O VIDEIRINHO

quarta-feira, janeiro 19, 2011

ALTA NOITE

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Saí de casa com a firme intenção de trabalhar, mas não sei o que se passou, juro-o, a luzinha do táxi (“ficou muda e queda”, acesa, como a indicar Livre para o exterior e Ocupado para o interior) e claro que interpretei a avaria como um sinal (para que o meu interior se mantivesse ocupado nos seus assuntos, ou algo assim). 

Por isso acabei (sem sequer ter começado algo) naquele “after hours”, mais fresco que uma rosa e rodeado de crápulas desorientados, coleccionistas de relógios avariados e demais fauna sem flora nas veias. 

Como não serviam café aquelas horas da manhã, pedi uma “cuba livre”, uma esferográfica e um guardanapo, como as musas. 


Paguei com uma nota enrolada e com a esferográfica em riste dispus-me a descrever o horizonte em verso e rima concordante, em consonância com o “deep house” dos meus ouvidos. 

Sintonizei em palavras, (de escrita pós-guardanapo ilegível agora, mas ainda sóbrio), os seguintes registos: 

5 quarentões solitários tratando de entabular conversa com a mesma camareira, 
3 bebedolas dançantes das esquinas, (com as fúcias perto da pista de dança - chão), 
2 estudantes com cio (como terão acabado à meia-noite desta quarta-feira, neste decrépito lugar?), 
3 tipas, maiores de idade por um fio e,
1 friorento fulano com pingalim, entrando e saindo do WC a cada 15 minutos. 
 

Quinze versos depois acercou-se de mim uma jovem, com ar cândido e que me disse: 

- O que estás a escrever? 
É a lista das compras? 

– Não, trabalho num jornal, na secção da necrologia. 
Estava a tentar inventar a vida de um par de mortos. 

– Bonito. 

– Apetece-te morrer de mentira e ocupar, amanhã mesmo, um oitavo de página impressa a nível nacional? 

– Parece divertido. 

– Diz-me o teu nome. 

Disse-me o nome completo e os seus sonhos: 
- Sempre sonhei ter a minha própria cadeia de cabeleireiros caninos. 

– És cabeleireira de cães? 

– Não. 
Sou puta. 
Se quiseres vamos para tua casa, cobro 100 € por hora. 

– Bem. 
Se queres que publique o teu sonho em vida e a tua morte falsa, cobro 100 € por anúncio publicitário. 


A cirandeira afastou-se e eu pedi outra cuba livre e continuei com os meus versos até altas horas da manhã, da tarde ou da noite. 

Não me recordo bem!

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