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Era uma boca perfeita, juro-o.
Teria dado vida e meia para a
submeter a um exame 'labiológico'.
Pode uma mínima parte eclipsar o todo?
Sem
dúvida.
Ou pelo menos neste caso, não entrou no meu táxi uma mulher com o seu
corpo, o seu casaco, a sua carteira e a sua biografia.
Entrou uma boca, aquela
boca falou-me através do espelho e, de súbito, todos os satélites se orientaram
para ela, um avião chocou em Nairobi e as acções da TomTom afundaram-se.
E é que não se tratava de uma boca de foto.
Era perfeita, sim, mas ainda o era
mais em movimento.
De facto, nunca estava quieta.
Parecia independente de sua
dona.
Ou mordia a borda do lábio, ou passava a ponta da língua como um scaner
radiografa um quadro, ou brincava ás escondidas na sua comissura.
Eu conduzia
o táxi com um olho no burro e outro no cigano, digo, com um olho no espelho da
sua boca.
Quis fazê-la rir e deixei sair algo estúpido, a típica brincadeira
neutra.
E de repente a sua boca abriu-se como uma cortina de teatro e surgiu o
coro dos seus dentes cantando em crescendo Carmina Burana e, por um instante
sonhei que era esse espontâneo que se lança ao palco para beijar à solista, como
só sabem beijar os cegos de nascimento.
Ela soltou uma tolice qualquer, mas com
o reflexo da sua boca pareceu-me algo solene, como Michael Jackson a dançar um
vira minhoto, ou Miguel Relvas a tentar perceber a 1ª série do Diário da República.
E isto
assustou-me.
Assustou-me muito.
Teria sido capaz de fazer qualquer coisa que saísse
daquela boca.
Se me tivesse dito:
“Mate o meu marido”, agora eu estaria atrás
das grades.
E assustou-me tanto que fiz o possível para não voltar a escutar
nada dela.
Assim que me encontrei na valeta, travei o táxi de repente, tapei
os ouvidos com as palmas das mãos e gritei fortemente: AAAAAAAHHH!!!
NOTA:
A sua boca de surpresa também era perfeita.
As suas pernas, de baixo até quase
ao alto, à saída do táxi, não tanto.
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