O VIDEIRINHO

domingo, abril 19, 2015

INADAPTADOS

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A toxicómana tinha mais pressa que o toxicómano. 

Pelo menos a sua agitação convulsiva era mais forte. 

- Calma, meu amor. 
Que já chegamos, dizia ele agarrando a mão dela (os dois consumidos pela abstinência, mas ele inventando forças para ela). 

Assim dispostos, no assento traseiro de meu táxi, enfermiços, esquálidos, desdentados e no entanto unidos, ambos com olhos de rua mas mortos de medo, pareciam representar o último alento daquilo que chamam amor, o pior do céu e o pior do inferno, as duas cruzes sem cara da puta da vida. 
 
 

Talvez tivessem apanhado o meu táxi depois de terem dado um bom golpe e a impaciência pela abstinência nublou-lhes o custo do trajecto (cada gasto supõe um “chute” ou uma “pica” a menos, pensariam depois). 

O importante agora era aliviarem-se da dor da abstinência, drogarem-se juntos, evadirem-se na mesma nuvem, uma nuvem sobejamente conhecida e aliás imprescindível, cíclica. 

Compartir o seu recanto de seringas (sangue do seu sangue) ou de apalermados : ele segurando o papel de prata para ela e depois ela para ele. 


Aspirando lastro porque não há futuro. 

Procurando a vida porque não há presente. 

- Fuma a minha heroína, diria ele confundindo a criminosa. 

São doentes, pensei. 

Mas dessa enfermidade que ninguém assume e ninguém faz nada para curar. 

Relegados sociais, leprosos do primeiro mundo. 

E querem-se porque ninguém os quer. 

Só se têm um ao outro. 

Até que uma sobre-dose os separe.

07FEV2012
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2 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

As gajas na droga são terríveis, muito pior que os homens.

xistosa, josé torres disse...

Táxi Pluvioso

Para elas tudo é mais prazenteiro.