O VIDEIRINHO

sexta-feira, abril 01, 2011

REMINISCÊNCIAS

.

"Reminiscecias Portuarias" (acrílico sobre tela) de Maria Noel Caridad 

Sentou-se, fechou a porta e o espelho retrovisor disse-me o resto. 

Os mesmos olhos cor de fome, as mesmas maçãs do rosto, a mesma boca, a minha mesma arritmia. 

– Boa tarde. 
Leve-me á rua… 

- Oliveira Martins com Carlos Malheiro Dias? 
Interrompi. 

– Como sabe? 
Perguntou-me admirada. 

– É a segunda vez que coincidimos, a esta mesma hora e nesta mesma postura. 

Do trabalho para casa, supus então. 

Dadas as circunstâncias, agora suponho o mesmo. 

Naquela ocasião a senhora levava um casacão diferente desse, mais justo, com duas filas de botões  e uma carteira castanha cujo fecho condizia com as fivelas dos seus sapatos, também castanhos. 

Cheirava muito a tabaco. 

Agora não. 


Marcelo Torres ( Lino ) - Tirada daqui

Conseguiu deixar de fumar? 

– Sim, bem… carago! 
Memória fotográfica? 

– Memória selectiva. 

Arranquei e accionei o taxímetro. 

– Selectiva? 

– Esqueço os rostos, mas não as impressões. 

– Que impressões? 

– Chamou-me a atenção a sua cicatriz. 

– Esta? 
Apontou com um dedo uma pequena cicatriz debaixo do lábio inferior. 

– Sim. 
Essa. 

– Acho-a muito banal e do mais comum. 

– Não o é. 
Na realidade dá-lhe um toque peculiar e misterioso ao seu rosto. 
E algo me diz que a senhora gosta da sua cicatriz. 
Recordo aquele outro trajecto em que a senhora tendia a mordiscar o lábio inferior, cada vez que se sentia observada por mim através do retrovisor. 


E mais, tende a morder o extremo oposto do lábio, o lado esquerdo, ressaltando a cicatriz do lado direito. 

Talvez o tome como um gesto do mais comum, mas bem sabe que a nós, homens, gostamos desse tipo de detalhes. 

O seu é divertido, descontraído. 

Inclusive sexy. 

– Insinua que tentei seduzi-lo? 
Perguntou-me. 

– Tão-pouco disse isso. 
Todos nós gostamos de desfrutar. 
Sentirmo-nos atractivos para tudo. 
Faz-nos sentir bem. 
A senhora é casada, eu sei-o. 

– A minha aliança… 

– A sua aliança, sim. 
Também me fixei nela. 

– Então o que me pretende dizer? 

– Que me fixei na senhora. 
Que a mim também me seduz a sua cicatriz. 



Que recordo aquele outro trajecto com assombrosa nitidez. 
É tudo. 

Chegámos ao destino. 

A mulher pagou a viagem e abriu a porta. 

Voltei-me e olhámo-nos... nisto voltou a morder o lábio inferior. 

Sorri e ela foi-se. 

Retomei a marcha e através do espelho retrovisor vi como tirava da carteira um bloco de notas e apontava algo olhando ao mesmo tempo para o rasto do meu táxi. 

Talvez anotasse a matrícula para poder localizar-me e converter este segundo encontro casual, num terceiro premeditado. 

Ou pode ser que tenha anotado a matrícula para denunciar-me à polícia por assédio sexual. 

Quem sabe?
.
 

Sem comentários: