O que ocorre por estas festas natalícias?
Depois de pensar muito e profundamente, cheguei à conclusão de que as principais coisas que ocorrem é que mandamos ás malvas todas as dietas e também os nossos cartões de crédito, os nossos corpos engordam e a nossa carteira fica anoréxica.
As nossas casas convertem-se numa espécie de “castelo de chocolate”, grinaldas por tudo o que é sítio, luzitas intermitentes, até no tapete da entrada, o presépio rouba-nos metade do salão a árvore de natal a outra metade, portanto, vivemos todos, uns dias muito comprimidos, entre a decoração, os parentes e as amizades que vêm felicitar-nos e comer à borla as passas.
É quase um mês que não podes mover-te com liberdade mas podes mandar o pobre S. José, os pastores, o menino e até algum rei com ou sem camelo, apanhar caracóis no monte, pentear macacos ou “cardar a melo” (em português vernáculo, mandar á merda).
Nestas festas sofremos uma metamorfose aguda.
Não sei qual a razão que nos ataca para colocar tudo com neve.
Aos vidros enchemo-los de adesivos e engorduramo-los com o spray, efeito neve, que mais tarde não há forma de o retirar.
Mas se em Belém nunca neva, que mania é esta que temos de colocar neve por todos os lados?
Não paramos de repetir que o menino Jesus está gelado, que tem frio e fome e eu que o diga.
Mas se S. José era empresário autónomo, tinha a sua oficina própria de carpinteiro.
E veja-se o que ganham os carpinteiros por qualquer coisita que façam.
Não nos esqueçamos dos efeitos sonoros.
Entres onde entrares, está o chim-pum, chim-pum ou trim-trim das campainhas.
Oiçam como bebem aqueles peixes no rio e as tuas visitas.
E como bebe esse primo que te vem visitar.
Agarra-se á garrafosa de algo em casco de carvalho, ou fora dele , ou ao que pertence à malta ou é de malte e depois, qual macaco, pretende trepar pelo casco da árvore de Natal.
A miudagem corre por toda a casa pondo-a em pantanas, fechos untuosos, portas besuntadas e a carpete cheia de migalhas espezinhadas, porque século após século, temos que os atafulhar de bolos e bolachas.
Tudo se enche de algo, seja do que for.
Necessário é comprar … comprar …
O chão de serrim do nascimento e de espetos secos de abeto, a caixa de correio e de felicitações, cheia com propaganda que tens de responder sem tão-pouco te lembrares de quem são as amabilidades.
Os pedidos de dinheiro chovem; do homem do butano (mas como, se não uso butano?), do picheleiro (canalizador, encanador), (mas como, se nunca chegou a vir?), do varredor da rua, (mas se a rua está miseravelmente suja?), o arrumador de serviço à tua porta (aquele ser esquizofrénico que te revolta o dia quando o encaras), os lixeiros que deixam a rua enfeitada quando da sua passagem … enfim … aparecem como moscas, por vezes até o ladrãozeco da tua rua quer algum dinheirito.
Tudo e todos nos confundem com a Segurança Social ….
É só pedir ... pedir ... e mendigar, das rádios ás televisões, do supermercado à esquina da rua da tua mercearia, das avalanches de solicitações na caixa do correio, ao teu vizinho que te vem pedir para aquela organização que só ele e os amigalhaços gerem e cuidam.
A miudagem portuguesa, que tem nos genes a malícia ibérica, agarram-se a todas as tradições vindas do estrangeiro, esperando pelas ofertas tradicionais e outras mais modernas, que são as mais esperadas.
Os adultos passam o dia 24 fazendo: Jo!, Jo!, Jo!, Jo!, Jo!
E dando murros na porta de entrada porque não têm chaminé.
Falemos do menu, pois que dar e andar ... cansa!
Todos a comerem peru até ao gasganete!
(Oiçam! A mim apetece-me uma sopa de agriões).
Comer peru e bacalhau!
Tudo bem atafulhado de gostosos e gordurosos acompanhamentos, até chegar com o dedo.
Não esquecendo uma boa pinga para empurrar.
Não te queixes porque és taxado de não teres espírito natalício.
Para rematar a faena (nunca foi tão bem equiparada) preparamo-nos para despedirmo-nos do ano, não sem antes sermos assaltados na nossa economia.
Tens que comprar um fato de cartola, com algo brilhante que apesar de ser miserável, custa-te uma pipa de massa.
Sapatos a condizer e o mais caricato é que tens a certeza de teres poucas oportunidades para voltar a vestir o cenário.
O teu parente fica de mau humor porque a casaca está apertada e não a consegue abotoar (pudera! A comer e a beber á tua custa, foi um “vê se te avias”), já que a dieta da toranja, esvaiu-se quando entrou em tua casa e nunca o conduziu a um bom final.
E os botões de punho da camisa não aparecem em lado nenhum (marcharam com a gravata).
O menu do jantar de fim de ano custa-te mais ou menos como a entrada - como sinal - daquele andar, no condomínio fechado dos teus sonhos.
E quando te servem o primeiro prato,
“medalhão de peito de ave afrodisíaca da Ilhas da Páscoa, com molho e setas (ou cogumelos) fumadas com lenha dos bosques franceses”,
a primeira coisa que te vem à cabeça é que será o ventre dalguma pomba com diarreia das que voam e cagam toda a gente, nas imediações da Avenida dos Aliados e não só.
“Mamã, mamã, Se Deus nos dá o que comemos, a cegonha traz os bebés e o Pai Natal os presentes no Natal. Posso saber para que serve o papá ?"
Menos mal que chega Janeiro e voltamos á normalidade, ás dietas e a tentar cumprir os bons velhos propósitos que sempre fazemos ao entrar num novo ano.
E agora, saindo do comboio do humor, quero deixar claro que apesar de ter parodiado esta “maldita” época do ano de festas e comezainas, fico encantado com tudo isto e vivo intensamente junto aos meus, o desejo de rapidamente chegar o dia 2 de Janeiro.
Uf! Que alívio!
Bem, para quem não é maculado moralmente como eu, deixo o desejo a todos os meus leitores que sejam muito felizes, passem umas festas inolvidáveis e que para o ano se cumpram todos os vossos sonhos e projectos.
Ah!
Não se esqueçam de NÃO comer peito de ave afrodisíaca da Ilha da Páscoa.
Festas Felizes para todos e não cuspam para o ar - ou mesmo para o chão - as grainhas das uvas passas.
BOM NATAL!!!
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3 comentários:
Bom Natal, para ti Xistosa!
Cá por mim ri a bom rir, achando que tens muita razão, mas sabendo que fico com o olhar comovido com o sorriso estapafurdiamente feliz do neto mais novo que ainda acredita no pai natal
beijinho
marta
Talvez até faça bem acreditar no Pai Natal.
Abstraímo-nos de tudo quanto nos rodeia e que é altamente maligno.
E não é a gripe ...
Um bom Natal.
Infelizmente, a esta festa, e não só a esta, se tem cada vez mais tendência para dar relevo ao lado mais material.
Natal é nascer, [re]nascer em cada novo ano; e o que é que nos renasce???...
pois...
que cada um fale por si.
Abraços
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