O VIDEIRINHO

domingo, dezembro 29, 2013

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Pelo que pude ler nas entrelinhas da sua conversação telefónica, encontra-se numa dessas “etapas de transição”, entre o ponto final do homem da sua vida anterior e os homens suspensivos do presente. 

De unha e carne a só carne, diversão e um punhado de orgasmos sem compromisso nem aviso de recepção. 

Agora toca a pensar só em si e só em si, de momento. 

Agora toca a ler livros para adultos como entremeada entre dois livros de fadas. 

Agora toca a desintoxicar o amor morto, abrir os poros e as pernas, esfoliar a pele. 

Procurar o antítese do homem da sua vida anterior, alguém corpulento, forte como um touro, quase tudo fachada e por vezes sensível, que a trate como uma puta/dama na cama. 


Que depois da semente do rigor afogada no látex, a abrace com os olhos abertos e a acaricie nas costas com os punhos fechados. 

E que depois parta à espera da sua próxima chamada. 

O que até agora necessitava chama-se Zé, o mesmo Zé dos últimos trinta e um orgasmos, o mesmo que enfiava na sua cama cada vez com mais frequência: primeiro de mês a mês, depois semana a semana. 

Nunca houve amor, mas sim bom sexo. 

Zé acabou conhecendo o seu corpo como um mapa: sabe bem onde está Roma ou o momento de deitar abaixo o Muro de Berlim, ou dissolver a União Soviética do meio das suas coxas. 


E esses braços como rochas. 

E esse pau (pénis) opulento. 

E esse domínio da linguagem das línguas e dos tempos presentes. 

Mas nada nem ninguém dura o que cada um quer. 

Diz à sua interlocutora (outra mulher, suponho) que ontem o Zé falhou, que mostrou as suas fissuras, que foi vulnerável consigo. 

Que já não a excita como a excitava o sempre viril Zé de antes. 

A despedida ao orgasmo trinta e um. 

E escutando-a penso que o roçar continuo entre duas pedras gera chispas que por vezes conseguem acender a chama e outras vezes queimam. 


Não há duas pedras de igual consistência, nem chispas que prendam dois corpos ao mesmo tempo, nem corpo que aprenda a prender o outro corpo. 

Ela aprendeu a submergir o seu. 

A alma do Zé secou-se antes de tempo. 

Sinto-o por ele. 

Por si nunca. 

Nota: 
Brincares com o teu umbigo tem os seus riscos.
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