O VIDEIRINHO

sexta-feira, agosto 09, 2013

PERFEIÇÃO

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Era uma boca perfeita, juro-o. 

Teria dado vida e meia para a submeter a um exame 'labiológico'. 

Pode uma mínima parte eclipsar o todo? 

Sem dúvida. 

Ou pelo menos neste caso, não entrou no meu táxi uma mulher com o seu corpo, o seu casaco, a sua carteira e a sua biografia. 

Entrou uma boca, aquela boca falou-me através do espelho e, de súbito, todos os satélites se orientaram para ela, um avião chocou em Nairobi e as acções da TomTom afundaram-se. 

E é que não se tratava de uma boca de foto. 

Era perfeita, sim, mas ainda o era mais em movimento. 

De facto, nunca estava quieta. 

Parecia independente de sua dona. 

 

Ou mordia a borda do lábio, ou passava a ponta da língua como um scaner radiografa um quadro, ou brincava ás escondidas na sua comissura. 

Eu conduzia o táxi com um olho no burro e outro no cigano, digo, com um olho no espelho da sua boca. 

Quis fazê-la rir e deixei sair algo estúpido, a típica brincadeira neutra. 

E de repente a sua boca abriu-se como uma cortina de teatro e surgiu o coro dos seus dentes cantando em crescendo Carmina Burana e, por um instante sonhei que era esse espontâneo que se lança ao palco para beijar à solista, como só sabem beijar os cegos de nascimento. 

 

Ela soltou uma tolice qualquer, mas com o reflexo da sua boca pareceu-me algo solene, como Michael Jackson a dançar um vira minhoto, ou Miguel Relvas a tentar perceber a 1ª série do Diário da República. 

E isto assustou-me. 

Assustou-me muito. 

Teria sido capaz de fazer qualquer coisa que saísse daquela boca. 

Se me tivesse dito: 
“Mate o meu marido”, agora eu estaria atrás das grades. 

E assustou-me tanto que fiz o possível para não voltar a escutar nada dela. 

Assim que me encontrei na valeta, travei o táxi de repente, tapei os ouvidos com as palmas das mãos e gritei fortemente: AAAAAAAHHH!!! 

NOTA: 
A sua boca de surpresa também era perfeita. 

As suas pernas, de baixo até quase ao alto, à saída do táxi, não tanto. 
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