O VIDEIRINHO

terça-feira, fevereiro 25, 2014

"PINGO DE MEL"



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- “Arranca. 
Acabo de sacar outros três mil a este gajo. 
Segue, segue”, disse-me a mulher referindo-se a um tipo de uns cinquenta anos que tinha entrado noutro táxi. 
Acelerei e abandonámos o terminal do aeroporto. 
Disse-me o seu destino já depois de ter iniciado a marcha. 
Também me disse que vinha de Zurique, de um serviço expresso que aquele tipo tinha contratado na noite anterior. 
Simplesmente telefonou-lhe e disse-lhe: 
- Estou em Zurique. 
Apanha o primeiro avião e depois um táxi que te traga até ao Hotel “Baur au Lac”, quarto 303. 
Pagarei o habitual mais os gastos. 
“o habitual” significava que aquele homem contratava os seus serviços com frequência. 
Costumava telefonar à mulher a qualquer hora e de qualquer local do globo; ela apanhava o primeiro voo, plantava-se lá, davam um par de quecas de luxo e depois de receber, sempre a contado, apanhava outro voo de volta para casa. 
Nesta ocasião ele teve que regressar com ela ao Porto para um assunto de negócios, mas ontem à noite, em Zurique, não podia esperar, queria vê-la quanto antes: um capricho urgente. 
E três mil por serviço mais despesas de deslocação não era nada para um dos homens mais ricos da City, um autêntico tubarão das finanças. 
Ela, por seu lado, sentia-se a mulher mais invejada da terra. 
Cito textualmente da sua boca: 
- “Todas, no fundo, gostariam de levar a vida que eu levo. 
A moral, ou a ética, ou como queiras chamar-lhe, não é mais do que uma invenção cultural para tapar o que na verdade move o mundo: a hipocrisia”. 
 
Depois, quando parei o táxi à porta da sua luxuosa moradia e me pagou a corrida, acrescentou antes de se ir: 
- “Ganho de trinta a quarenta mil ao mês por abrir as pernas. 
Não te ofendas, mas os homens, desde o princípio dos tempos, sois e sereis sempre parvos”. 
E com estas palavras foi-se. 
Fiquei pensativo, acariciando a nota de 100 euros que me tinha dado. 
Uma nota que antes era sua e antes de ser sua foi daquele tipo de Zurique, o tubarão das finanças.
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