O VIDEIRINHO

quarta-feira, maio 08, 2013

PARLENDA

 .


“Falar não é mau, mas falar pouco é melhor."

Acaba antes. 

Na generalidade, falar deveria ser uma operação breve com mais frequência. 

Ao fim e ao cabo, não há assim tanto para dizer. 

Tudo deveria ser relativamente breve, quase sempre, para passar ao ponto seguinte, ou marchar-se para casa. 

Certas frases, depois do primeiro verbo, tornam-se untuosas, inacessíveis. 

Pronunciar-se com brevidade encerra a sua dificuldade, claro. 

Nem todo o mundo poderá ter gente de poucas palavras. 

Digamos que não basta calar, sem mais. 

Um indivíduo parco, reservado, não é alguém silencioso, que nunca tem nada para dizer. 

Em absoluto. 

E mais, tem provavelmente muito que dizer, mas renuncia, ou di-lo escassamente, codificado, para dentro. 

Poucas palavras não é simplesmente muito silêncio em seu redor. 

As poucas palavras são outra coisa. 

De início, são as que são, as justas, as que se necessitam, nem uma mais. 

Poucas, ainda que algumas. 

São certa filosofia da sobriedade e a ideia de que a vida acontece imediatamente, em especial quando a contas com muitas frases. 

Nem se improvisa, a menos que leves toda a vida ensaiando-a. 


Uma vez li algures que quando William Faulkner morreu, na sua cidade natal de Oxford, Mississipi, o comércio local colocou avisos que diziam: 
“Em memória de William Faulkner, esta loja permanecerá encerrada desde as 2.00 até ás 2.15 pm. 7 de Julho de 1962”. 

Foi uma homenagem modesta, curta, brevíssima, mas que a história não esqueceu. 

A brevidade é efectiva e não é por ser breve que não deixa eco. 

Falar transforma-se por momentos uma montanha escarpada, traiçoeira, em cuje cume não há grande coisa, salvo as vistas e a bruma e baixas temperaturas. 

Cada frase é uma adversidade, um martírio. 

Há que concebê-la, pensá-la, estruturá-la, enunciá-la, esperar que se entenda, o que com frequência não ocorre, afrontar as reacções e começar outra vez, nova frase, pensar, ordenar. 

Em todo o caso, a brevidade teve um maestro supremo: Augusto Monterroso

Aborrecia-o a conversa. 

Era de tão poucas palavras, que chamar-se Augusto Monterroso parecia-lhe maçador, quase um discurso e com a passagem dos anos podou-o até deixá-lo reduzido a Tito. 

 

A sua brevidade foi célebre, em tal grau, que para alguns se tornava inclusive longa. 

Foi o caso da mulher de um cônsul que lhe apresentaram durante uma recepção numa embaixada. 

Explicaram-lhe que Augusto era o famoso autor do conto do dinossauro. 

Cumprimentaram-se e durante o cumprimento a mulher comentou: 
“Ah, o conto do dinossauro, comecei recentemente a lê-lo, depois contar-lhe-ei a minha impressão quando o termine”.  
(A sua composição "Quando despertou o dinossauro" estava ali, um simples enunciado, que foi considerado o microrrelato mais curto da literatura, até aparecer "O Emigrante" do mexicano, Luis Filipe Lomelí). 

Estas poucas palavras recolhi-as algures e guardei-as até hoje. 

Hoje tinha consulta com o meu psiquiatra e a verdade é que não tinha muita vontade de falar.

Microrrelato de "Tito", Augusto Monterroso:
"Quando acordou, o dinossauro continuava ali."

Microrrelato de Lomelí:
"- Você esqueceu-se de alguma coisa?
- Quem me dera."
.

1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Eu gosto do falar de Vítor Gaspar.