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A
felicidade é património da infância e as crianças brincam.
Por isso nunca
devemos parar de brincar.
A mim agora deu-me para brincar, no meu táxi, aos
espiões.
Simulo ser um espião disfarçado de taxista e observo minuciosamente os
utentes do meu táxi.
Durante
o trajecto pergunto-lhes pelas suas vidas e anoto no meu caderno de espião
onde e a que horas apanharam o meu táxi, como vão vestidos, qual será o destino
em questão, com quem ficaram, ou melhor ainda, transcrevo as suas conversas
telefónicas.
Por vezes, quando saem do carro em direcção a um restaurante, uma
loja ou um hotel que despertam as minhas suspeitas, espero-os escondido o tempo
que for necessário (comendo amendoins e bebendo café em chávena de cartão) para
depois os seguir a prudente distância.
Mas depois, quando chego a casa e com os
dados que compilei redijo o relatório final de acompanhamento, tudo se desmorona:
não sei a quem enviá-lo.
Não sei para quem trabalho.
E este é, enfim, o drama
que nos separa por e para sempre da infância, a rotura definitiva e
irreconciliável.
E é que nós, os adultos, necessitamos saber a todo o momento,
para quem trabalhamos, quanto nos pagarão e se esse dinheiro nos dá para cobrir
as despesas e obter algum lucro após os impostos.
As crianças, no entanto, só brincam.
Sem matizes.
Sem consequências.
E portanto, felizes.
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1 comentário:
O governo também brinca e também é feliz.
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