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- “Arranca.
Acabo de sacar outros três mil a este gajo.
Segue, segue”, disse-me a mulher referindo-se a um tipo de uns cinquenta anos que tinha entrado noutro táxi.
Acelerei e abandonámos o terminal do aeroporto.
Disse-me o seu destino já depois de ter iniciado a marcha.
Também me disse que vinha de Zurique, de um serviço expresso que aquele tipo tinha contratado na noite anterior.
Simplesmente telefonou-lhe e disse-lhe:
- Estou em Zurique.
Apanha o primeiro avião e depois um táxi que te traga até ao Hotel “Baur au Lac”, quarto 303.
Pagarei o habitual mais os gastos.
“o habitual” significava que aquele homem contratava os seus serviços com frequência.
Costumava telefonar à mulher a qualquer hora e de qualquer local do globo; ela apanhava o primeiro voo, plantava-se lá, davam um par de quecas de luxo e depois de receber, sempre a contado, apanhava outro voo de volta para casa.
Nesta ocasião ele teve que regressar com ela ao Porto para um assunto de negócios, mas ontem à noite, em Zurique, não podia esperar, queria vê-la quanto antes: um capricho urgente.
E três mil por serviço mais despesas de deslocação não era nada para um dos homens mais ricos da City, um autêntico tubarão das finanças.
Ela, por seu lado, sentia-se a mulher mais invejada da terra.
Cito textualmente da sua boca:
- “Todas, no fundo, gostariam de levar a vida que eu levo.
A moral, ou a ética, ou como queiras chamar-lhe, não é mais do que uma invenção cultural para tapar o que na verdade move o mundo: a hipocrisia”.
Depois, quando parei o táxi à porta da sua luxuosa moradia e me pagou a corrida, acrescentou antes de se ir:
- “Ganho de trinta a quarenta mil ao mês por abrir as pernas.
Não te ofendas, mas os homens, desde o princípio dos tempos, sois e sereis sempre parvos”.
E com estas palavras foi-se.
Fiquei pensativo, acariciando a nota de 100 euros que me tinha dado.
Uma nota que antes era sua e antes de ser sua foi daquele tipo de Zurique, o tubarão das finanças.
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