Lago Ladoga, origem do vodka Russian Standard.
Estamos habituados a pensar que só o vinho, talvez também a cerveja, podem acompanhar uma boa ceia ou um jantar mais, (“mais qualquer coisa!!!”).
Mas há outros mundos por explorar, ainda que só seja para conhecer novas sensações.
Um bom vodka na mesa pode deparar-nos surpresas muito agradáveis.
Vou contar uma batalha que combati.
Há uns anos, estando já reformado, em viagem mais ou menos técnica, fui levado a comer pela primeira vez ao Viridiano, (em Madrid), um dos restaurantes mais impressionantes que já visitei.
Para quem o conhece, não posso acrescentar nada, para quem não teve a sorte de sentar-se numa das suas mesas, direi que é um estabelecimento onde se aplicam todas as letras do abecedário.
O chefe, cujo nome neste momento não recordo, é um conceituado "mestre".
Naquele restaurante, perdi a virgindade da alta restauração, experimentando um prazer extremo, que me deixou sequelas nesta fruição sempre pecaminosa de pratos vários de alta cozinha.
É que houve dois pratos que me marcaram a fogo, a memória: um ovo estrelado servido na própria frigideira de ferro, sobre o qual o empregado ralava finas lâminas de trufa e outro, o tal que foi gravado, arenques com frutos vermelhos, (groselhas ?), cuja espectacularidade maior radicava naquele momento, em que ao servi-lo, o empregado trazia para a mesa uma garrafa de vodka, num recipiente com gelo triturado e por um instante colocou junto dos copos do vinho e da água, umas “provetas”, destinadas a acompanhar o arenque com aquele destilado.
Passaram os anos.
Um dia, noutro local e noutro restaurante, com outros parceiros, um dos quais, por coincidência, nascido na Ucrânia, mas que foi criado em Toronto, no Canadá.
Nesta altura já conhecia os seus pais naturais e viajava volta e meia para o seu país natal.
Na multicultural Toronto, aprendeu a desfrutar de todos os prazeres do planeta e na sua terra, a Ucrânia, donde partira bebé, descobriu o vodka.
Naquele jantar, foi servido como aperitivo um prato de ouriços de mar e sardinhas em conserva … e saiu do congelador, para acompanhar … uma garrafa de vodka ...
Nessa mesma viagem, noutro restaurante e noutra cidade, pediram para acompanhar as entradas, (enchidos), que iniciavam o repasto, com uma garrafa de vodka.
A mesma que depois de vários vinhos e pratos, voltou para a mesa para acompanhar a minha petição duma sobremesa de chocolate amargo.
Há uns dias, chegou-me ás mãos uma garrafa de vodka chamado Russian Standart.
Pelas referências que tenho, é o mais consumido dos vodkas da gama alta, no próprio país dos czares, ainda que se veja à venda, no nosso país, por cerca de 15 euros.
Por falar em dinheiro, direi que ao prová-lo me pareceu leite, sendo vodka.
É elaborado a partir de trigo da estepe russa e água do lago Ladoga ao Norte de S. Petesburgo.
É destilado quatro vezes e outras tantas filtrado.
Tê-lo em casa, enfim, pareceu-me uma desculpa perfeita para realizar uma experiência sensorial, que há muito rondava os meus prazeres, dentro da minha cabeça: jantar unicamente e exclusivamente com vodka.
(Vou falar no singular, mas a minha outra metade da vida, talvez um pouco contra a sua vontade, acompanhou-me ...)
Estas são as impressões que obtive daquela experiência empírica, segundo as anotações da minha agenda, na qual não ficou o reflexo dos cânticos regionais russos que sucederam á sobremesa:
- Sardinhas em azeite: o sabor das sardinhas cresce no paladar com a combinação com o destilado.
As notas salgadas e a sua concentração de sabor, “abrem-se” com o vodka, que mais a mais “limpa” a boca e prolonga o seu próprio aroma ligeiramente “condimentado”
- Filetes de arenque em conserva: A minha boa recordação fez-se em migalhas.
O excessivo doce da conserva, choca com as sensações suaves e glicéricas, sim, mas muito secas, do vodka.
O contrato entre ambos não favorece nenhum e muito menos a acidez daqueles frutos vermelhos que tanto melhoravam, na minha memória, a divinal combinação.
– Lombo de atum fumado: Anódino. Nem o sabor do atum aumenta, nem o do vodka cresce em excesso.
- Anchovas em azeite: Anchovas (do Cantábrico), esplêndidas.
Tanto o seu sabor, como o toque salino, combinam na perfeição com o destilado, que sentimos “crescer” em contacto com o peixe ... prolonga o paladar e multiplica de forma curiosa os seus próprios aromas.
Sentimos um fundo de trigo e um toque delicado de anis que combinam agradavelmente com a conserva.
– Caviar: A melhor combinação, talvez por isso que os russos a pratiquem toda a vida.
O sabor profundo, ligeiramente doce na boca, ainda que com delicados matizes salinos do caviar, encontram no vodka um universo paralelo que faz que ambos se multipliquem.
O caviar suaviza o “perceber” do destilado e prolonga-o.
Foram feitos um para o outro.
– Trufa de chocolate banhada de cacau: Num primeiro momento, a trufa faz com que o vodka não se note, mas passado um instante, num segundo trago, o gosto amargo do cacau que fica na boca, ao beber o vodka, cresce perante as ligeiras notas de baunilha, especiarias e funcho que há no destilado.
O seu "saborear" faz-se mais delicado na garganta e tudo se pode saborear e engolir.
– Manga: Os russos têm o costume de beber o vodka acompanhado, mas não junto ou misturado, com outros sumos de fruta.
Isto explica-se da seguinte maneira, ao comer uma manga bem madura e doce, bebem um trago de vodka límpido e delicado.
O sabor da fruta refresca-se e o do vodka desliza suavemente até à garganta matizando o doce da manga.
Nota 1: todos os produtos que intervieram nesta ceia ou jantar, podem conseguir-se, quase sempre a preços mais ou menos acessíveis, em qualquer grande superfície.
Não falo em marcas ou locais, porque cada um tem a sua preferência e uma vez, é uma vez.
O vodka não o comento ou descrevo porque é esplêndido e singular. (Apesar de não ser um apreciador nato.)
Nota 2: Como acompanhamento para tudo o que mencionei, dispus tostas com manteiga e pão ligeiramente torrado, “esfregado” com um dente de alho descascado, coberto com tomate triturado e um fio de azeite.
Dá-nos mais uns anos de vida.
Nota 3: Os cânticos regionais podem ser enfadonhos.
Escolha outra música.
Todos os prazeres se desfrutam muito melhor com um certo grau de moderação.
Ou não.
Não abuse!
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6 comentários:
José Torres
Aprecio muito o vodka, estava longe de pensar nele para acompanar comida, de que não serei muito mau apreciado!...
Opssss!... Vou mas é fugir daqui, há tentações de mil demónios da gula. Xau, gostei!...
Um abraço,
Daniel
Vodka? Ao sexto estou de rastos e tenho de mudar para a cerveja.
Socialmente compreendo a importância da mesa mas não lhe acho piada. A cozinha é outro caminho para chegar ao bolso.
daniel milagre
Fiz isto duas vezes em toda a minha vida.
Ou melhor, nos últimos 15 anos.
Mas da 2ª vez comecei a enjoar os conjuntos de petiscos e vodka.
Só experimentei porque o maior prazer é ... comer pouco de cada coisa, mas de muitas ...
Táxi Pluvioso
Sexto gole!!!
Não foi à garrafa ...
Experimentar uma vez na vida, não se morre inocente, ou melhor, estúpido.
Não sou admirador de passar além do "Bojador" e chegar ás portas da "Taprobana".
Mas há experiências únicas.
Ainda agora, em Manchester, num restaurante Tailandês, comi uma carne, com molho doce, outro picante e outro ainda agridoce.
Gostei mais das empregadas.
Mas as misturas souberam-me bem, quer ao paladar, quer à vista!!!
Ora bem!! Fiquei deliciada a ler-te...faltou-me o vodka! Beijos.
Paula Raposo
Tenho mas é de colecção.
Não bebo, para além de espumante e vinho tinto e raramente cerveja.
Não bebo tudo duma vez ... sou meio selvagem, mas a outra metade controla-me.
Mas estou bem perto donde o há e com fartura.
Se algum dia fizer falta ... escolho as viandas ...
As marcas são muito importantes.
Por exemplo, o arenque só o do Lidl, latas vermelhas ...
Mas não falo em comida a estas horas.
Da próxima tenho a mesa posta.
Se bem que não seja grande apreciador e a m/mulher também, Mas se nos abstivermos e interiorizarmos que tem que ser ... é mesmo e ... até nos deliciamos.
Sempre pequenos goles ... porque senão, ao fim da primeira iguaria já nem no copo, (tubo)conseguimos segurar ...
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