O VIDEIRINHO
sábado, junho 07, 2014
ASPIRÂNCIA
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Marcelo, vendedor de aspiradores industriais veio até ao Porto em trabalho e passou a noite num hotel do centro.
Pela manhã, de volta para o aeroporto, contou-me a incrível história que acabava de lhe acontecer:
"Depois de todo um dia de encontros com clientes, decidiu ir até ao quarto, não sem antes beber um aperitivo no bar do hotel".
Depois de entrar, fixou-se num congresso que justamente nesse instante começava num salão contiguo, com as portas ainda abertas e um ostentoso catering em ambos os lados da sala.
Num pequeno cartaz da entrada podia ler-se: “Simpósio de cirurgia plástica”.
Impressionado com a qualidade do catering, decidiu aproximar-se um pouco mais.
Todos os lugares estavam ocupados, excepto um, de modo que, sem pensar duas vezes, entrou com a intenção de comer e beber de borla.
Mas não tinha reparado que, no assento, estava uma creditação e, como já era tarde para recuar (toda a fila teve que se levantar para o deixar passar), não lhe restou outra alternativa que pegar na creditação do assento, colocá-la na lapela e fazer-se passar por um tal “Marc Anderson. Cirurgião Plástico”.
Marcelo aguentou estoicamente a tagarelice (para ele) da conferência, aplaudiu o palestrante e depois, durante o catering, acercou-se dele uma loira impressionante que entabulou conversação (enquanto ele continuava a fingir ser “Marc Anderson. Cirurgião Plástico”): a mulher desejava aumentar os peitos e queria pedir-lhe um conselho.
Marcelo eclipsado pela “modelo” e já com uns aperitivos e meia dúzia de cervejas emborcadas, no final da festa propôs à mulher subir ao seu quarto com a intenção de apalpar melhor o contorno e a forma dos seus peitos “e assim fazer um orçamento mais aproximado”.
Ela, surpreendentemente, acedeu.
E entre meios de peritagem acabaram na cama, fazendo amor, o que provou ser extremamente estranho, considerando a diferença abissal entre os dois (ele era gordo, baixo, careca).
Depois de umas quecas, trocaram números de telefone e telemóveis (porque não, pensou Marcelo) e a mulher foi-se embora.
A verdade é que na manhã seguinte, Marcelo recebeu um Whatsapp da referida loiraça.
A mensagem dizia:
“Marcelo, sei que és casado e não me seria difícil localizar a tua mulher.
Proponho-te um acordo: se me ofereceres o aumento do peito, não direi absolutamente nada do que se passou ontem à noite”.
Ao que Marcelo respondeu:
“Tentas chantagear-me? Vai em frente. Conta-lhe tudo.”
Marcelo mostrou-me as mensagens no seu telemóvel, bem como a foto de perfil do Whatsapp dela (efectivamente, era uma mulher impressionante). Então, meio a sério, meio a brincar, disse-me:
- Agora sei porque me dedico a vender aspiradores. Sempre aspirei a viver outras vidas.
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sexta-feira, junho 06, 2014
SABICHOSOS (Parte II)
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… CONTINUAÇÃO
Neste negócio de fariscar pelos livros, para os autênticos sábios, é curiosa a persistente relação que os autores encontraram entre a sabedoria e a mulher.
São ostensivamente misóginos, inimigos do género feminino.
Zombam das mulheres e descarregam os seus fracassos amorosos; não há sábio a quem uma mulher não engane; se uma mulher é sábia, não a deixes entrar em tua casa; a mulher que sabe é tão estúpida como o homem que maquilha a cara; uma mulher literata é um erro da natureza; o ouro prova-se com o fogo, a mulher com a sua ignorância.
Até aqui nada se avançou; não é possível saber quantos sábios podem existir, mas a mulher não pode ser.
Entre os antigos gregos, circulava pela boca do povo o nome de sete sábios, cada um baseado numa cidade diferente, conhecidos por criar uma série de aforismos ou frases memoráveis que foram consideradas um verdadeiro guia para a vida.
De Sólon, mencionava-se:
“nada com excesso, tudo com medida” e os outros tinham os seus próprios ditos ou sentenças.
Analisadas as suas biografias, seis deles foram políticos e só este Sólon, filósofo e matemático (Sólon de Atenas).
Hoje em dia, pelo contrário, não se conhece nenhum político sábio nem letrado ou erudito.
Afirmam terem lido, mas não podemos acreditar.
É curioso, mas a qualificação de sábio não se aplica a nenhum poeta, músico, historiador, dramaturgo, teólogo, mas circulam rumores que existe uma tendência favorável para aplicá-lo aos jogadores de futebol (sábios do pé) e aos corredores automobilísticos (sábios da roda).
Se eu tivesse autoridade para fazê-lo, proporia uma nova denominação a um tal Helbert Hubbard, (ou Elbert Hubbard), pela sua frase:
“Todo o homem está condenado a ser louco cinco minutos ao dia; a sabedoria consiste em não exceder esse limite”.
E por que não a minha própria candidatura... eu que criei a frase:
“Sábio é o que se conforma com não sê-lo”.
Só conheço um; mas esse, como prima pela humildade, só sei dele quando me olho ao espelho.
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quinta-feira, junho 05, 2014
SABICHOSOS (Parte I)
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Quantos foram ou são os sábios?
Depende do que cada um entenda por sábio.
Se tomamos a palavra no significado original dos gregos, nenhum, já que os homens não podem chegar a ser sábios, senão somente “amantes da sabedoria”.
Sócrates (não o ‘sábio contemporâneo’ que todos conhecemos, rsss,rsss, mas o do séc. V a.C.), dizia que só é sábio o que sabe que não sabe nada: “Só sei que nada sei”.
Segundo o poeta, escritor e humanista espanhol, Fray Luís de León, tem havido poucos, conforme diz num conhecido verso:
“os poucos sábios que no mundo o terão sido” (ODA I - Vida retirada).
Depende do que cada um entenda por sábio.
Se tomamos a palavra no significado original dos gregos, nenhum, já que os homens não podem chegar a ser sábios, senão somente “amantes da sabedoria”.
Sócrates (não o ‘sábio contemporâneo’ que todos conhecemos, rsss,rsss, mas o do séc. V a.C.), dizia que só é sábio o que sabe que não sabe nada: “Só sei que nada sei”.
Segundo o poeta, escritor e humanista espanhol, Fray Luís de León, tem havido poucos, conforme diz num conhecido verso:
“os poucos sábios que no mundo o terão sido” (ODA I - Vida retirada).
Para os primitivos japoneses, muito anteriores, sábios eram os homens que tinham aprendido os ensinamentos dos três místicos “macacos”, não ouvir, não ver e não falar.
Vendo-os juntos, um tapando a vista, outro os ouvidos e o terceiro a boca, compreende-se de imediato que já, nesses vetustos tempos, se regiam pelo princípio incrédulo de que a sabedoria era perigosa e que era muito mais segura a ignorância.
Um certo miúdo meu conhecido, tão-pouco sabe quantos há no mundo, mas de uma coisa tem a certeza, o seu pai é um deles.
E expressa-o desta maneira:
“O meu ‘velho’ sim, é um sábio, vive os dias bêbado e não se preocupa com nada”.
Vendo-os juntos, um tapando a vista, outro os ouvidos e o terceiro a boca, compreende-se de imediato que já, nesses vetustos tempos, se regiam pelo princípio incrédulo de que a sabedoria era perigosa e que era muito mais segura a ignorância.
Um certo miúdo meu conhecido, tão-pouco sabe quantos há no mundo, mas de uma coisa tem a certeza, o seu pai é um deles.
E expressa-o desta maneira:
“O meu ‘velho’ sim, é um sábio, vive os dias bêbado e não se preocupa com nada”.
Para Enrique Santos Discépolo (conhecido como Discepolín) o filósofo dos tangos argentinos, é impossível sabê-lo, porque nada nem ninguém é melhor, tudo é igual “até mesmo um burro / que um grande professor “ e vivemos espezinhados, todos no mesmo lodo.
(Cambalache).
Um antigo provérbio israelita afirma que, sábio é quem “escuta uma palavra e entende duas”.
Há ‘milhentas’ opiniões sobre sábios em todas as culturas, mas de nenhuma delas se pode inferir quem o foi ou é, nem quantos houve ou há no mundo.
(Cambalache).
Um antigo provérbio israelita afirma que, sábio é quem “escuta uma palavra e entende duas”.
Há ‘milhentas’ opiniões sobre sábios em todas as culturas, mas de nenhuma delas se pode inferir quem o foi ou é, nem quantos houve ou há no mundo.
Ninguém se daria ao trabalho de rastreá-los nem de verificá-los.
Shakespeare disse que são uns quantos mais do que os parasitas; Montaigne opina que sábio é aquele homem que vê mais do que deveria ver, mas menos do que pode; o francês Philippe Quinault sustém com prudência que sábio é quem não é mais do que o necessário.
Shakespeare disse que são uns quantos mais do que os parasitas; Montaigne opina que sábio é aquele homem que vê mais do que deveria ver, mas menos do que pode; o francês Philippe Quinault sustém com prudência que sábio é quem não é mais do que o necessário.
CONTINUA…
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quarta-feira, junho 04, 2014
DE CHOFRE!!!
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Foi ele que deitou a mão ao fecho e abriu a porta do meu táxi.
Mas só ela entrou.
- Não entras? Perguntou-lhe.
- Não. Não posso.
- Porquê? Retorquiu ela.
- Marta... já não te amo.
- Como?
- Tenho estado a pensar e… é isso.
Que já não te amo.
Não houve mais palavras.
Talvez ele procurasse alguma reacção nela, mas ao não a encontrar fechou a porta e foi-se... caminhando rua abaixo.
Ela e eu permanecemos em silêncio.
Ainda não me tinha indicado o destino previsto quando entrou no meu táxi, justamente antes daquele “já não te amo”.
Optei por não dizer nem fazer nada.
Não iniciei a marcha nem accionei o taxímetro.
É melhor não tocar nos sonâmbulos.
Entendi perfeitamente o seu bloqueio.
Não conheço frase mais inesperada: “já não te amo”.
Ninguém espera escutá-la nunca, nem muito menos mastigá-la, assumi-la.
Soa como uma guilhotina a cair: “já não te amo” sssstchh.
E a alma mutilada rodando, sem sangue.
Não há sangue porque te deixa seco.
Tão-pouco existe um plano B.
Não é um desvio brusco do guião, senão outro filme.
Quem achas ser o protagonista, nunca morre na cena do táxi, mas no final, pouco antes do preto do final e os títulos dos créditos do filme.
Necessitamos de diálogos que expliquem as roturas, não um título e um bater estrondoso de portas.
Necessitamos mastigar a tragédia para não nos engasgarmo-nos com ela.
É insuportável a incerteza do já não te quero.
Já?, agora?, a partir deste preciso momento em adiante?
Existe esse preciso momento?
Onde está a linha da fronteira?
No puxador da porta do táxi?
Nota:
O que aconteceu depois, quando finalmente conseguiu sair do seu bloqueio, guardo-o para uma próxima oportunidade.
É demasiado denso, intenso e... até a paisagem se incendiou.
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terça-feira, junho 03, 2014
VIAJANTES APÓLIDAS
Caminhas só pelas ruas de uma cidade que não conheces, que não é a tua e no entanto não encontras nenhuma diferença: sentes os mesmos edifícios, as mesmas luzes, os mesmos táxis.
Os transeuntes também têm unhas, cotovelos e joelhos e até ossos por dentro.
E movem-se.
Respiram.
Alguns beijam-se.
Ou bebem água, ou cerveja, ou café nas esplanadas.
Ou falam ainda que tu não entendas patavina do que dizem.
Continuas a caminhar rua abaixo, como a água e os teus passos levam-te até uma praça com um monumento de aspecto antigo.
Aproximas-te e olha-lo só porque os demais também o olham.
Todos tiram fotos menos tu.
Todos querem recordar menos tu.
Todos confiam no bem que envelhecerá o seu presente.
Valentes ou ingénuos todos.
Menos tu.
Diversos guias turísticos explicam aos seus respectivos grupos os porquês do monumento.
Um deles leva um distintivo do teu mesmo país.
Acercas-te e saúdas, mas ninguém te parece conhecer.
Nem sequer a guia.
Para que servem então as bandeiras?
E ainda que falem no teu mesmo idioma não entendes nada.
Fazem parte do teu país, mas não são o teu mundo.
Então aí te dás conta do lugar que ocupas.
Turista sem pátria.
Os transeuntes também têm unhas, cotovelos e joelhos e até ossos por dentro.
E movem-se.
Respiram.
Alguns beijam-se.
Ou bebem água, ou cerveja, ou café nas esplanadas.
Ou falam ainda que tu não entendas patavina do que dizem.
Continuas a caminhar rua abaixo, como a água e os teus passos levam-te até uma praça com um monumento de aspecto antigo.
Aproximas-te e olha-lo só porque os demais também o olham.
Todos tiram fotos menos tu.
Todos querem recordar menos tu.
Todos confiam no bem que envelhecerá o seu presente.
Valentes ou ingénuos todos.
Menos tu.
Diversos guias turísticos explicam aos seus respectivos grupos os porquês do monumento.
Um deles leva um distintivo do teu mesmo país.
Acercas-te e saúdas, mas ninguém te parece conhecer.
Nem sequer a guia.
Para que servem então as bandeiras?
E ainda que falem no teu mesmo idioma não entendes nada.
Fazem parte do teu país, mas não são o teu mundo.
Então aí te dás conta do lugar que ocupas.
Turista sem pátria.
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sábado, maio 31, 2014
MUNDIAL
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Apesar dos folhetos na minha mesa e das mesas na minha cabeça, noto que breve começará o Mundial de
futebol, com tudo o que isso tem de regresso à adolescência de há uns minutos,
(com recordações tão bem gravadas que assustam), a imagens icónicas (as que
perduraram e as que virão nestes dias e não esqueceremos), a decepções sempre
próprias e êxitos sempres alheios, ambos exagerados.
A áridos momentos de aborrecimento e a poesia inesperada e fugaz, versos de um drible impossível ou de um golo que ninguém viu, salvo a ilusão partida em tantos pedaços como papelitos que povoam alguns estádios.
Regressa o Mundial, com o que tem de volta ás apostas que quiçá possam falir (como quando digo agora que, para mim os favoritos são Brasil, Portugal e Espanha).
O primeiro jogo é com a Alemanha
A jogadores que elevam os seus olhos e dedos ao céu quando metem ou falham um golo.
A um público rendido que crava os seus olhos e os seus dedos nesses jogadores, vestidos de deuses em calções curtos, vociferando sermões com os pés ante uma audiência multimilionária que crê, durante um mês, que a sua nação não sofre com as suas crises sangrantes, senão que voa ou se afunda, dependendo de onde acabe uma bola sem pátria.
Começa o Mundial com tudo o que tem de emoção.
Emoção irracional, claro: a única credível.
A única perigosa.
Há outros jogos possíveis.
Sabem-no os grandes filósofos e as noites de sexta-feira.
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sexta-feira, maio 30, 2014
BOCA A BOCA
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Recordas-te como foi o teu primeiro beijo?
Recordas o último?
Sem dúvida que o primeiro foi tímido, desajeitado, tirando para o foleiro.
Procuraste beijar como nos filmes, mas não esperavas que aquele contacto fosse fofo (acolchoado) e tivesse sabor.
Não é fácil imaginar os sentidos do gosto e do tacto de outra boca novata sem mais referências que as do cinema e, é claro, dos teus sonhos.
Depois, com o segundo e terceiro e quarto beijo, foste aperfeiçoando a técnica, quebrando pouco a pouco a barreira das línguas e recreando um leque de beijos cada vês mais amplo.
Passaram pela tua boca várias “garinas” (namoradas, amantes…) e então, compreendeste que nenhuma beijava da mesma maneira, nem utilizava a língua com a mesma técnica.
Algumas abriam e fechavam a boca como peixes fora de água ou bonecos ventríloquos.
Outras retesavam a língua; ou moviam-na em círculos monocórdicos, quase industriais; outras retesavam os lábios ou, inclusivamente, sugavam, como quem come um iogurte sem colher e sem mãos.
A ti agradava-te mais de as confundires.
Procuravas beijos criativos, interactivos, ou pelo menos que nenhum fosse igual ao anterior.
Aos lábios carnosos davas-lhe o protagonismo suave que mereciam.
Aos lábios finos, a textura de meigos mordiscos com os teus lábios.
Chegaste inclusive a refinar o teu modo de controlar os tempos e portanto, de variar a intensidade, o calor e o desejo.
Depois chegaram relações mais longas e então compreendeste que os beijos também podem acabar por morrer de sucesso e fortalecem-se, ou diluem-se em meras formalidades e aí, pode suceder que recordes ‘outras bocas’ e acabes por ir à procura de ‘outras bocas’.
Quando os beijos secam, o amor escaqueira-se e já não há saliva capaz de reavivar o que quer que tenha existido no início.
Não há reanimação possível.
Não há boca a boca.
Com isto estou a tentar dizer-te que hoje me foi dada a oportunidade de comparar aquele primeiro beijo com o último (desta manhã) e entre ambos notei um abismo irreconciliável: definitivamente, sou outro homem.
Cansei-me de inovar com outras bocas e agora aspiro fixar a minha língua num só par de lábios.
Os lábios mais perfeitos que, certamente, jamais beijei.
Talvez seja por isso que me detenho e abandono os beijos furtivos…
Recordas o último?
Sem dúvida que o primeiro foi tímido, desajeitado, tirando para o foleiro.
Procuraste beijar como nos filmes, mas não esperavas que aquele contacto fosse fofo (acolchoado) e tivesse sabor.
Não é fácil imaginar os sentidos do gosto e do tacto de outra boca novata sem mais referências que as do cinema e, é claro, dos teus sonhos.
Depois, com o segundo e terceiro e quarto beijo, foste aperfeiçoando a técnica, quebrando pouco a pouco a barreira das línguas e recreando um leque de beijos cada vês mais amplo.
Passaram pela tua boca várias “garinas” (namoradas, amantes…) e então, compreendeste que nenhuma beijava da mesma maneira, nem utilizava a língua com a mesma técnica.
(“A ETERNA PRIMAVERA”, 1888, uma das cenas de “O BEIJO” idealizadas par Auguste Rodin)
Algumas abriam e fechavam a boca como peixes fora de água ou bonecos ventríloquos.
Outras retesavam a língua; ou moviam-na em círculos monocórdicos, quase industriais; outras retesavam os lábios ou, inclusivamente, sugavam, como quem come um iogurte sem colher e sem mãos.
A ti agradava-te mais de as confundires.
Procuravas beijos criativos, interactivos, ou pelo menos que nenhum fosse igual ao anterior.
Aos lábios carnosos davas-lhe o protagonismo suave que mereciam.
Aos lábios finos, a textura de meigos mordiscos com os teus lábios.
Chegaste inclusive a refinar o teu modo de controlar os tempos e portanto, de variar a intensidade, o calor e o desejo.
'O Beijo' Constantin Brancusi - 1876-1957
Depois chegaram relações mais longas e então compreendeste que os beijos também podem acabar por morrer de sucesso e fortalecem-se, ou diluem-se em meras formalidades e aí, pode suceder que recordes ‘outras bocas’ e acabes por ir à procura de ‘outras bocas’.
Quando os beijos secam, o amor escaqueira-se e já não há saliva capaz de reavivar o que quer que tenha existido no início.
Não há reanimação possível.
‘O BEIJO’ de STENIEN
Não há boca a boca.
Com isto estou a tentar dizer-te que hoje me foi dada a oportunidade de comparar aquele primeiro beijo com o último (desta manhã) e entre ambos notei um abismo irreconciliável: definitivamente, sou outro homem.
Cansei-me de inovar com outras bocas e agora aspiro fixar a minha língua num só par de lábios.
Os lábios mais perfeitos que, certamente, jamais beijei.
Talvez seja por isso que me detenho e abandono os beijos furtivos…
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quinta-feira, maio 29, 2014
DE SUPETÃO
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Brinquemos a
que hoje se acaba o mundo.
Imagina que de repente cai uma imensa bola de fogo e
pilha-te a limpar os azulejos da cozinha, a ti na sala da fotocopiadora
sentado sobre ela tentando fotocopiar o “dito cujo”, a ti na fila do Centro de
Emprego, a ti dormitando no Centro de Saúde depois de umas horas à espera do
"snr. doutor", a ti seduzindo a professora do teu filho, a ti a comprares dois
quilos de tangerinas, a ti a rezares o rosário, a ti a leres "As Cinquenta Sombras de Grey”, a ti na
cadeira do dentista, a ti a pintares as unhas dos pés, a ti lendo este blog, ou
a mim ao volante do meu táxi a falar de Passos Coelho com o passageiro.
Imagina
que de repente PLOP! Desaba-te o mundo…
Imagina que primeiro aparece um imenso
clarão e logo aí damos conta de que os Maias tinham razão.
E a partir daí, um
intervalo de apenas cinco segundos antes do GAME OVER.
Cinco segundos de
reacções absurdas e irracionais, de inverosímeis actos reflexos.
Imagina que de
repente sabes que te restam cinco segundos de vida.
Tu que limpas azulejos
dar-te-ia para repassar no último e deixá-lo perfeito.
O das fotocópias
partiria o vidro da máquina e enterraria os cacos no "dito cujo".
O da fila do Centro de Emprego abraçaria a loiraça
que bambaleava, provocantementeo, o traseiro na fila.
O do Centro de Saúde agarrar-se-ia à
enfermeira noviça.
O que seduz a professora, beijá-la-ia (sem língua).
O que
compra tangerinas voltaria a guardar o porta-moedas.
A que reza o o rosário
soltaria um “f*da-se!”.
A d’As Cinquenta Sombras de Grey iria imediatamente à
última página do livro e leria o final.
A da cadeira do dentista taparia o
buraco do dente com a língua.
A que pintava as unhas dos pés cairia de cu a
assoprá-las com toda a vontade.
Tu que lês o meu blog pulsarias F5 para ver se
alguém comentou no último momento.
E eu, no meu táxi, sei lá, pararia o
taxímetro, ou daria um punhão no meu passageiro.
A primeira murraça da minha
vida.
Ou talvez pensasse nos anos que me faltam para pagar a hipoteca da casa,
ou espatifaria o táxi de propósito para ser o primeiro, ou desligaria o rádio,
ou deitaria a cabeça de fora à janela, ou cantaria, ou pensaria em nada, só em
desfrutar o momento.
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quarta-feira, maio 28, 2014
O FURO
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Circulando pela rua do Campo Alegre, furei um pneu.
Ia devagar, assim pude parar e encostar-me ao passeio sem problema.
Saí do táxi, olhei para o pneu e reparei que tinha o furo na base do pneumático com um objecto estranho de metal em forma de “T” espetado.
Andei, a pé, um pouco e uns metros atrás pude ver sobre o asfalto, na mesma trajectória da roda, uma caixita de cartão esborrachada.
Pensei que poderia ter alguma relação e assim, acerquei-me.
Era uma embalagem de farmácia.
Saquei como pude o prospecto e nele vi um desenho do mesmo objecto que tinha provocado o furo.
Tratava-se de um dispositivo intra-uterino, mais conhecido por DIU.
Um contraceptivo feminino, para ser mais exacto.
Mas o que fazia um DIU sobre o asfalto?
Com a minha fértil imaginação, imaginei (a redundância assenta como
uma luva), uma briga de casal dentro de um carro e que ela, a ‘modos que’, de
chantagem genital, acabasse por lançar o DIU pela janela.
Ou melhor: que num preciso instante os dois tivessem decidido ser pais, em pleno semáforo e ela, feliz da vida, lançara aquela caixa pela janela.
Em qualquer dos casos, o DIU de sempre acabou perfurando o pneu do meu táxi.
O destino dos objectos é bizarro, ainda que, também, excitante.
Saquei-o com força do pneu e fiquei a olhá-lo.
Aquele DIU poderia muito bem estar num qualquer útero e entretanto, agora, tinha-o na mão.
E estava frio.
Ou melhor: que num preciso instante os dois tivessem decidido ser pais, em pleno semáforo e ela, feliz da vida, lançara aquela caixa pela janela.
Em qualquer dos casos, o DIU de sempre acabou perfurando o pneu do meu táxi.
O destino dos objectos é bizarro, ainda que, também, excitante.
Saquei-o com força do pneu e fiquei a olhá-lo.
Aquele DIU poderia muito bem estar num qualquer útero e entretanto, agora, tinha-o na mão.
E estava frio.
Senti-me por uns instantes como que dentro de um útero e a rua
deu-me a sensação de húmida.
Começou a chover.
Junto ao passeio, precisamente frente ao hotel Ipanema Porto, há uma árvore.
Fiz um pequeno buraco na terra e enterrei o contraceptivo com a intenção de arriscar no DIU.
Prometo regá-lo cada dia e esperar que cresça algo, seja lá o que for.
Uma flor peculiar, um bebé fora do seu meio.
Comprei um regador só com esse propósito e agora transporto-o sempre na mala do táxi.
O amor tornará fértil o impossível.
Manter-vos-ei informados.
Começou a chover.
Junto ao passeio, precisamente frente ao hotel Ipanema Porto, há uma árvore.
Fiz um pequeno buraco na terra e enterrei o contraceptivo com a intenção de arriscar no DIU.
Prometo regá-lo cada dia e esperar que cresça algo, seja lá o que for.
Uma flor peculiar, um bebé fora do seu meio.
Comprei um regador só com esse propósito e agora transporto-o sempre na mala do táxi.
O amor tornará fértil o impossível.
Manter-vos-ei informados.
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