O VIDEIRINHO

domingo, abril 29, 2012

FERRETE

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 A “garina”* estendeu-me um pedaço de papel quadriculado com um endereço escrito a esferográfica azul. 

Por baixo da rua e número do ‘cliente’ que ia “visitar”, fixei-me na seguinte anotação:  60-30m+2T. 

Segundo a minha experiência taxista no transporte de “garinas”, 60 será o preço estipulado para meia hora (30m). 
Os táxis de ida e volta também são a cargo do cliente (+2T). 

De facto, ao sair do táxi e como tantas outras vezes, a p*ta pediu-me um recibo que depois entregaria ao “cliente” como justificação do pagamento. 

Aparte a frieza que representa procurar prazer noutro corpo desalmado como quem compra um quilo de carne picada, nesta ocasião deu-me para pensar nos motivos do preço: porque é que “saltar p'ra cima” desta “artista”, ou ela deixar-se “montar” pelo cliente, custava 60€ e não 50, ou 250, ou até 25.000? 

Que listas ou escalas determinam as tarifas de aluguer de corpos? 

 


Aí está o atroz: é o mercado. 

A beleza relativa mede-se em euros: o número ou grandeza do sutiã, o peso, as medidas (o traseiro, cintura, peito, altura), as características, a cor do cabelo, a cor da pele… a nacionalidade. 

É importante a nacionalidade: as mais caras em Portugal são sempre portuguesas, também cotadas em alta estão as japonesas (não confundir com chinesas ou asiáticas), as belezas nórdicas depreciaram-se à medida que aumentou a oferta de russas e ucranianas e desceu o seu prestígio (para saber bem até que ponto nós, os portugueses somos racistas não é necessário mais do que saber o preço médio das putas, em função do seu país de origem). 

Numa bitola, digamos, média baixa, teremos as espanholas, brasileiras, africanas e latino-americanas. 

Aparte, padroniza-se a beleza até atingir um grau de objectividade consentida que assusta, somada a uma macabra lei da oferta e da procura. 



Estamos a falar de seres humanos negociando com a profissão mais antiga do mundo. 

Estamos a falar da casualidade de ter nascido num meio ou outro (elas), com umas ou outras características físicas também fruto da casualidade (elas), cujo conjunto determinará quanto será capaz de pagar o homem, qualquer homem com dinheiro, quer ele seja bonito, feio, asiático, obeso ou maníaco depressivo (o dele não importa). 

Ela, essa “garina”* em questão, do meu táxi, tinha consciência de que não podia cobrar mais de 60€ dada a concorrência, ou a crise, ou o seu grau de beleza padronizada numa escala do zero ao dez. 

Tirada daqui 
O seu trabalho consistia em atrair clientes através de um anúncio no JN, aceder aos encontros, abrir as pernas e engolir (no duplo maldito sentido da palavra). 

Desconheço, como é lógico, os motivos que a levaram a ser p*ta, se forçada (a maioria, desgraçadamente, exerce contra a sua vontade) ou por decisão própria. 

De qualquer maneira há algo nesta sociedade que não funciona. 

Nunca funcionou. 

E continuará sem funcionar. 

*”Escrevo "garina”, para não começar, logo de entrada, com ‘puta, que é afinal o vernáculo.
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