O VIDEIRINHO

quinta-feira, maio 09, 2013

A CRUZ

.


Um portador de andores, supus, com uma enorme cruz apoiada à parede de uma marcenaria, mandou parar o meu táxi e insistiu em colocar a cruz no habitáculo do carro. 

Como os bancos traseiros não são rebatíveis, em lugar de introduzir a cruz pelo cu do táxi, tentámos metê-la “de ladecos”: abri ao máximo a porta e com muitíssimo cuidado, conseguimos encaixá-la. 

Mas o madeiro horizontal era demasiado comprido e assim, não tive outra alternativa do que abrir os vidros dianteiros e deixar que emergissem uns centímetros para ambos os lados. 

O segundo inconveniente encontrei-o ao sentar-me no meu assento de condutor. 

A cruz ocupava toda a faixa à altura dos encostos de cabeça e tive que conduzir curvado, apoiando a minha cabeça na cruz. 
 

– Se nos baterem, partirei o pescoço, disse para o portador de andores. 

– Não se preocupe. 
Deus protege-nos. 

E assim, eu curvado e ele comodamente no assento traseiro, iniciámos a marcha. 

Pediu-me para o levar a uma igreja e lá fomos. 

Pelo caminho as gentes e os demais condutores olhavam-me com resignação; também dois polícias que, pese a verem-me deste jeito, (agachado e com uma cruz a atravessar o meu táxi e o meu pescoço, de fora a fora) fizeram vista grossa. 

– Bons cristãos, sem dúvida, acrescentou o meu utente. 

Lá chegámos à igreja e ao sacar a cruz vi que tinha deixado o habitáculo feito num Cristo, com farpas e pó de madeira em todos os assentos. 

Estive o resto da tarde com dor de costas. 

Para tentar mitigar a dor, rezei com muita intensidade, mas não surtiu efeito. 

No entanto depois tomei um par de Lorazepam e vejam lá, remédio santo. 
.

quarta-feira, maio 08, 2013

- Por que cobro o mesmo, no meu táxi, a um passageiro malcriado e bêbado, que a ti ?

PARLENDA

 .


“Falar não é mau, mas falar pouco é melhor."

Acaba antes. 

Na generalidade, falar deveria ser uma operação breve com mais frequência. 

Ao fim e ao cabo, não há assim tanto para dizer. 

Tudo deveria ser relativamente breve, quase sempre, para passar ao ponto seguinte, ou marchar-se para casa. 

Certas frases, depois do primeiro verbo, tornam-se untuosas, inacessíveis. 

Pronunciar-se com brevidade encerra a sua dificuldade, claro. 

Nem todo o mundo poderá ter gente de poucas palavras. 

Digamos que não basta calar, sem mais. 

Um indivíduo parco, reservado, não é alguém silencioso, que nunca tem nada para dizer. 

Em absoluto. 

E mais, tem provavelmente muito que dizer, mas renuncia, ou di-lo escassamente, codificado, para dentro. 

Poucas palavras não é simplesmente muito silêncio em seu redor. 

As poucas palavras são outra coisa. 

De início, são as que são, as justas, as que se necessitam, nem uma mais. 

Poucas, ainda que algumas. 

São certa filosofia da sobriedade e a ideia de que a vida acontece imediatamente, em especial quando a contas com muitas frases. 

Nem se improvisa, a menos que leves toda a vida ensaiando-a. 


Uma vez li algures que quando William Faulkner morreu, na sua cidade natal de Oxford, Mississipi, o comércio local colocou avisos que diziam: 
“Em memória de William Faulkner, esta loja permanecerá encerrada desde as 2.00 até ás 2.15 pm. 7 de Julho de 1962”. 

Foi uma homenagem modesta, curta, brevíssima, mas que a história não esqueceu. 

A brevidade é efectiva e não é por ser breve que não deixa eco. 

Falar transforma-se por momentos uma montanha escarpada, traiçoeira, em cuje cume não há grande coisa, salvo as vistas e a bruma e baixas temperaturas. 

Cada frase é uma adversidade, um martírio. 

Há que concebê-la, pensá-la, estruturá-la, enunciá-la, esperar que se entenda, o que com frequência não ocorre, afrontar as reacções e começar outra vez, nova frase, pensar, ordenar. 

Em todo o caso, a brevidade teve um maestro supremo: Augusto Monterroso. 

Aborrecia-o a conversa. 

Era de tão poucas palavras, que chamar-se Augusto Monterroso parecia-lhe maçador, quase um discurso e com a passagem dos anos podou-o até deixá-lo reduzido a Tito. 

 

A sua brevidade foi célebre, em tal grau, que para alguns se tornava inclusive longa. 

Foi o caso da mulher de um cônsul que lhe apresentaram durante uma recepção numa embaixada. 

Explicaram-lhe que Augusto era o famoso autor do conto do dinossauro. 

Cumprimentaram-se e durante o cumprimento a mulher comentou: 
“Ah, o conto do dinossauro, comecei recentemente a lê-lo, depois contar-lhe-ei a minha impressão quando o termine”.  
(A sua composição "Quando despertou o dinossauro" estava ali, um simples enunciado, que foi considerado o microrrelato mais curto da literatura, até aparecer "O Emigrante" do mexicano, Luis Filipe Lomelí). 

Estas poucas palavras recolhi-as algures e guardei-as até hoje. 

Hoje tinha consulta com o meu psiquiatra e a verdade é que não tinha muita vontade de falar.

Microrrelato de "Tito", Augusto Monterroso:
"Quando acordou, o dinossauro continuava ali."

Microrrelato de Lomelí:
"- Você esqueceu-se de alguma coisa?
- Quem me dera."
.

terça-feira, maio 07, 2013

- Se a noite é uma criança, sexo de madrugada é pedofilia ?

SEXO "PAPADO"

.



Vogando por um dos meus sites fetiches, deparei-me com uma notícia altamente perturbadora. 

O canibalismo continua latente e vivo nos países mais avançados do mundo e além disso, vinculado a práticas sexuais, como se fosse um ancestral rito tribal. 

Ainda comocionado, alerto-os sobre a mulher cuja desafiante imagem abre este post. 

O seu nome é Priscilla Vaughan e poderia devorar-te. 

A senhora ganha a vida como prostituta e recentemente esteve prestes a arrancar com mordidelas os atributos varonis de um dos seus clientes. 

Segundo relata a vítima, Priscilla, “tentou comer o meu pénis e os meus testículos. 
Atacou-me com tanta força que não conseguia tirá-la de cima”. 

Afortunadamente para o cavalheiro (?), a “Hannibak Lecter da rua” não conseguiu o seu propósito e foi presa pela polícia no “exactíssimo” mesmo local dos factos. 

 

Os agentes compareceram no hotel onde se produziu o incidente alertados porque os vizinhos ouviram gemidos e gritos de dor e angústia. 

Ao chegar, encontraram a mulher nua e com o rosto coberto de sangue. 

O homem também estava nu, deitado no chão e assustado. 

Apresentava marcas de profundas mordidas na zona pélvica e havia uma grande poça de sangue ao seu redor. 

Imediatamente a mulher foi presa, algemada e levada para a esquadra. 

O homem, que também indicou que a prostituta tinha consumido “elevadas doses de álcool, ecstasy e cannabis”, foi hospitalizado com evidentes lesões físicas na sua "pistola de amor" e na "fruta" dos arredores e, para além disso, com um dano psicológico que poderá ser irreversível.
.

segunda-feira, maio 06, 2013

- O sujeito era tão pequeno e insignificante que a sua profissão era lenhador de bonsai !

C'UM CATANO !

.


Por fim chegou o tão ansiado momento de delírio. 

Mas conto-vos. 

Noutro dia fui a uma entrevista de muitas a que tenho acedido, não me recordando bem do que se tratava; palavra puxa palavra, desbobinam-se recordações e ás tantas pediram-me que contasse uma das minhas anedotas, preferentemente, passada no táxi. 

Imediatamente me veio à cabeça uma em concreto e contei-a com todo o luxo de detalhes. 

O caso é que depois recordei que, nesse dia, aquele episódio tinha-o inventado de princípio ao fim para este blog. 

Não era real, mas descrevi-a, para aquele “entendido” convencido de que sim, que o era, recordando inclusive a descrição física e os gestos exactos do passageiro em questão. 

Longe de preocupar-me, aquilo pareceu-me um milagre. 

 

Quando chegas a um ponto de confundir ficção e realidade e começas a ter lembranças nítidas de ficções criadas por ti, é tentador construir um passado “a la carte”, subtraindo traumas e adicionando realizações ao teu capricho. 

Imagina que reescreves a tua própria infância e adolescência e em lugar daquele miúdo que te chateava nos recreios (ainda não havia o bullying), inventas que eras tu que o chateavas e a jovem feiosa que desvirginaste, converte-la em princesa, ou o teu fracasso escolar em cum laude. 

Imagina que assim corriges os teus pecados: reescrevendo com um tom realista um passado paralelo. 

Imaginai as massas que teria aforrado em psiquiatras (e em álcool) se o tivesse sabido antes. 
.

domingo, maio 05, 2013

- Um amigo meu salvou-se das inundações do Rio de Janeiro porque, no exacto momento estava "transando" com uma boneca insuflável !

SOLIDÃO ENSURDECEDORA

.


Citadino ou urbanita é o que encontra a beleza nas flores de plástico. 

É a loucura de dormir num décimo quinto andar com vistas para ti mesmo. 

É conhecer os gostos musicais ou a frequência sexual do vizinho de baixo, ainda que, jamais tenhais trocado nem meia palavra. 

É caminhar com os olhos pregados ao teu telemóvel, segurando o aparelho com ambas as mãos como quem maneja o volante dos teus próprios passos. 

A gente tropeça porque não olha de frente e já passou a moda de pedir perdão. 

Chocas com alguém e “lixas-te” todo porque perdeste o fio do que estavas a ler no ecrã. 

Inclusive caminhando, não podes evitar comunicar via Twitter ou Whatsapp ou Facebook com gente que não conheces em pessoa. 

Gente que mente até na sua foto de perfil. 

Talvez estejas a falar pelo telemóvel com o mesmo tipo com que acabas de tropeçar, ou com o teu vizinho debaixo e tu, sem o saber. 


Contas as tuas intimidades a uma jovem de Viseu, mas no elevador falas do tempo e sentes-te desconfortável. 

Um passageiro entra no meu táxi e baixa o vidro procurando esse ‘chuto’ diário de dióxido de carbono. 

Passam cinco ambulâncias, quatro viaturas da polícia e três camiões dos bombeiros e o homem olha as unhas. 

As sirenes na grande cidade não têm escalas, nem seduzem o marinheiro. 

Aqui só gritam, mas um grito imperceptível para um urbanita. 

Tornámo-nos imunes ao grito, à emergência alheia. 

Somos duros como essas facas japonesas que se publicitam por aí, mas choramos ao ver um menino chinês abraçar outro menino chinês no canal proezas do YouTube. 

 

Saímos para a calçada, desligando a alma enquanto subimos a música (com aqueles capacetes nos ouvidos cada vez mais enormes), como candidatos a um mais perfeito isolamento. 

Os caminhos são apenas uma formalidade patrocinada por posters de roupa íntima fina, empresas de electricidade ou de combustíveis, tamanho 36, tratamentos para parar a calvície ou a depilação a lazer. 

Mais cabelo para eles, menos cabelo para elas e carrinhos para bebés com travões de disco, testados pela União Europeia. 

E amor “a la carte”: preenche o formulário e nós encontraremos o teu parceiro ideal. 

E quanto mais juntos, mais sós. 

Por isso o citadino (urbanita) apanha táxis. 

De costas para o confessor é mais fácil falar por falar. 


.

sábado, maio 04, 2013

- Pode confiar-se nas pessoas más: nunca mudarão ! William Faulkner (Nobel da Literatura em 1949 e vencedor do Prémio Príncipe das Astúrias entre muitos outros)

VETUSTEZ

.




(hoje não é o final de outro dia, mas sim o início de um novo)


Vou contar-vos as coisas de que me inteirei ultimamente, nesta ausência mais do que prolongada:


Que a esquina da minha casa está duas vezes mais longe que antes… 

E, além disso, há uma pequena subida que antes não tinha reparado.

Que os degraus das escadas agora são muito mais altos…

Que não serve de nada pedir ás pessoas que falem mais claro, porque agora todos falam tão baixo que não se entende quase nada…

Que a roupa que agora quero comprar, fazem-na tão apertada, sobretudo na cintura e ancas, que me sinto muito desconfortável.



Que a gente tem mudado, agora é bem mais jovem que quando eu o era. 


E por outro lado, as pessoas da minha idade, são muito mais velhas do que eu.

Tanto é assim que noutro dia encontrei uma antiga conhecida e envelheceu tanto… que não me reconheceu.

Também deixei de correr atrás do autocarro porque, agora dei conta de que vai muito mais rápido do que antes.

Também tenho notado que o chão se distanciou bastante, para os objectos que deixo cair.

Tudo isto o vi reflectido esta manhã, enquanto me arranjava em frente ao espelho…

A propósito, já vos tínheis apercebido de que os espelhos já não são tão nítidos e refulgentes como há uns anitos atrás?

Hei!… mas que é isso?

Se quereis soprar as minhas velas…





                                   . 




quinta-feira, maio 02, 2013

- Prefere sempre as aguardentes envelhecidas em cascos de cavalo. 
Bebe e relincha!
MUDANÇA DE TEMPO e CLIMA PROTEJAM-SE! 

 
DOENÇA
REMÉDIO
POSOLOGIA
Alergias
Monte Velho
1 copo
Anemia
Dão Grão Vasco
4 copos
Arterosclerose
Douro Esteva
2 copos
Bronquite
Quinta da Bacalhôa
3 copos
Constipação
Periquita
4 copos
Icterícia
Porto Ferreira
2 cálices
Diarreia
Duas Quintas
4 copos
Hepatite
Murganheira Reserva
1 garrafa
Ciática
Barca Velha
4 copos
Gripe
João Pires
2 garrafas
Hipertensão
Muralhas
1 garrafa
Artrite
Raposeira
2 taças
Depressão
Valle Pradinhos tinto
3 copos
Obesidade
Porto Real C.ª Velha
5 cálices
Cirrose
C.R.F. Reserva
3 garrafas
Reumatismo
Fundação E. Almeida
2 copos
Enxaqueca
Herdade do Esporão
4 copos
Lombalgia
Valle Pradinhos branco
4 copos
Alzheimer
Fragulho
1/2 copo


EM QUALQUER DAS SITUAÇÕES, FINALIZAR SEMPRE COM UMA GARRAFA DA QUINTA DA SENHORA DA GRAÇA