Sempre me causou uma perversa fascinação a história de Charles Mallory Hatfield, que foi um desses casos raros de embaucadores do final do séc. XIX e princípios do séc. XX, que tiveram suficiente má sorte para com as suas promessas cumpridas, mas que os clientes não corresponderam ao acordado.
Começava a 1ª década do século e Charles Hatfield, depois de inúmeros trabalhos como vendedor, decidiu dedicar-se ao negócio da chuva.
Uma actividade considerada lucrativa, numa época em que se vendiam, pelas ruas, os tónicos para a juventude, para a calvície, tipo banha de cobra, com “receitas secretas e fantasmagóricas”.
Com o novo negócio em mente, o nosso fatídico herói começaria a investigar a melhor maneira de fazer chover.
Lembrem-se que estamos no início do século XX e já se falava no aquecimento do planeta que se sente agora. Agora é que somos os bacocos … mas em frente.
Depois de muitas misturas químicas e outras substâncias, que eram misturadas e colocadas em tambores, com a intenção de obter uma rápida evaporação e assim distribuir a sua “mistela” pelas nuvens.
“Excitava-as” e levava-as a uma repentina libertação da sua água.
Supostamente, esta técnica não servia, como sabemos hoje em dia, que para lograr uma precipitação artificial das nuvens é necessário utilizar gelo seco e um produto derivado da união do iodo com um radical simples ou composto, cristalizado, com o fim de condensar o vapor de água da nuvem.
Algo que os chineses aprenderam, por causa das Olimpíadas e que não se deve abusar, porque molha muito!
San Diego inundada, em 1916, depois de terem contratado os serviços do "fazedor de chuva", Charles Hatfield
Mas uma série de afortunadas provas de fogo, digo, de chuva e por casualidades várias, levaram a que o nosso homem, Charles Hatfield, confiasse na sua “mescla de 23 elementos”.
Assim começaria a oferecer os seus préstimos.
Foram-se passando os anos e foi artífice duma série de provas falidas e outras de êxito afortunado, algumas em que choveu igualmente apesar dele não ter estado presente para evaporar as suas “mezinhas”.
Mas a sua reputação cresceria avassaladoramente, quando em 1915 o chamaram a San Diego, (EUA), com o fim de contratarem os seus serviços, face à seca que assolava a região que quase secava o Lago Morena e também devido ao desenvolvimento demográfico que foi vertiginoso desde os princípios da década.
É que nesse ano ir-se-ia realizar aí a “Panama-California Exposition”, pelo que a água era uma necessidade desesperante.
E o planeta continuava por aquecer ... ou era como agora … ?
O “Rainmaker”, como era conhecido em todos os estados do Estados Unidos, acedeu ao local, entregando ás autoridades locais as suas condições de pagamento, na qual estabelecia a quantidade de chuva e quanto lhe deviam pagar por polegada da mesma.
Depois de diversos encontros, o conselho de San Diego ofereceu-lhe 10.000 dólares por todo o trabalho.
Hatfield aceitou e iniciou a construção de uma enorme torre perto do lago, para no topo colocar os tambores com a sua mistela, que se iriam evaporar.
Tudo ficou pronto no início de 1916 e preparado para começar a funcionar.
Nunca poderia ter imaginado ou adivinhado, Hatfield, que esse ano se abateria uma das maiores tormentas registadas em San Diego.
Não foi só o lago, mas os rios também transbordaram, arrastando pontes e postes de iluminação e de transporte de corrente eléctrica, sendo os prejuízos avultadíssimos e colocando em perigo as barragens de Otay e Sweetwater.
Como era de esperar, a imprensa e a opinião pública precipitaram-se sobre o tão famoso “Rainmaker”, exigindo-lhe respostas.
Hatfield, obviamente, responderia que a sua parte tinha sido cumprida e que a cidade lhe devia 10.000 dólares.
Logicamente e como era de imaginar, o “serviço” nunca lhe foi pago, inclusive depois de vários anos de batalhas judiciais.
Depois disto, Hatfield continuaria com a sua carreira, mais famoso ainda.
Inclusivamente foi contratado para apagar um enorme incêndio nas Honduras.
Não obstante tudo isto, a sua fama foi-se esvanecendo.
A mulher deixou-o e morreu aos 83 anos de idade.
Se bem que a sua lenda seja popular, hoje acredita-se que Hatfield baseava a sua “fábrica de chuva”, num profundo conhecimento sobre meteorologia.
Não obstante, Hatfield asseguraria, inclusive até ao dia da sua morte, a sua convicção na efectividade da sua técnica.
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