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Vejo em certos utentes de meu táxi uma agónica necessidade de sentirem-se sempre acompanhados, de que sempre exista alguém no outro lado do telefone, ou à espera no seu destino, ou enchendo cada hiato da sua agenda para não estar nunca sozinhos e assim evitar o silêncio.
Ou o vazio.
Empanzinam-se de planos e acabam sempre exaustos, rendidos e dormem bem todas as noites (de puro cansaço ou com pastilhas, os mais graves).
E todas as manhãs acordam cedo porque têm sempre muito que fazer, uma vida social frenética e coordenada ao milímetro com o encontro no cabeleireiro, no ginásio, nas aulas de inglês ou de culinária, fazer compras, lavar o carro, o zapping, emborrachar-se, jogar ao “Call of Duty” ou passear o cão; e assim, dia atrás de dia, semana após semana ou um mês atrás de outro até que ao fim, ainda que só seja por pura inércia ou por falta de habituação, conseguem o seu objectivo: não se escutar, descartar um contacto íntimo ou introspectivo com eles mesmos.
Talvez os aterrorize o eco insuportável de sua voz interior, o que poderia dizer se a escutassem.
Talvez não queiram surpresas com medo do abismo, ao fracasso do "EU", ao indomável potencial que todos transportamos interiormente.
Imagina que um belo dia surpreendes-te pensando que tudo é relativo e de súbito começas a questionar-te sobre as tuas próprias rotinas, os teus costumes, porque fazes o que fazes ou se realmente encontras prazer nele.
Imagina que esse novo relativismo te leva a mandar tudo pró car... para casa do diabo, traumas incluídos e começas do zero noutro local, mais distante de tudo mas mais perto de ti.
Imagina que começas a conhecer-te, a aceitar-te e a querer-te tal e qual como és.
Imagina que já não necessitas projectar-te no amor dos demais porque já és capaz de o produzir por ti mesmo.
Que medo não é???
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