O VIDEIRINHO

segunda-feira, dezembro 17, 2012

DESCOMPOSTURA URBANA

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Levantas-te uma qualquer manhã. 

Vais ao quarto de banho e olhas-te ao espelho, como sempre. 

Não estás mal, pelo menos não tão mal como outras vezes. 

A almofada fez com que o teu cabelo adopte um penteado despenteado como é natural; notas a pele da cara suave com excepção da zona da barba; vê-la como o tamanho perfeito após três ou quatro dias sem te barbeares (dá-te um verdadeiro ar atractivo sem chegar a parecer descuidado); em definitivo, o teu aspecto é aceitável. 

Lavas-te, escovas os dentes, vestes-te, tomas o pequeno almoço e, como ainda tens uns dez minutos antes de saíres, voltas ao espelho para reexaminar a tua imagem. 

Tudo continua tão bem como estava, a não ser por um pequeno par de espinhas incipientes que agora apercebes debaixo da intensa luz dos focos sobre o espelho. 


São quase imperceptíveis, mas, depois de duvidares um pouco, acreditas que o melhor é eliminá-las para que não se desenvolvam mais. 

Colocas os dedos em redor de uma delas e apertas com força. 

Não consegues nada, só que a espinha enrubesça e aumente mais.

Já não podes retroceder: é necessário acabar com ela. 

Voltas a tentar e, por fim, o seu conteúdo liberta-se em explosão dolorosa a repulsiva. 

Fazes o mesmo coma sua “irmã”, que opõe menos resistência e o balanço final é duas borbulhas menos e um par de protuberâncias de cor vermelha, grandes como cornos. 

‘Nestes entretantos’ baixas um pouco a vista, localizas uns pontos negros 'circunvizinhando' o nariz. 

Decides, já que começaste, tens que acabar com eles e, quando dás conta, a tua cara assemelha-se a uma romã aberta povoada de grãos carmesim cintilantes, doce fruto obtido por quereres eliminar o invisível. 

Depois deste momento pateticamente poético, quando passas a mão pela cara para tocares nos inchaços, sentes que a tua barba não está tão bem como em princípio tinhas acreditado estar. 

Ainda te sobram uns sete minutos para “marchares”, dá-te tempo a um barbeado rápido. 

O mau é que, com as pressas, escapam-se um par de cortes mal dados, que há que estancar com pedacitos de papel higiénico para que não sangrem. 

Para cumulo dás conta (demasiado tarde) de que te esqueceste de comprar ‘aftershave’ quando ontem foste ao Continente e assim, improvisas um remendo, misturando álcool etílico com um pouco de água, que te faz ferver a cara (especialmente quando entra em contacto com as borbulhas rebentadas). 


Sobram-te três minutos e, ao olhares-te de novo ao espelho, tão-pouco o penteado te convence. 

Pegas no pente e depois de várias passagens que não fazem senão estragar cada vez mais o eriçado cabelo recentemente levantado, desistes. 

Finalmente olhas o teu reflexo e vês uma cara mal barbeada, irritada e povoada de pequenas protuberâncias ardentes, um cabelo emaranhado e mal penteado... e uma expressão de mau humor indescritível. 

Definitivamente estás pronto para ir trabalhar.
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