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A toxicómana tinha mais pressa que o toxicómano.
Pelo menos a sua agitação convulsiva era mais forte.
- Calma, meu amor.
Que já chegamos, dizia ele agarrando a mão dela (os dois consumidos pela abstinência, mas ele inventando forças para ela).
Assim dispostos, no assento traseiro de meu táxi, enfermiços, esquálidos, desdentados e no entanto unidos, ambos com olhos de rua mas mortos de medo, pareciam representar o último alento daquilo que chamam amor, o pior do céu e o pior do inferno, as duas cruzes sem cara da puta da vida.
Talvez tivessem apanhado o meu táxi depois de terem dado um bom golpe e a impaciência pela abstinência nublou-lhes o custo do trajecto (cada gasto supõe um “chute” ou uma “pica” a menos, pensariam depois).
O importante agora era aliviarem-se da dor da abstinência, drogarem-se juntos, evadirem-se na mesma nuvem, uma nuvem sobejamente conhecida e aliás imprescindível, cíclica.
Compartir o seu recanto de seringas (sangue do seu sangue) ou de apalermados : ele segurando o papel de prata para ela e depois ela para ele.
Aspirando lastro porque não há futuro.
Procurando a vida porque não há presente.
- Fuma a minha heroína, diria ele confundindo a criminosa.
São doentes, pensei.
Mas dessa enfermidade que ninguém assume e ninguém faz nada para curar.
Relegados sociais, leprosos do primeiro mundo.
E querem-se porque ninguém os quer.
Só se têm um ao outro.
Até que uma sobre-dose os separe.
07FEV2012
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2 comentários:
As gajas na droga são terríveis, muito pior que os homens.
Táxi Pluvioso
Para elas tudo é mais prazenteiro.
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