O VIDEIRINHO

terça-feira, maio 25, 2010

PENSIONADOS

.

O "Merdas"* começou a trabalhar, como assalariado, na padaria de uma pequena povoação no dia que cumpriu os dezasseis anos.

Desde então passou a sua existência labutando com farinha e água, levedura e sementes, açúcar e sal, sentindo o calor do forno e o olor a pasteis na loja.

Levantava-se quando a noite ainda fazia tremer, desde os lampiões, as sombras da praça grande e escutava o ténue zumbido dos filamentos incandescentes cujo monótono e repetitivo som acrescentava a sonolência que se pendurava das suas pálpebras.

Ao chegar à persiana metálica que protegia a porta da padaria, introduzia a chave, girava-a e empurrava o gradeado fazendo força até acima, despertando com o barulho que produzia o aço ao deslizar pelas ranhuras guias, (calhas)




Desta forma transcorriam as semanas … meses … vendo como apareciam as rugas no seu corpo, o grisalho dos cabelos e a artrite, sonhando com o descanso futuro, lustro atrás de lustro, tratando de manter o frágil equilíbrio desse transtorno chamado vida.

Do seu salário descontavam-lhe um dinheirito que o Governo gestionaria para assegurar o seu bem-estar presente e vindouro, uma quantia que o ajudaria a viver quando fosse ancião, quando os seus quebradiços ossos não lhe permitissem suportar, por mais tempo o peso da pá do forno.

Um dia antes da sua jubilação, os seus amigos e clientes da terreola organizaram uma festa em sua honra.




Os conterrâneos não paravam de lhe dizer o afortunado que seria durante a aposentação, pois iria receber um pagamento sem necessidade de trabalhar.

Que pechincha!

Enquanto escutava estas palavras, o "Merdas" encolhia os ombros. –

Claro que vou recebê-lo! – pensava -, tiraram-me parte do meu salário, geriram-no por mim e agora pagar-me-ão a minha retribuição mensal, porque ganhei-a com o meu esforço, porque a aforrei.

Quando se aposentou, o "Merdas" sorriu à vida, respirou a manhã tranquila e sonhou a noite silenciosa em que deitar-se-ia tarde e dormiria até o meio dia; no entanto, num dia de Maio escutou que o Governo anunciava o congelamento da sua pensão, a sua, a dele, a que tinha cedido mensalmente sem resmungar durante tantos anos de afanoso labor.




– Chamam-lhe congelação ou congelamento – disse para consigo -, claro, porque teso deixar-me-ão, seguramente.

Então recordou as palavras de um empresário cervejeiro quando, há muitos anos, despediu alguns dos seus trabalhadores dizendo que tinha de “adelgaçar a organização”, coisas da linguagem, adelgaçar e congelar, palavras para definir desemprego e precariedade.

O intrépido "Merdas", muito chateado, activou as suas artríticas pernas e acercou-se à casa do “senhor” advogado com a inabalável intenção de demandar o Governo, por denegação ou apropriação indevida ou lá como se queira que se chame e essa coisa que os ministros pretendiam fazer com seu dinheiro.




*
"Merdas" -
Cidadão médio, português, que o poder transformou em esmolante curinga.

.

2 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Aí está o que ninguém quer dizer directamente, dizem: "cortar na despesa", mas para quem sabe português isso significa apenas deixar de pagar as pensões (e sucederá com esta moderna forma de gerir Estados, ou seja, meia dúzia de gajos mesmo ricos (não, não são portugueses, chamam-lhe "mercados" mas têm nome) controlam os Estados.

Anónimo disse...

thanks.
www.bestoffrm.com