “até amanhã” mas nunca mais voltou. 

A sua mãe disse a Irene que o snr. Cosme se tinha mudado para Braga, o que me parece ter sido mentira. 

Na realidade o snr. Cosme tinha morrido aos 55 anos, de um enfisema pulmonar. 

A partir de então Irene começou a interessar-se pelos efeitos do tabaco. 

Fumou o seu primeiro cigarro aos 24 anos e não gostou absolutamente nada. 

Fazia-a tossir e ficar enjoada.

Não entendia como havia tanta gente dependente de uma droga que, longe de provocar algum prazer, matava, não só o snr. Cosme, mas também a milhares de pessoas em cada dia.

 

No entanto, ela também se viciou. 

E então, não só compreendeu a armadilha do tabaco, mas começou a ver os seus próprios pais do lado dos carrascos. 

Tinham dedicado toda a sua vida a vender uma droga que matava irremediavelmente. 

Também começou a desconfiar do mundo, a ver o mundo como uma farsa: “como é possível que todos os governos do planeta não só legalizem, mas também lucrem com semelhante veneno genocida?”. 

Nota: 
Irene instalou-se no Porto não só para se ausentar do seu mundo anterior, vítima duma desconfiança enfermiça, como também, de certo modo, porque necessitava acreditar que o snr. Cosme continuava vivo. 

Necessita acreditar que acabará por chocar com ele enquanto caminha. 

E enquanto me contava isto, eu apaguei o último cigarro.
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sexta-feira, fevereiro 26, 2016


- Durmo com a cama bem feita e acordo com os lençóis  enroscados ao pescoço, os cobertores no chão e o colchão na casa da vizinha!

SEM TRONO

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Mataste tantos passados que algum dia sentir-te-ás assassino de ti mesmo. 

Ou pior: o teu próprio coveiro. 

Não tiveste em conta que os sedimentos acabam colapsando a alma; que as mentiras pesam mais que o ar e deixam recordações lá onde os olhos não chegam. 

Beijarás novos lábios mas as línguas, além de néctar, injectam memória; e o suor corrói tantas máscaras como as que utilizes. 

E não há mal que sempre dure. 

E não é possível voltar a estrear caricias ainda que envolvas em látex as tuas mãos. 

E as pupilas sabem latim, e não há pior cego que o que não sabe ler. 


Descobri-te quando entraste no meu táxi com essa nova garota. 

Ela queria deixar-se querer e tu beijavas o seu pescoço como quem joga ao Drácula das metáforas, piscando um olho a ti mesmo. 

Já só te saciam os amores alheios; coleccionas dependências como um idoso colecciona sacos do supermercado. 

Agora sentes-te monarca no reino do teu umbigo, mas no final vencerá a república. 

Sei-o porque eu, antes, fui o que tu agora és. 

Foi uma princesa que me destronou. 
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quinta-feira, fevereiro 25, 2016


- O sexo anal será tributado a 23%; o oral a 13% !

FALAR PRÓ BONECO

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Não sou daquelas pessoas que consultam e tentam tirar as suas dúvidas com o travesseiro; de facto, para mim, o meu travesseiro não fala, se aperto muito a cara contra ele pode escutar o meu próprio coração, mas ele, como se sabe, nunca foi um bom conselheiro. 
Nem tão-pouco me incluo nas pessoas indecisas que consomem meia vida para tomarem decisões. 
Tenho tudo muito “arrumado” e bem esclarecido, Coca-cola ou Pepsi ? Cerveja! 
Carne ou peixe ? Carne! 
Frio ou quente ? Frio! 
Acima ou abaixo ? Talvez os dois, pois há momentos para tudo. 
Tudo bem se te equivocas numa decisão fácil, é possível que um dia entres numa pizzaria e quando estejam a ponto de te servir a tua quatro estações com dupla dose de queijo penses, “merda, agora mataria por comer uma posta mirandesa com três dedos de espessura” mas tudo bem, porque seguramente também desfrutarás da quatro estações com dupla dose de queijo. 

 
As decisões importantes? 
Bom, suponho que todo o mundo tem claro esse tipo de coisas, não é ? 
A gente sabe se quer ter filhos ou não, se quer viver no campo ou em pleno Central Park, se amam o seu parceiro ou se aguentam por obrigação e costume. 
A única coisa que os torna em seres indecisos e temíveis, é a ideia de desistir de tudo, uma vez que foram eles que escolheram.
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quarta-feira, fevereiro 24, 2016


- Estou com fome, sono e preguiça. 
Esta última impede-me de fazer os dois primeiros!

DEUS BEIJOU

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Deus parou no caminho, olhou em redor, para um lado e para o outro. 

Sacou a ‘pila’ para fora e começou a urinar; imediatamente apareceram insectos de todo o tipo que começaram a beber naquele charco. 

Estava em pleno êxtasis evacuatório quando alguém lhe tocou no ombro. 

“Não tens vergonha, na tua idade?”. 

"Justamente por isso é que eu não tenho vergonha, idiota”. 

Chegaram, como sempre, ao local, à hora de sempre e os dois vestidos com elegantes trajes negros, chapéus, sapatos brilhantes, etc. 

Deus com um cravo branco, o outro com um vermelho.

 
”Sempre foste um insolente”, disse sorrindo. 

Deus, também sorrindo, beijou-o na boca. 

Foi um beijo em grande estilo (ups), ardente (ups, ups). 

Ali não havia ninguém a olhar, só os insectos e os dois homens beijando-se como só podem beijar os condenados ao amor clandestino. 

Uns tantos encontros em lugares secretos, coisas que ninguém deve saber, coisas que ninguém pode evitar.
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terça-feira, fevereiro 23, 2016

- Não necessitas ver o meu rosto para saber que sou eu quem escreve, de igual modo que não tenho que escrever o teu nome para que saibas que é para ti!
Pois é... 
Um lamentável acidente levou-me ao hospital para colocação de uma prótese no joelho.
Há sempre uma justificação para a ausência… ou é definitiva, prova de que o mortal partiu para o outro lado do nada, ou, como no meu caso, por uma avaria técnica na lubrificação da dobradiça de suporte e movimento do joelho.

Como já disse, tive que colocar uma prótese porque a ferrugem deteriorou o original.

Agora tudo rola, anda e corre…

Pela imagem abaixo podem verificar a colocação da prótese no joelho esquerdo acidentado.

Estou a ficar melhor e a coisa vai arrebitar dentro em breve!!! 

Regressarei à velha equipagem desta malandragem que pulula por aí (e também por aqui)! 

Um até já!


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