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Cinco dias depois daquele encontro casual no táxi, quatro dias depois daquele primeiro beijo, Natália convidou-me para jantar em sua casa.
Ás 20:30 toquei a campainha.
Do outro lado da porta escutei latidos de um cão e a voz de Natália gritando:
- Cala-te Shane! Para a cozinha!
A porta abriu-se e ela acercou-se para me dar um beijo.
Calçava umas botas Camper, um quimono vermelho até aos tornozelos e tinha duas tranças.
– Não sabia que tinhas um cão, disse-lho com ar de meio assustado.
– Não. Era uma brincadeira. Só queria ver a tua cara.
– Ahhh. Mmmm… Pois… Tu ladras…. E muito… bem.
– Obrigado! Anda, entra.
Entrei num salão tipo mansarda.
O que primeiramente me chamou a atenção foi um telescópio, disposto num tripé e focado na direcção de uma enorme foto da lua, pendurada na parede.
Acerquei-me da lente e através dela vi a ampliação de uma cratera em alta resolução.
– Tudo é mentira, disse-me.
Um copo de vinho?
Um copo de vinho?
– Está bem.
E essa flecha?
Perguntei-lhe, referindo-me a uma seta branca fixada em diagonal no centro da janela.
Perguntei-lhe, referindo-me a uma seta branca fixada em diagonal no centro da janela.
– É o ponteiro (cursor) do Windows.
Cada vez que o sol incide justamente por trás do ponteiro, clico e abre-se uma nova janela.
Havia livros por todo o lado, inclusivamente nos locais mais insuspeitos.
Ajudando Natália na cozinha, encontrei a Bíblia e o Corão sobre o frigorífico.
Numa prateleira onde existiam copos, o livro “Madame Bovary”, o “Trópico de Câncer” e “As idades de Lolita”, metidos numa tupperware.
Mais tarde no quarto de banho deparei-me com dezenas de volumes (Moby Dick, As Vinte mil léguas submarinas, 'O Amante de Lady Chatterley', 'História de O', etc.) empilhados no bidé.
A cisterna da retrete não tinha tampa.
Espreitei.
O que vi no seu interior deixou-me perplexo.
Era um pato de borracha flutuando na água.
Puxei o botão e então o pato começou a descer com a água até ficar varado no fundo do autoclismo.
Começou a entrar água e o pato subiu até alcançar o seu nível inicial.
Aí gritei pela primeira vez:
– Nada bicho!
– Como?, gritou ela a partir da cozinha.
Entrou no quarto de banho e viu-me com os olhos cravados no pato, puxando uma e outra vez o botão do autoclismo.
– So…be e des...ce…
– O meu pato?
É "O Príncipe das Marés”.
É "O Príncipe das Marés”.
Nessa noite comi sushi no seu ventre (e ela sashimi na minha boca), dançámos, compartindo em orelhas opostas, dois pequenos auriculares enganchados no seu iPod (assim é mais romântico, disse-me), jogámos a adivinhar os sinais um do outro e acabámos fazendo amor sobre um mar de almofadas.
Vários orgasmos depois, compartilhando um último cigarro, deu-me para lhe perguntar:
– Porquê eu?
– Antes de te conhecer deixava meio salário em táxis.
Dito isto voltou-me as costas; apaguei o cigarro e dormi como um koala num zoo para cegos.
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