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"Reminiscecias Portuarias" (acrílico sobre tela) de Maria Noel Caridad |
Sentou-se, fechou a porta e o espelho retrovisor disse-me o resto.
Os mesmos olhos cor de fome, as mesmas maçãs do rosto, a mesma boca, a minha mesma arritmia.
– Boa tarde.
Leve-me á rua…
- Oliveira Martins com Carlos Malheiro Dias?
Interrompi.
– Como sabe?
Perguntou-me admirada.
– É a segunda vez que coincidimos, a esta mesma hora e nesta mesma postura.
Do trabalho para casa, supus então.
Dadas as circunstâncias, agora suponho o mesmo.
Naquela ocasião a senhora levava um casacão diferente desse, mais justo, com duas filas de botões e uma carteira castanha cujo fecho condizia com as fivelas dos seus sapatos, também castanhos.
Cheirava muito a tabaco.
Agora não.
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| Marcelo Torres ( Lino ) - Tirada daqui |
Conseguiu deixar de fumar?
– Sim, bem… carago!
Memória fotográfica?
– Memória selectiva.
Arranquei e accionei o taxímetro.
– Selectiva?
– Esqueço os rostos, mas não as impressões.
– Que impressões?
– Chamou-me a atenção a sua cicatriz.
– Esta?
Apontou com um dedo uma pequena cicatriz debaixo do lábio inferior.
– Sim.
Essa.
– Acho-a muito banal e do mais comum.
– Não o é.
Na realidade dá-lhe um toque peculiar e misterioso ao seu rosto.
E algo me diz que a senhora gosta da sua cicatriz.
Recordo aquele outro trajecto em que a senhora tendia a mordiscar o lábio inferior, cada vez que se sentia observada por mim através do retrovisor.
E mais, tende a morder o extremo oposto do lábio, o lado esquerdo, ressaltando a cicatriz do lado direito.
Talvez o tome como um gesto do mais comum, mas bem sabe que a nós, homens, gostamos desse tipo de detalhes.
O seu é divertido, descontraído.
Inclusive sexy.
– Insinua que tentei seduzi-lo?
Perguntou-me.
– Tão-pouco disse isso.
Todos nós gostamos de desfrutar.
Sentirmo-nos atractivos para tudo.
Faz-nos sentir bem.
A senhora é casada, eu sei-o.
– A minha aliança…
– A sua aliança, sim.
Também me fixei nela.
– Então o que me pretende dizer?
– Que me fixei na senhora.
Que a mim também me seduz a sua cicatriz.
Que recordo aquele outro trajecto com assombrosa nitidez.
É tudo.
Chegámos ao destino.
A mulher pagou a viagem e abriu a porta.
Voltei-me e olhámo-nos... nisto voltou a morder o lábio inferior.
Sorri e ela foi-se.
Retomei a marcha e através do espelho retrovisor vi como tirava da carteira um bloco de notas e apontava algo olhando ao mesmo tempo para o rasto do meu táxi.
Talvez anotasse a matrícula para poder localizar-me e converter este segundo encontro casual, num terceiro premeditado.
Ou pode ser que tenha anotado a matrícula para denunciar-me à polícia por assédio sexual.
Quem sabe?
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