O VIDEIRINHO

quarta-feira, abril 22, 2015

- Esta noite não terei nenhuma necessidade de dormir para sonhar !

FUTURO???

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Futuro menos passado é igual ao presente (penso enquanto circulo com o meu táxi, livre, pela rua de Costa Cabral). 

Algo falta na minha equação. 

Se o futuro é um cômputo indeterminado, também sê-lo-á o resultado, isto é, o presente. 

Não é possível resolver a equação com duas incógnitas. 

Mas o presente é real, estou a vê-lo, assim que x menos passado é igual a presente. 

Poderia valorizar o meu passado numa escala do zero ao dez? 

Passei-o bem, tive uma infância feliz e a minha adolescência foi, digamos, divertida. 

Eu pôr-lhe-ia um oito e meio ao conjunto do meu passado. 

E o presente? 

Bem, agora também sou muito feliz, (principalmente quando não oiço a zurraria dos governantes).

   


Reconciliei-me com o amor, aí um dez; agora soa no meu táxi, “Time is running out” de Muse, grande canção, mas hoje chegou-me o recibo da hipoteca da casa. 

Pôr-lhe-ia um oito e meio ao meu presente. 

Bem.
 
Futuro menos passado é igual a presente. 

X menos oito e meio é igual a oito e meio. 

Portanto o meu futuro é… zero? 

Eh! 

Esse carro passou um STOP. 

Trava!

Trava!

Travaaaa %#!!?&&!!!
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terça-feira, abril 21, 2015


- Cada noite dormia junto a um copo de água, com os dentes de uma velha diferente !

NEGÓCIO COM SAIAS

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- A mesa do reservado tem forma rectangular, para seis comensais.

Três de um lado e três do outro.

Tu sentar-te-ás à direita do Smith, disse o homem.

– Como é o Smith? Perguntou ela.

– Cinquenta e cinco anos, com o cabelo todo branco e óculos.
É inglês, mas safa-se bem em português.
Terás que  dar-lhe muita atenção, já sabes. Gosta de pesca, de casinos e parece-me que já vai no terceiro casamento, mas não abordes o assunto a não ser que ele se descosa.
Em qualquer caso, procura não falar mais para além do estritamente necessário.
Ri-te das piadas, fá-lo sentir-se à vontade.
De todos os modos, consta-me que gosta de mulheres exuberantes.
A tua simples presença eclipsá-lo-á.

 – De acordo!

– Ah!
Só um detalhe mais: quando eu começar a falar-lhe de negócios, nos “copos”, depois da sobremesa, levantas-te e sais por um período não inferior a dez minutos.
Diz que vais ao quarto de banho retocar a maquilhagem ou fazer uma chamada telefónica. Tudo muito natural, sim?
Então propôr-lhe-ei fechar o negócio.

– E o resto?

– Que resto?

– Acabaste de me dizer que éramos seis a jantar.
Faltam três.

- Não. São directores de empresas do grupo. Passamos sem eles.
O objectivo é Smith.

– Entendo.

– É um investidor muitíssimo importante.
Jogo um ‘bónus’ de dois milhões, esta noite.

– Como me apresentarás?

– Como minha mulher.

– Quanto tempo temos de casados?

– Calma.
Não creio que se interesse pela nossa vida sentimental.
Se chegarmos a esse ponto, deixa-me falar a mim. 

– Nome?

– Como te chamas?

– Como tu quiseres.

– Lia.
Lia está bem.
Soa a exótico.

Detivemo-nos à porta de um dos restaurantes mais exclusivos da cidade. 
O porteiro abriu primeiro a porta a ela, que saiu do táxi com suma elegância.
O homem pagou-me a ‘corrida’ e esperou que o porteiro lhe abrisse também a porta do táxi.

O cliente era um homem elegante (penteado de “brilhantina”, botões de brilhantes, Rolex, sapatos de verniz).

Ela, pouco menos que modelo: pernas altas bem constituídas e torneadas, vestido de alta costura, enigmáticas formas e um olhar desses que insinuam que estás disposto a pagar. 

Empresário e jovem acompanhante por horas; um floreado regado com notas de cem euros e uma “passadeira” a condizer com a sua gravata. 
Ela era essa cereja no topo de um bolo que nunca empanturra o bulímico dos negócios ou negociatas. 
A gueixa portuguesa de um jantar (ou uma cena) estudado ao milímetro. 
Impecável “adereço” à conta dos gastos de representação da empresa. 
Mundo vazio. 
Mundo de floreados. 
Todos conformes.
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segunda-feira, abril 20, 2015



- Sim, estou borracho. 
Mas é por ser domingo e o meu táxi é muito mais divertido quando bebo !

FUNÂMBULESCO

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domingo, abril 19, 2015


- As drogas não são a resposta, salvo se a pergunta é:  
Por que não tens dentes e estás a trabalhar como arrumador de carros?


INADAPTADOS

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A toxicómana tinha mais pressa que o toxicómano. 

Pelo menos a sua agitação convulsiva era mais forte. 

- Calma, meu amor. 
Que já chegamos, dizia ele agarrando a mão dela (os dois consumidos pela abstinência, mas ele inventando forças para ela). 

Assim dispostos, no assento traseiro de meu táxi, enfermiços, esquálidos, desdentados e no entanto unidos, ambos com olhos de rua mas mortos de medo, pareciam representar o último alento daquilo que chamam amor, o pior do céu e o pior do inferno, as duas cruzes sem cara da puta da vida. 
 
 

Talvez tivessem apanhado o meu táxi depois de terem dado um bom golpe e a impaciência pela abstinência nublou-lhes o custo do trajecto (cada gasto supõe um “chute” ou uma “pica” a menos, pensariam depois). 

O importante agora era aliviarem-se da dor da abstinência, drogarem-se juntos, evadirem-se na mesma nuvem, uma nuvem sobejamente conhecida e aliás imprescindível, cíclica. 

Compartir o seu recanto de seringas (sangue do seu sangue) ou de apalermados : ele segurando o papel de prata para ela e depois ela para ele. 


Aspirando lastro porque não há futuro. 

Procurando a vida porque não há presente. 

- Fuma a minha heroína, diria ele confundindo a criminosa. 

São doentes, pensei. 

Mas dessa enfermidade que ninguém assume e ninguém faz nada para curar. 

Relegados sociais, leprosos do primeiro mundo. 

E querem-se porque ninguém os quer. 

Só se têm um ao outro. 

Até que uma sobre-dose os separe.

07FEV2012
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sábado, abril 18, 2015


- Cada vez que alguém procura um desaparecido, no Twitter, clico na foto para ver se sou eu !


INTIMIDADE

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Não te acerques de um taxista frágil. 

Dói-me a luz dos semáforos e contigo estou tão mal como sem mim. 

Não te fies num taxista “INSÉTISTA”, dos que beijam como beijam os condenados, de um bobo na fila do INEM. 

Dá-me tempo. 

Só procuro legendar os meus sonhos, retractar as minhas penas e vendê-las, por entrega ao que oferecer o pior preço. 

Sabes bem que caminhar como um caranguejo me ajuda a ganhar alguma distância. 

O mau mesmo é o retrocesso. 

Já me conheces: sou o típico taxista suicida que nunca se esquece de colocar o cinto. 

 

E o que ainda não sabes: finjo orgasmos com bonecas insufláveis, colecciono monóculos e disseco cadáveres de dúvidas banhados em formol. 

Mas eu, amor, não me conheço tanto. 

A máscara é o reverso do espelho da alma. 

Invento pedras para tropeçar e partir a cabeça. 

E depois choro como um orfão numa piscina de embustes. 

É a hora dos mortos de medo: não te aproximes de mim, mas dorme comigo.
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segunda-feira, abril 13, 2015

- No travesseiro, os meus pensamentos são teus !

BURACOS

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Não há mais nada, ou tudo o restante não importa. 

Apenas buracos. 

A vida é uma busca constante e incessante de buracos. 

Desde o canal do parto, até à sepultura ou ao forno crematório. 

Os túneis, a tua boca aberta, o braço de um heroímano. 

As glândulas lacrimais, o caixote do lixo, o futuro. 

A porta de acesso ao psiquiatra, as recordações com lacunas, o tempo perdido, as narinas. 

Respiramos através de buracos, não te esqueças. 

Os poros da pele que se não vêem. 

O suspiro e o bocejo. 

A tua vulva e o resto das vulvas. 
 
 

Todos os buracos, na realidade, são vulvas encobertas. 

Todos vivemos pendurados de um cordão umbilical imaginário, ou passando de um cordão ao seguinte como se fossem lianas (ou cipós). 

Somos Tarzans procurando buracos, de liana em liana, por esta selva que é a vida. 

As mulheres também. 

São todas lésbicas mas algumas, a maioria, fingem-no extremamente bem. 

Procuram o circuito perfeito. 

Procuram desaparecer através de si mesmas em pose contorcionista. 

 
Encerrar o ciclo da vida como as deusas que são. 

E se algumas, a maioria, nos abrem as pernas é só por mera solidariedade para connosco.

Para que não nos sintamos sós, imperfeitos. 

Nota: 
Tudo isto foi-me dito por uma lésbica sincera enquanto circulávamos com o meu táxi pelo túnel que liga a Praça Praça Filipa de Lencastre à rua D. Manuel II. 

E quis acreditá-la. 

Necessitei acreditá-la.

 
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domingo, abril 12, 2015


- Já não sei o que me enraivece mais, se os jornais que contam patranhas ou as patranhas que dizem de verdade !

“SUSPENSÓRIOS”

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Abri a mala do carro para sacar o portátil e escrever este post, mas nisto encontrei uma pasta azul de borracha que não era minha. 

Deve tê-la deixado algum cliente, pensei, talvez aquele tipo desta manhã que tirou a mala e saiu disparado para não perder o comboio. 

Era um tipo dos seus cinquenta anos, cabelo grisalho e aspecto um tanto ou quanto descuidado, com quem troquei algumas frases. 

A verdade é que abri a pasta porque poderia conter algo de valor ou algum dado que me remetesse ao seu dono. 

E assim foi. 

No seu interior encontrei um bloco de receitas com o seu nome e endereço, assim como informações e notas dos seus pacientes, escritas à mão; deduzi pelo que li, que era psiquiatra. 

Sei que faço mal em reproduzir aqui uma dessas notas, mas necessito que me ajudeis em algo. 


Copio e colo e depois conto-vos:  

(continuação da pág. 201) (…) e neste ponto deduzi a relação entre os seus episódios de ansiedade e a palavra “suspensórios”, ou qualquer afinidade com o dito acessório. 
Acrescento sintomatologia: Quando Helena escuta a palavra “suspensórios” apresenta variações (quadro de stress vinculado a contracções pré-conscientes nos olhos = ep. traumático associado à vista e ouvido). 
Investigar leva-me cinco sessões (y + 3mg Lorazepam p/d). Result. em 10/09/2012: Entre os 13 e os 15 anos o padrasto de Helena abusou sexualmente da sua mãe biológica. 
Lena chegou a surpreendê-los numa ocasião, ele de costas e com os suspensórios das calças baixados. 
O resto das agressões intuí-as a partir do seu quarto, pelo som dos suspensórios das calças contra o chão de madeira. 
Daí a sua fobia auditiva para com a dita palavra. (…). 
Ontem, em pleno colapso, descruzou as pernas e não foi consciente do botão desapertado do seu decote. 
Sutiã sem enchumaços, alças azul marinho. 
Intuí mamilos erectos, mas talvez fosse efeito visual das rugas da blusa. 
Preocupado estudei os passos para acercar-me de Helena dada a sua actual instabilidade emocional. 
Talvez aumentar Lorazepam a +3 p/d e mudar o divã por sofás estrategicamente juntos, frente a frente. 


 
 
Chamai-me paranóico, mas creio que o dito cujo psiquiatra pretende aproveitar a “instabilidade emocional” de Helena para tentar cantar-lhe a “canção do bandido” (ou saltar-lhe logo para cima). 

Agora vem a pergunta, que gostava que me ajudassem a responder: 

Devolvo a pasta como se não tivesse lido nada, ou tomo outro tipo de medida? 

Será que me poderia meter em sarilhos se o denuncio? 
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sábado, abril 11, 2015


- O amor tem a virtude de desnudar, não os dois amantes um frente ao outro, mas sim cada um diante de si próprio !

BEIJADORES

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Rubens Gerchman - Série Banco de trás

Ontem à noite travou-se uma feroz batalha no assento traseiro do meu táxi. 

Viajava Boavista abaixo com um casal de passageiros sossegaditos e em silêncio quando, de repente, mediante um rápido e inesperado movimento, ala aproximou-se do seu adversário, encurralou-o segurando-lhe a cara com ambas as mãos, beijou-o na boca. 

Ele, por seu lado, empregou a típica estratégia bélica de deixar-se beijar: fez-se de vítima fechando os olhos e levantando as mãos em sinal de derrota. 

Três cruzamentos depois, a atacante começou a dar mostras de confiança afastando lentamente as suas mãos da cara dele. 

Mas então viu-se surpreendida pelo contra-ataque do beijado: inclinando-se para ela, meigo mas decidido, converteu a beijadora em sua refém. 

 

Empate a um. 

Ela, recém surpreendida, simulou a mesma estratégia de vitimada até que voltou a tomar a iniciativa. 

E nessa luta continuaram até ao fim do trajecto. 

Parecia, finalmente, que os dois tinham mais do que assumida a sua dupla condição de verdugo e preso: não sabiam beijar-se de igual para igual, assumindo forças, nivelando desejos, compartilhando os seus lábios a um mesmo nível. 

E talvez aquele método lhes funcionasse na perfeição. 

Talvez fosse este, precisamente, o segredo do seu êxito como casal. 

Assumir que são diferentes e, sem qualquer dúvida, complementares.
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