O VIDEIRINHO

quinta-feira, outubro 16, 2008

PÚBIS NAS RUAS

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Aos meus queridos leitores que tanto ou mais do que eu se esforçam por escrever algo que depois vai desaparecendo na voragem dos dias e das páginas que se vão sumindo, nos escuros arquivos de cada um.


São uns dentuços afilados, estes dias.


Vem isto a propósito de quem gostaria publicar alguma das coisas que vai cerzindo, se é que ainda existe a profissão.


Depois de ter falado com uns amigos do país vizinho e me dizerem que havia editoras próprias para pequenos génios, como nós/vós leitores-escritores, leitor, que ao fim e ao cabo, se a matemática continua como no tempo do Kepler, a ordem dos factores continua ao livre arbítrio.


(Eu sei que o Kepler não inventou essa matemática que falo, e que parece-me ter sido mais astrónomo, mas como tal, colocou-nos a cabeça ás voltas, tal e qual a matemática).


Pois uma pequena editora, onde eu queria desencaixotar uns escritos, escreveu-me … "não são mercenários".


Como aqui, só que vão com quem oferecer os melhores preços e já tiver nome firmado, que a vida é curta e urge ganhar o máximo no menor espaço de tempo.


Lá como cá! Mandei-os esperar que fosse famoso …



E por falar em passear … lembrei-me da solidão das noites nas ruas e das ruas à noite.

Deve ser terrífico.

A(s) cidade(s) convertem-se em protagonistas da história, com diversos e heterogéneos personagens, que determinam e condicionam a noite no seu aspecto e até pacatez, modificando identidades desta ou daquela que se aventura a passear.

A cidade imperceptível, que não conseguimos ver, como no "'El hilo de las marionetas", (de Juan Ángel Juristo, 2008, acabado de lançar para a estante, depois de o ter lido - oferta dum casal amigo, espanhol), em que o autor renuncia a uma época e a um espaço da história, descrita em livros anteriores, para "aterrar" em Madrid.

É esta cidade, que me arrastou para esta escrita de púbis e seres humanos, que depois de enumerar os diversos e heterogéneos, os determina e condiciona no seu aspecto, personalidade e forma de interrelacionarem-se.

O espaço urbano encerra nas suas alas ou ruas, (ruelas), um limite abarcável, um "bairro" concreto, síntese da capital que condensa e desenterra a realidade.

Realidade que sucumbe diariamente debaixo do compassado passeio quotidiano, de passos cadenciados.

A publicidade, o transporte público, o terrível mobiliário urbano … vão solapando aquele singular que conforma uma cidade, a identidade desta e das pessoas que a sentem e sofrem.

Madrid, que poderá ser, Lisboa ou Porto, ou qualquer outra, imperceptível, que não se vê, que pode ser a cidade imaginada por Gallardón, António Costa ou Rui Rio, que nos conduzem ás entranhas dos copos, do calor das discotecas e das prostitutas das ruas.

Cidades de púbis transpiradas, de bafos alcoólicos e vida nocturna …

Locais estrategicamente escolhidos nas labiríntícas metrópoles, que poetas e escritores amaram e amaram tanto ..., que escreveram sobre elas.




A visão da cidade autêntica, que se sente e vive fora das margens convencionais, tal e qual, Paris, Dublin, Barcelona, são exemplos poucos e pequenos, para tantas borboletas nocturnas que uma cidade pode esconder.


São as incansáveis trabalhadoras do sexo, que transpiram por todos os interstícios da pouca roupa que normalmente transportam.


São essas ruas e ruelas, domínios absolutos dos seres da noite, como que uma rede mafiosa, cujo poder é o sexo/dinheiro, com agasalhos de lã esburacada que não escondem ou o frio no Inverno, ou o ar condicionado que não existe no Verão, mas que condiciona as múltiplas e facetadas vidas que deambulam pela noite, cada uma à sua maneira, caminhando nesse inferno que é viver com o corpo no próprio abismo.


Um papel de seres que se tornam lugares comuns, com uma determinação do instinto de sobrevivência enorme.


De maneira mais audaz ou insinuosa e com uma desbordante imaginação, que não podemos julgá-las e chamar-lhes obsessivas, conseguem segregar a miséria humana que passa tão fugaz e despercebidamente à nossa volta e miserabilistamente por elas.


É a dependência mórbida da velha amante, a lésbica, o gay, o transexual … a miséria alheia das crises económicas, das drogas que nos picam a dor, a trama duma sociedade desenvolvida, cuja púbis caminha pelas ruas da amargura e nos fazem cúmplices e à qual permanecemos indiferentes.




PICASSO - Las prostitutas de la Calle de Aviñon de Barcelona

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5 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo José Torres

Essas editoras para pequenos génios, utilizam a descoberta de Kepler, quanto mais perto do Sol está um planeta, maior é a velocidade de translação, digo, de transacção...

Quanto às "púbis nas ruas" (prostituição) associada a uma vida amargurada, em caldos de álcool e droga, foi transformada num "circo" que atrai milhares que alimentam o "espectáculo", que nos torna cúmplices, mas cada vez mais, nos torna ausentes desses lugares labirínticos, onde a cada curva da "picada", pode estar montada uma emboscada... será que a ausência não acabaria com a indiferença?

Um abraço
Carlos Rebola

Táxi Pluvioso disse...

Quando o João Soares tirou as trabalhadoras da Avenida da Liberdade matou Lisboa. A cidade agora parece uma casa de banho e, em breve, terão de meter moeda para entrar.

xistosa, josé torres disse...

Carlos Rebola

Oferecem muito melhores condições do que aqui, mas para distribuição em Portugal, tinha que me encarregar eu.
E aqui, querem 35% do preço do livro.

Em Espanha, talvez conseguisse a tradução do português para espanhol, por muito menos que os 35 % do que aqui querem só para distribuir.

Tenho quem me trate disto, mas eu, não tenho bases de castelhano, que é difícil e tinha que ajudar alguém, ou ajudarem-me.
Mas agora só quero curar a dor de "pinha" que me "assalta" à noite!

As púbis das ruelas ... e não só atraíram-me por causa da francesa, Valérie Tasso e do seu livro, Diário de uma Ninfomaníaca, que foi passado para o cinema e estreia em 24 de Outubro em Espanha.
Por acaso tenho dois bilhetes guardados, mas tenho um convite antigo, para uma noite de fados e não vou voltar atrás.

Talvez escreva algo sobre a Valérie Tasso.
Já era para o ter feito, nem sabia que rodavam um filme.

A prostituição nunca terá fim, mesmo que cada homem possa casar com meia dúzia de mulheres.
Não é só a necessidade monetária, nem o proxenetismo, há mais envolvências ...

Um abraço

xistosa, josé torres disse...

Táxi Pluvioso

Não conheço a realidade lisboeta, nem sabia que o João Soares foi chefe da limpeza.
Mas Lisboa, como o Porto e todos os locais, têm as metástases instaladas.

Que legalizem as escriturárias ...

claras manhãs disse...

Olha essa é engraçada.
A mim, foi uma editora que me veio desafiar, mas queria....sei lá se era 35%, sei que era um balúrdio
e eu sinceramente estou-me nas tintas para ser ou não editada.

Claro!
A prostituição TEM DE SER legalizada e mais nada.