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Um homem de olhar triste contou-me o seu falhado plano desta noite.
Vinha de um género de encontro ás cegas, em grupo, organizado por uma pseudo-colectividade.
O encontro consistia no seguinte: sete homens sós, sete mulheres sós e sete mesas.
Cada homem tinha um total de sete minutos para numa mesa, frente a frente, conversar com cada uma das sete mulheres.
Passados os sete minutos, soava um gong e então, rodavam para a mesa seguinte.
A ideia era que todos acabassem por falar com todas as mulheres, em rondas de sete minutos.
Depois disto, anotavam, secretamente, num papel, com quem tinham tido mais empatia e, se o nome escrito por ela, coincidisse com o nome escrito por ele, podiam continuar a conversar durante o tempo que quisessem (e tudo o mais que depois surgisse).
Os demais, os não afins, teriam de marchar do café e cada qual seguiria o seu caminho.
Este homem, como disse, vinha de um desses encontros.
E vinha só.
Confessou-me que era demasiado tímido e não podia evitar comportar-se desajeitado e tenso.
Não era fácil quebrar o gelo com mulheres que procuravam como ele, a centelha forçada para se infamar em catorze minutos, sete em cada vez.
Para ele os primeiros minutos eram a chave:
De que falar sem parecer demasiado óbvio?
O que será melhor, tomar a iniciativa ou deixar que seja ela a começar?
Olhar para os olhos, as mãos ou a boca?
O curioso e, aí está a sua falha, foi que acabou sentindo maior afinidade pela mulher, que a priori, seria a menos atractiva das sete reunidas.
De facto, à medida que falava com ela, ia-lhe parecendo cada vez mais interessante, e foi a única com quem verdadeiramente chegou a sentir-se à-vontade.
No entanto, acabou por escrever o nome da mais atraente mas menos simpática das sete, uma tal Teresa de lindos olhos verdes e lábios sensuais ainda que parca em palavras, um tanto seca.
A menos atractiva, mas bem mais simpática, por sua vez, tinha escrito o nome dele e a tal beldade, tinha escrito o nome de outro, de modo que no final, os dois igualmente mais feiosos mas simpáticos partiram cabisbaixos de “mãos a abanar”.
E agora aquele homem arrependia-se, enfim, por ter pensado só com os olhos.
Se tivesse escrito o nome de Luzia, a simpática e interessante Luzia, agora estariam a conversar e não teria tomado meu táxi sozinho, quem sabe se com ela, na sua viagem de volta a casa ou para o motel.
O mesmo caminho na solidão que o da semana passada.
O mesmo caminho na solidão que a anterior.
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