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Rubens Gerchman - Série Banco de trás
Ontem à noite travou-se uma feroz batalha no assento traseiro do meu táxi.
Viajava Boavista abaixo com um casal de passageiros sossegaditos e em silêncio quando, de repente, mediante um rápido e inesperado movimento, ala aproximou-se do seu adversário, encurralou-o segurando-lhe a cara com ambas as mãos, beijou-o na boca.
Ele, por seu lado, empregou a típica estratégia bélica de deixar-se beijar: fez-se de vítima fechando os olhos e levantando as mãos em sinal de derrota.
Três cruzamentos depois, a atacante começou a dar mostras de confiança afastando lentamente as suas mãos da cara dele.
Mas então viu-se surpreendida pelo contra-ataque do beijado: inclinando-se para ela, meigo mas decidido, converteu a beijadora em sua refém.
Empate a um.
Ela, recém surpreendida, simulou a mesma estratégia de vitimada até que voltou a tomar a iniciativa.
E nessa luta continuaram até ao fim do trajecto.
Parecia, finalmente, que os dois tinham mais do que assumida a sua dupla condição de verdugo e preso: não sabiam beijar-se de igual para igual, assumindo forças, nivelando desejos, compartilhando os seus lábios a um mesmo nível.
E talvez aquele método lhes funcionasse na perfeição.
Talvez fosse este, precisamente, o segredo do seu êxito como casal.
Assumir que são diferentes e, sem qualquer dúvida, complementares.
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