O VIDEIRINHO

sábado, janeiro 01, 2011

CHIVAS

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Fazia frio, tremiam-lhe as mãos e doía-lhe a cabeça. 

Acredito que ardesse em febre. 

Mesmo assim, foi uma experiência gratificante tê-lo visto cair pelo alcantilado. 

Não pude destrinçar se as lágrimas eram de alegria ou de tristeza, nem tão-pouco se a inevitável gargalhada foi de nervos. 

Colocou o seu flácido corpo sobre a ‘poltrona’ do condutor e sacou a pedra que sujeitava a embraiagem. 

A 1ª velocidade engrenada encarregou-se do resto do trabalho. 



O veículo avançou lentamente, mantendo-se com indolência sobre o orvalho da madrugada que se aderia à relva. 

Os pneus marcaram duas impressões “digitais” paralelas até que o chão desapareceu e o automóvel se inclinou para começar a descida para o seu inevitável final. 

Ainda tenho a imagem gravada na memória, vendo-o cair, sustentando com delicadeza uma garrafa de Chivas que ela mesma lhe tinha sujeitado na sua mão.


Tinha incluso o álibi perfeito. 

Estava muito doente, com febres altas. 

A enfermeira tinha-a deixado no quarto do hospital há cerca de uma hora e não voltaria nas próximas três ou quatro horas, quando tivesse de mudar-lhe o soro. 

Então soube que tinha chegado o momento. 

Aproveitaria a ocasião para perdê-lo da vista, utilizando a melhores armas que tinha à mão: álcool e o volante. 

Ninguém suspeitaria dela, doente, abandonada numa cama do hospital por um bêbado sem sentimentos. 

Colocar-lhe-ia uma garrafa na mão e despenhá-lo-ia com o seu carro, por uma ribanceira. 

 
Seria muito fácil, ele colaboraria sem pensar. 

Mal acabou com ele, estendeu-se na cama do hospital com uma dor pungente na cabeça e uma sensação de náuseas. 

Quando a enfermeira regressou de novo ao quarto olhou em redor e moveu a cabeça com pesar. 

Pelo intercomunicador avisou o médico de serviço: 

- Quarto 113. 
Parece que a senhora Natércia voltou a ter alucinações. 

Hoje meteu a almofada e a garrafa de água na retrete…

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