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Abri a mala do carro para sacar o portátil e escrever este post,
mas nisto encontrei uma pasta azul de borracha que não era minha.
Deve tê-la
deixado algum cliente, pensei, talvez aquele tipo desta manhã que tirou a mala
e saiu disparado para não perder o comboio.
Era um tipo dos seus cinquenta
anos, cabelo grisalho e aspecto um tanto ou quanto descuidado, com quem troquei
algumas frases.
A verdade é que abri a pasta porque poderia conter algo de
valor ou algum dado que me remetesse ao seu dono.
E assim foi.
No seu interior
encontrei um bloco de receitas com o seu nome e endereço, assim como
informações e notas dos seus pacientes, escritas à mão; deduzi pelo que li, que
era psiquiatra.
Sei que faço mal em reproduzir aqui uma dessas notas, mas
necessito que me ajudeis em algo.
Copio e colo e depois conto-vos:
(continuação
da pág. 201) (…) e neste ponto deduzi a relação entre os seus episódios de
ansiedade e a palavra “suspensórios”, ou qualquer afinidade com o dito acessório.
Acrescento sintomatologia: Quando Helena escuta a palavra “suspensórios”
apresenta variações (quadro de stress vinculado a contracções pré-conscientes
nos olhos = ep. traumático associado à vista e ouvido).
Investigar
leva-me cinco sessões (y + 3mg Lorazepam p/d). Result. em 10/09/2012: Entre os 13 e os 15 anos o padrasto de Helena abusou sexualmente
da sua mãe biológica.
Lena chegou
a surpreendê-los numa ocasião, ele de costas e com os suspensórios das calças
baixados.
O resto
das agressões intuí-as a partir do seu quarto, pelo som dos suspensórios das
calças contra o chão de madeira.
Daí a sua
fobia auditiva para com a dita palavra. (…).
Ontem, em
pleno colapso, descruzou as pernas e não foi consciente do botão desapertado do
seu decote.
Sutiã sem
enchumaços, alças azul marinho.
Intuí
mamilos erectos, mas talvez fosse efeito visual das rugas da blusa.
Preocupado
estudei os passos para acercar-me de Helena dada a sua actual instabilidade
emocional.
Talvez
aumentar Lorazepam a +3 p/d e mudar o divã por sofás estrategicamente juntos,
frente a frente.
Chamai-me paranóico, mas creio que o dito cujo psiquiatra pretende
aproveitar a “instabilidade emocional” de Helena para tentar cantar-lhe a
“canção do bandido” (ou saltar-lhe logo para cima).
Agora vem a pergunta, que
gostava que me ajudassem a responder:
Devolvo a pasta como se não tivesse lido
nada, ou tomo outro tipo de medida?
Será que me poderia meter em sarilhos se o
denuncio?
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