O VIDEIRINHO

segunda-feira, maio 02, 2016

- Amo a curiosa maneira em que o teu corpo e meu corpo se conhecem, exploradores que renovam o mais antigo acto do conhecimento !

CRUZADA PELA IGUALDADE (PORQUE NÃO O ENGOLES?)

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Noutro dia estava numa tertúlia conversando com uns amigos sobre diversos temas transcendentais,  como é habitual. 
A nossa dependência aos tremoços fez-nos sofrer uma overdose  de sal que tratámos mitigar banhando os nossos gasganetes com uma bebida tão glamorosa como atemporal, a água da torneira. 
Não sei se foi a carteira do Fortunato que caducou, se o excesso de sal nas veias ou a cacetada que dei contra a parede no dia em que a minha mãe me expulsou do seu ventre, o certo é que saquei à colação de um dos temas mais controversos para o hommo erectus: “por que há mulheres que não o engolem?"
Falamos do sémen. 
Essa prodigiosa mistura que converte a tua cútis na inveja de qualquer pré-adolescente, quer seja ingerido ou espargido "a modos que" como um creme. 
Este viscoso líquido pode transformar a tua vida (sim, escrevo-o para ti mulher triste e taciturna) num mundo cor-de-rosa graças ás suas propriedades antidepressivas. 
Um manjar dos deuses, segundo o chef Fotie Photenhauer, que para além de tudo, também, controla a tua ovulação! 
Supostamente que  o esperma não é a panaceia e tem as suas contra-indicações por uso indevido. 
Se o aplicas directamente via vaginal corres o risco de fod****, digo lixares, a vida para sempre e, de passagem contribuíres para um dos grandes males de que padece a raça humana: a procriação. 
Não obstante, se leste estas linhas demasiado tarde não temas, porque ainda que já não tenha remédio graças aos entendidos, sempre podes afogar as penas da gravidez num copo quentinho de leite viril, melhor o da manhã, que é também, quando escorrega melhor, e assim evitarás as terríveis náuseas matutinas.  
Ainda estás céptica? 
Pois informa-te aqui. 

 
Com todas estas maravilhosas vantagens que te acabo de descobrir, por que não o engoles, (talvez não tenha mencionado o excitante que é, para as mulheres, o aroma da espermina), ? 
Por algum motivo que desconheço, normalmente os meus amigos e eu não estamos rodeados de mulheres, mas por coincidência no outro dia, acompanhavam-nos duas. 

 
Quando expus a intricada questão só tive que olhá-las olhos nos olhos (sim, caríssimas, somos capazes!) para obter uma resposta demolidora. 
Ambas deitaram o olhar para outro local, franziram o nariz e sentenciaram com um “berrr!” 
A princípio tratei de familiarizá-las com a própria natureza do sémen como descrevi mais em cima, mas misteriosamente, não lhes pareceram argumentos de peso para “darem-se à bebida”, de modo que fui um passo para além e tentei que se dessem conta de que directa ou indirectamente a semente de muitos varões tinha passado pelos seus lábios alguma vez, e quiçá também pelos meus. 
Como sabemos ao dar dois beijos a uma pessoa que não acaba de ser roçada por um ou vários ecúleos selvagens? 
E se não tiveram tempo de lavar-se? 
Terá chegado um Kleenex para eliminar todos os vestígios de uma noite louca? 
Quando as garotas começaram a convulsionar com náuseas detive-me, num acto prodigioso de cavalheirismo, levantei-me, despedimo-nos (apertaram-me a mão com cautela) e fui para casa profundamente indignado. 

Pensa bem; um dia o horóscopo sorri-te, alinham-se os planetas ou seja lá pelo que for e terminas na cama com uma mulher. 
"Vergas a mola" até à horizontal e preparas o oral, muito aplicado, disposto a demonstrar que as milhares de horas que consumiste de porno foram produtivas e começas a lamber e acariciar com destreza os “baixios” da tua companheira. 
Ela provavelmente terá os olhos fechados e estará a pensar nas (re)caídas de José Carlos Pereira, havendo, mesmo assim, fortes probabilidades de que está a gozar como nunca. 
Então, como por artes mágicas, tocas a tecla adequada e um jorro de fluxos vaginais salpica-te o bigode. Qualquer homem que se preze, longe de deter-se, seguramente que se motivaria ainda mais e incluso sugaria, como se duma cabeça de camarão se tratasse. 
 

Mas, e se de repente a situação muda? 
Garinas, pode ser que chegue um dia em que nos lubriqueis o nariz e nos enfademos com vocês: “mas isto é o quê? Sem avisar?”. 
Então recolheremos a nossa tralha e marchar-nos-emos dignamente até nossas casas para nos masturbarmos pensando no que pôde ser e não foi. Olhai pessoal, se pretendeis desabafar ás vossas amigas a pastosa explosão de sabor por surpresa, devo advertir que tendes bastantes possibilidades de que a chavala ainda não esteja preparada e vos tatue com os cinco dedos da mão nas vossas caras. 
Por isso desaconselho completamente esta prática e convido-os a que pergunteis ás vossas companheiras, amantes, ás das quecas esporádicas ou vítimas dum qualquer narcotizante, se o engolem, porque se o aceitam acedereis ao restrito grupo de homens que desmontaram o mito do happy end.
Alguém pode acrescentar um pouco de luz sobre o tema? 
Se for assim, deixai-o nos comentários, (para poder somar a esta pequena cruzada pela igualdade).

E garotas, não vos preocupeis, é só uma piada.
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terça-feira, abril 12, 2016


- Hoje regresso ao trabalho mas não estou a chorar, é que me entrou num olho, um pouco de preguiça infernal !

SARRABISCOS

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Apesar do seu estado de embrieguês, o passageiro parecia lúcido, iluminado pela necessidade de dar um sólido conteúdo ás suas palavras. 

Tinha-se sentado ao meu lado.  
E enquanto eu conduzia, o jovem falava e olhava-me muito perto de mim, quase auscultando o meu rosto. 

Mesmo com isto, em nenhum momento cheguei a sentir-me observado ou desconfortável. 

Mais parecia um anjo que esqueceu as suas asas no último bar. 

Cruzando a Av. da Liberdade, deu-lhe para falar da janela de Johari.

- Tem um papel e uma esferográfica? 

- Aí, no porta-luvas, disse-lhe. 

Sacou do porta-luvas de uma maço de guardanapos de bar (tenho sempre; agrada-me o seu tacto impermeável para escrever poemas ou tomar uns apontamentos) e pôs-se a gatafunhar e a explicar-me cada uma das suas partes (isto é real, vejam a foto):


Segundo me disse, a janela, a janela de Johari é uma ferramenta que os psicólogos utilizam para ilustrar os nossos processos de interacção: quantos de nós conhecemos os demais ou em que grau nos conhecemos a nós próprios. 

Tudo isso dividido em quadrantes. 

Concretamente quatro: 

Aberto ou livre: a parte de nós que os demais também vêem. 

Oculto: o que ou outros compreendem de nós, mas nós não. 

Cego: A parte mais misteriosa do subconsciente que nem o sujeito nem os demais em seu redor compreendem. 

Desconhecido, perdido e escuro: o espaço pessoal provado. 
 
JANELA DE JOHARI - relacionamento interpessoal
  

 
O importante, acrescentou, é ser consciente desses quatro quadrantes; tender a ampliar o que conhecemos de nós próprios com a intenção de reduzir ao mínimo o desconhecido. 

Se conseguirmos, por exemplo, que os demais nos descrevam tal como nos vêem, talvez possamos descobrir qualidades ocultas em nós. 

Dou-lhe um conselho, amigo: 
Abra-se aos outros e assim conhecer-se-à melhor. 

Mas o realmente inquietante chegou depois. 

Ao chegar ao destino estendeu-me a importância do trajecto juntamente com o guardanapo e, antes de sair, acercou-se de mim e deu-me um beijo na face. 

E eu nem tive tempo de pestanejar, deixei-me beijar.

10NOV2011
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segunda-feira, abril 04, 2016



- Quando alguém deve ser mandado à merda, não hesites em fazê-lo; a diplomacia é para as embaixadas !

AGUILHOADAS

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Agora a dor também viaja através da internet. 

Do cabo de minha casa, ao cabo da tua. 

Ou pior: via Wi-Fi. 

05/12/2010: 
Numa ocasião sucumbi a essa infernal tentação de querer saber, poder procurar e entrar no fim como um voayeaur na tua recente vida através de Facebook. 

Noutra altura 'biopsiei' cada nova foto tua (o mesmo corpo de ninfa, o mesmo sorriso, por que sorris agora se comigo eras feliz?). 

Outra vez beijei a electricidade estática do meu monitor ante essa tua fotografia que eu tirei, naquele analógico verão e continuas a mantê-la intacta. 

Mas desta vez afundo-me ao ver mudado o teu estado civil, de “solteira” pelo de, “Tem uma relação com…” e clico na merda do seu nome, comparo-o comigo (mais bonito, reconheço-o; mas nunca chegará a querer-te tanto) e borrifo-me no seu perfil (porquê ele?). 



Que terá para além desse físico? 

Com que direito violou a lembrança de meu nome?). 

13/02/2011: 
Não consigo entrar no teu perfil completo. 

Só posso ver as tuas fotos (apagaste as daquele verão, mas apareces numa nova, com aquele boné que te ofereci). 

Entro na tua lista de amigos, mas eu já não consto. 

Já não estou entre os teus. 

Decidiste votar-me ao ostracismo. 

Não queres que eu seja de ti. 

Talvez a tua nova vida o impeça. 

Ou foi ele que to pediu. 

04/05/2011: 
Agora nem sequer posso ver as tuas fotografias. 

Agora só as podem ver os teus amigos. 

Os teus 107 amigos. 

Eu não. 

Só uma. 

A foto do teu perfil. 

Sentada e sorrindo, com uma janela por fundo que não é a tua janela. 

Não são as tuas paisagens. 

Nesta há árvores e um baloiço. 


05/05/2011: 
Dei três ou quatro voltas ao teu quarteirão. 

Nem rasto do teu carro, não há luz na tua janela. 

Aproveitando o descuido de um vizinho colei-me ao teu portal. 

Na caixa do correio já não aparece o teu nome. 

Não és a Maria Cavaco Silva e muito menos José Sócrates. 

Tu mudaste de residência e não sei para onde. 

Para essa casa com jardim. 

Já só me resta o meu táxi, a casualidade do meu táxi. 

Que apareças, um qualquer dia, por uma rua de tantas que há… e me levantes o braço sem saber que sou eu. 

E que me alcances e eu acelere veloz e me deixes explicar-te. 
NOV2013
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terça-feira, março 15, 2016


- O apóstolo Pedro foi crucificado em Roma, de cabeça para baixo, numa cruz em forma de X.

O apóstolo Paulo foi torturado e depois decapitado pelo maligno imperador Nero em Roma em 67 d.C.
Ó tempo volta para trás !

ESQUECER

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Hoje escrevo de Roma, cidade eterna. 

Participo num colóquio sobre mobilidade urbana, que o Sindicato dos Tesos e Motoristas de Táxi teve a lembradura de organizar longe do bulício da minha cidade, que não é tão eterna, mas é “Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta”. 

Compartirei mesa, se encontrar uma mesa, com grandes cérebros taxistas, ou tesos de nível mundial. 

É tudo um luxo. 

Cheguei de táxi e avião, ou de avião e táxi, (a ordem pouco importa), há apenas umas horas. 

Depois de me instalar no hotel e comprovar que o vermelho, aqui também, corresponde à água quente, deu-me para sair à rua e seguir o primeiro viandante com que me cruzasse. 

É a minha particular forma de fazer turismo. 


Primeiro segui um homem carregado de carteiras, mas acto contínuo meteu-se num portal e perdi-lhe a pista. 

Depois comecei a seguir um casal que caminhava da mão dada, em passo lento. 

Pareciam innamorato, 

Depois de dez ou quinze minutos a prudente distância, entraram num café, e eu segui-os. 

Sentei-me um par de mesas afastado e pedi uma cerveja. 

Ele levantou-se e foi ao quarto banho e depois de regressar não sei muito bem porquê, começaram a discutir. 

Em italiano, pois claro. 

Ela parecia realmente ofendida por algo que não cheguei a compreender. 

Logo o "boy" pagou a conta e arrancou sem ela. 

Também paguei a minha e segui-o.

 

Aquele tipo conduziu-me a outro bar. 

Começou a beber só. 

Eu também. 

Pensei que aquilo acabaria rapidamente, mas ele pediu outra bebida e depois outra e mais outra. 

E assim, por culpa do despeito daquele desconhecido, acabei às duas da madrugada bêbado e perdido.

Literalmente. 

Não só perdi o meu sentido de orientação; também a chave e a direcção do hotel. 

E assim, desta maneira, perdido como estava na imensidão histórica de Roma, senti-me livre. 

Não encontrar a forma de chegar a casa e tão longe de casa, converteu-se no melhor caminho para me esquecer de ti.
25NOV2011 
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segunda-feira, março 14, 2016

- Sê céptico com os cientistas. 
Essa gente trabalha para grandes grupos. 
Dizem que os telemóveis matam, mas também o disseram do tabaco e olha para ti, continuas aí !

VONTADES

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Suponhamos que todos os dias começamos planos: sem cor, nem olor, nem sabor, nem tacto. 

Suponhamos que cada manhã, nos sentimos obrigados a erguer as nossas vontades desde o zero, procurando matizes ou argumentos que lhe deem  volume e resposta a cada gesto. 

Suponhamos que essa soma de gestos acaba por criar, pouco a pouco, o nosso mundo. 

Um mundo diferente cada dia que se destruirá imediatamente ao cerrar os olhos, todas as noites. 

Já sabes, reais motivos que ajudam a levantarmo-nos da cama, ou a preparar o primeiro café do dia, ou a escolher entre um colete de tweed ou uma camisola ás riscas, ou a sair de casa rumo a esta ou aquela direcção; não por inércia, não como uma de muitas condutas aprendidas, mas sim porque realmente sintamos alguma motivação ou finalidade concreta em nos levantarmos da cama, ou nesse café com dois torrões de açúcar (porquê sempre o mesmo café e não o mudamos, talvez hoje, pelo sumo de pera?), ou no par de calças com pregas, ou em seguir a direcção exacta. 

 

Realmente acreditas que tudo o que fazes te apetece, te edifica, te surpreende  ou a maior parte das vezes são só cópias do teu passado, uma e outra vez? 

Somos tradicionalistas ou só apáticos? 

Acreditamos realmente que a vida é tão longa e monótona, ou a culpa é nossa? 

Desde os meus primórdios ao volante deste táxi e por arrasto com o meu “INSÉTE”, nunca comecei a trabalhar à mesma hora, nem segui um mesmo itinerário, nem sequer repeti uma linha na minha escrita. 

Nunca transportei duas vezes a mesma passageira, nem imaginei dois corpos desnudos iguais. 

Tão-pouco ganho em dois dias o mesmo dinheiro, nem acabo sempre no mesmo bar, ou na mesma cama, brindando com a mesma marafona. 


Deixo-me levar pelas luzes, pelo âmago exacto das sensações que gere cada rua, definitivamente, por essa capacidade de assombro que todos temos (ainda que alguns não a usem). 

E os dias mais difíceis, esses que exalam a tédio, visto-me com roupa interior feminina  e tudo muda e torna-se fascinante.

Nada melhor que jogar a ser outra personagem. 

Nota: 
As vontades nunca chegam sós: procuram-se. 

Conheço uma narco-vontade em cada esquina. 

E sim. 

Reconheço: sou viciado.
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sábado, março 12, 2016


- A sua vida era um tango de Gardel.
A minha, um cubo de Rubick nas mãos de um daltónico !


ENCHER BURACOS

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É o medo a esquecer o que me assusta. 

Chegar a casa e jantar uma sandes muito devagar, mastigando lentamente, enquanto observo os peixes de plástico do meu aquário. 

Ou conduzir o automóvel com o rádio desligado, seguindo de perto aquele carro negro pelo simples prazer de deixar-me arrastar por outras vidas. 

Costumo fazê-lo. 

Refiro-me a perseguir carros a esmo. 

O último que segui, para não ir mais longe, levou-me a um parque num velório. 

Aproveitando, já que estava ali, aparquei e entrei no café mais perto. 

Sabes que estás a ficar velho quando o empregado do café, do velório, chama pelo teu nome e serve-te uma cerveja sem a pedires: 

 

- Que tal José Torres, tudo bem? 

É curioso, mas os cafés perto dos cemitérios nunca têm azeitonas normais, nem azeitonas sem caroço. 

Se pedires algo, é sempre o mesmo, uns raquíticos amendoins… uns enfezados tremoços. 

Que estranho. 

Eu quero que nalgum dia me ocorra algo assim. 

Sacar o caroço a uma azeitona e meter no seu lugar um pedaço de pimento vermelho. 

Ou melhor: uma amêndoa. 

O caso é encher buracos. 

Dissimular vazios. 

É o medo a esquecer que estamos vivos. 
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quarta-feira, março 02, 2016


- Disse-me o padre da minha paróquia que é Deus que controla as ondas do WiFi!

POR UM FIO

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Ana é cardiologista e operou ao coração aquele que, anos mais tarde, acabou por ser seu marido. 

Durante aquela intervenção, o coração de Carlos parou oito longos segundos. 

Ana não esquecerá nunca a sensação daquele coração inerte entre as suas mãos. 

Recorda-o a cada noite, quando acaricia a cicatriz no peito de Carlos. 

Enamoraram-se depois, no pós-operatório. 

Carlos tinha chegado á urgência do hospital, vítima de um enfarte. 

‘Marchou’ imediata e directamente da ambulância para a ‘sala do corte e coze’. 

Por conseguinte, quando Ana o “rasgou de alto a baixo”, ainda não se conheciam. 

Ela nunca o tinha visto antes e Carlos estava inconsciente, sedado. 

Deve ser estranho conhecer primeiro o interior do que será o homem da tua vida, manipular os seus órgãos, incluso antes de ter escutado a sua voz, de terem trocado umas palavras. 

Que ao Carlos lhe tenha parado o coração e Ana o salve e ao salvá-lo também se salve a si mesma. 

Que agora, o coração de Ana se acelere cada vez que recorde esses oito segundos. 

Que Carlos deva a vida à mulher da sua vida. 

Que Ana encoste a sua orelha ao peito de Carlos e escute o coração de Carlos e adormeça placidamente com a cadência dos seus batimentos. 

Agora, sentados bem encostadinhos no banco traseiro do meu táxi, depois de me contarem a sua história, brincam: 


- Não teria surgido o amor se Ana, no lugar de cardiologista tivesse sido médica legista. 
Pelo menos eu não me teria enamorado dela. 

– Eu ter-me-ia igualmente enamorado. 
Sempre pensei que caladito estás mais bonito. 

– Por vezes creio que a Ana, naquela sala de operações, ficou com o meu coração. 
Que mo trocou por outro de reposição. 
E que o transporta sempre consigo. 
Mostras-me a carteira? 

– Que tonto és. 

Nisto beijaram-se.
Foi um beijo desses que provocam arritmias.

terça-feira, março 01, 2016


- Sou o titereiro na obra do destino, não o títere no cenário do tempo !

AMOR ANIMAL

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Talvez fosse possível cruzar a vida saltando de amante em amante qual esquilo sem memória. 

Crer em nano fracções mas com loucura. 

Abraçar outros corpos como espelhos do teu próprio corpo. 

Dar tudo por uma noite e um tudo diferente na manhã seguinte. 

Reinventar-te cada vez com Carol, com Marta, com Sara, com Beatriz, contigo. 

Viver o amor das tuas muitas vidas. 

Abrir o teu coração e dar um PIN a Carol, a Marta, a Sara, a Beatriz, mas um PIN diferente a cada uma. 

Um código exacto e personalizado para este preciso fragmento de cama. 

E dizer sempre ‘amo-te’ e não mentir. 

Quero-te com os meus dedos de agora, com a minha boca de agora. 

 Archaeological Reminiscences of Millet's Angelus (Salvador Dali)

Ainda não sei quem serei eu amanhã. 

Talvez fosse possível fugir da rotina, não forçar nem inventar novidades no velho, evitar chamar estreia a outro remake. 

O mesmo de nós em versão dilatada, procurar quadraturas de um círculo inchado pelo medo, medo a quem serei, se não estiveres tu a meu lado, medo ou vertigem cobarde. 

O amor animal não é perene: procura o prazo de validade no dorso do sutiã. 

Talvez fosse possível. 

Só actrizes secundárias para o papel da tua vida. 
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segunda-feira, fevereiro 29, 2016


- Gosto de levantar-me ao meio-dia ao domingo e continuar a locomover-me pela casa deitando-me esporadicamente em todos os locais propícios.

SONOS E SONHOS

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Um sonho de, “O Livros dos Sonhos”, escrito e ilustrado por Frederico Fellini.

Para mim, um dos melhores momentos do dia é quando ele finaliza... uma vez na cama, os breves segundos que antecedem o sono são extraordinários, o corpo ignora a gravidade, as pálpebras sabendo da sua inutilidade, caem rendidas, sem resistência. 

Esses segundos não têm medida de tempo, podes sentir como tudo o que te rodeia passa a fazer parte de um cenário sem importância, a escuridão apaga-se e o raciocínio desvanece-se dando passo à criatividade. 

É nesse instante que o cérebro aproveita a noite para actuar sem ser observado e desfrutar sem ser julgado, provavelmente esses instantes representam a verdadeira liberdade do ser humano. 

Eu tenho sonhos maus e sonhos bons, cheguei a sonhar que um desalmado me apunhalava, sentindo mesmo o frio metal entre as minhas “tripas” e asseguro que isso dói. 



Mas à poucos sonhos atrás, recebia outra visita com melhores intenções, umas mãos femininas moldavam suavemente o meu pescoço e com delicadeza faziam-me entrega de um delicioso beijo com sabor a lágrima, menta e açúcar, um beijo desses que não se esquecem, parecendo que esse beijo se tivesse preparado minuciosamente antes da sua entrega, entrega que curiosamente provinha de uns lábios inacessíveis, para mim, durante o dia... quando acordas, o teu peito inunda-se com uma estranha sensação de ressaca sentimental e emocional.


Através dos sonhos podes fazer tudo, inclusivamente o mais íntimo com a pessoa mais inverosímil que possas imaginar; podes visitar e abraçar os ausentes, caminhar nu no lombo de um elefante azul, podes ser um anti-herói, chorares até encharcares a almofada, fazer amor sem sexo, teres muito sexo sem amor, conhecer outro tipo de desconhecidos, estrangular o teu chefe, viajar sem pesadas malas, sentar-te na tua velha carteira de escola, mergulhares entre nuvens e whisky, ou ser lapidado por trinta e sete notários sem gravata...; reconhecerão que durante o dia as nossas possibilidades se reduzem consideravelmente em rígidos emaranhados e complexas barreiras. 



Creio sinceramente que os sonhos são uma ferramenta natural para não enlouquecermos quando estamos despertos, digamos que são um refúgio natural nocturno do pântano do nosso social diário. 

Os sonhos são tão 'flipantes' que nunca me interessei interpretá-los, compreendê-los ou desencriptá-los, creio que este esforço é preferível aplicá-lo no que ocorre durante o dia ao meu redor. 

A privação do sono é um dos mais efectivos métodos de tortura e a proibição e esterilização dos sonhos o mais cruel dos pesadelos. 

Faz agora cinco anos que “ensinei a voar”, o meu despertador.
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