Chamam-lhe o “mosquito”.
Trata-se de um emissor de sons de baixa frequência que se tornam especialmente desagradáveis para os “pessoais” com menos de 25 anos e imperceptíveis para os que superam esta idade.
No Reino Unido, alguns comerciantes têm começado a instalá-los, (não sem polémica), nos seus estabelecimentos comerciais, (e já há mais de 6000 instalados), para manter na linha a juventude, que ao que parece, é a responsável por todos os seus males.
Em Espanha também se considerou o uso do “mosquito”, para dispersar os beberrões do “botellón” (jovens que consomem grandes quantidades de álcool na via pública).
Cada país tem os seus fantasmas.
E não saio do meu assombro desde que escutei falar do invento, cujo uso roça o inconstitucional, que dispara igualmente para vândalos e para jovens bem comportados dentro de uma faixa etária, que martiriza indiscriminadamente a jovens e a bebés de berço.
Graças ao invento, agora é possível garantir que numa determinada zona não entrem as hormonas nem os sonhos adolescentes, os primeiros amores nem a folia da inconsciência, favorecendo guetos de velhice, metros quadrados de tristeza e solidão.
E não posso deixar de imaginar essas zonas como lugares tristes, sejam-no ou não.
Esquecem, os que instalam o “mosquito”, que badamecos e vândalos também os há para além dos 25 anos.
São marginalizados um número muitíssimo grande de jovens, de ambos os sexos, que não querem destruir o seu património.
Marginam um número insólito de jovens, aos quais lhes é vetado um direito tão básico como transitar ou descansar numa zona que é propriedade pública.
A sua proliferação não faz mais do
que desqualificar os seus partidários.
Justamente por cima desses emissores
irritantes há habitações onde podem estar a tentar adormecer alguns estudantes
e crianças.
É só mais uma demonstração de como o medo arrasta os homens para a
estupidez, para caminhos fáceis com saídas difíceis.
O que aconteceria se
encontrassem algo parecido, mas que só incomodasse mulheres ou homens?
O que
aconteceria se colocássemos nas mãos destes mesmos indivíduos uma arma similar
para afugentar imigrantes?
O que seria de nós se pudéssemos decidir quem
transita e quem não transita por certas ruas, atendendo a determinadas
características?
Eu sei-o: acabaríamos agrupados de
dez em dez.
Os jovens morenos com as jovens morenas; os adultos homossexuais de
1,80 m com adultos homossexuais de 1,80 m, as feministas com as feministas, os
fãs de Eminem, longe dos fãs dos Sex Pistols, os parvos com os parvos, os
espertos com os espertos; porque não gostamos de misturas, porque tememos todos
os que se afastam do que somos.
O som é a historieta; se é incómodo ou não, o
debate é estéril.
O fundamental é o que nos ensina a sua irrupção numa sociedade
de medos: o perigoso avanço da ideia da exclusão como solução para todos os
males da convivência.
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