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Para abrir o apetite, ou pelo contrário, para “assustá-lo”, deixo aqui um pequeno fragmento da conversação que mantiveram dois “velhadas”, um casal octogenário, durante o percurso no meu táxi.
- Que lindo dia de sol que está, disse ela.
- Sim. Está sol, retorquiu ele.
- Mas sol, sol. Daquele que cresta, não é?
- Muito sol, sim.
- E sem nenhuma nuvem.
- O céu está limpo, sim, rezingou ele.
- Quanto durará este tempo?
- Dure lá o que durar, Ju:
Vê lá que raio de perguntas fazes.
- Claro, com a mudança da hora, agora anoitece mais tarde.
- Isso é verdade.
Quedo-me por aqui para não aborrecer ninguém.
Aquilo, mais do que uma conversação, parecia um concurso de obviedades.
E asseguro-vos que de entre todo aquele carrocel de frases (e houve mais, muitas mais que aqui não aparecem) não encontrei uma única com um mínimo, mesmo ínfimo, de conteúdo.
Nenhum dos dois disse absolutamente nada que o outro não soubesse, ou até eu, ou qualquer outro.
Falavam por falar talvez porque já não tinham nada novo que dizer entre ambos, nem que dizer ao resto.
Pelos meus cálculos, aqueles anciãos tinham mais de cinquenta anos de casados.
Tal dado poder-vos-á parecer até romântico, mas não.
Refiro-me ás suas consequências.
Com o passar do tempo, as suas vidas deixaram-se levar pela mais pura e dura rotina; uma rotina que anula, que aniquila qualquer vislumbre ou desejo de novidade.
E é tal o grau, que já não falam para se comunicar, senão para rechear a inércia de uns anos extra com os quais já não contavam.
Assim actuam os que acham que já esgotaram todas as suas etapas e já não lhes fica mais objectivo nenhum, do que esperar, sentados, o resto dos seus dias.
Não há nada mais que aportar para além de ver crescer os seus netos (autónomos todos eles) ou de fazer um mundo da mais insignificante estupidez.
Nesses casos, mas só nesses, tantos anos de matrimónio não são mais do que um empecilho para a quimera de exprimir a vida.
Geram rotinas, lobotomizam.
E quando um deles falta, o outro abandona-se ainda mais e inclusive, morre de saudade.
De saudade mal entendida.
E quando faltarem os dois, fica a descendência, qualidades e uma vaga recordação.
Nada mais.
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2 comentários:
Isto agora já não é como antigamente; ele agora arranja uma chavaleca nova e ala que se faz tarde; e elas viram-se para o futebol, para o fado e para Fátima.
Táxi Pluvioso
Depende muito das "potencialidades" para com, ou para a chavaleca...
Mau mesmo é virarem-se para Fátima... mas as católicas são muito poucas...
Cumprimentos.
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