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Fazia frio, tremiam-lhe as mãos e doía-lhe a cabeça.
Acredito que ardesse em febre.
Mesmo assim, foi uma experiência gratificante tê-lo visto cair pelo alcantilado.
Não pude destrinçar se as lágrimas eram de alegria ou de tristeza, nem tão-pouco se a inevitável gargalhada foi de nervos.
Colocou o seu flácido corpo sobre a ‘poltrona’ do condutor e sacou a pedra que sujeitava a embraiagem.
A 1ª velocidade engrenada encarregou-se do resto do trabalho.
O veículo avançou lentamente, mantendo-se com indolência sobre o orvalho da madrugada que se aderia à relva.
Os pneus marcaram duas impressões “digitais” paralelas até que o chão desapareceu e o automóvel se inclinou para começar a descida para o seu inevitável final.
Ainda tenho a imagem gravada na memória, vendo-o cair, sustentando com delicadeza uma garrafa de Chivas que ela mesma lhe tinha sujeitado na sua mão.
Tinha incluso o álibi perfeito.
Estava muito doente, com febres altas.
A enfermeira tinha-a deixado no quarto do hospital há cerca de uma hora e não voltaria nas próximas três ou quatro horas, quando tivesse de mudar-lhe o soro.
Então soube que tinha chegado o momento.
Aproveitaria a ocasião para perdê-lo da vista, utilizando a melhores armas que tinha à mão: álcool e o volante.
Ninguém suspeitaria dela, doente, abandonada numa cama do hospital por um bêbado sem sentimentos.
Colocar-lhe-ia uma garrafa na mão e despenhá-lo-ia com o seu carro, por uma ribanceira.
Seria muito fácil, ele colaboraria sem pensar.
Mal acabou com ele, estendeu-se na cama do hospital com uma dor pungente na cabeça e uma sensação de náuseas.
Quando a enfermeira regressou de novo ao quarto olhou em redor e moveu a cabeça com pesar.
Pelo intercomunicador avisou o médico de serviço:
- Quarto 113.
Parece que a senhora Natércia voltou a ter alucinações.
Hoje meteu a almofada e a garrafa de água na retrete…
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