O VIDEIRINHO

terça-feira, abril 21, 2015

NEGÓCIO COM SAIAS

.


- A mesa do reservado tem forma rectangular, para seis comensais.

Três de um lado e três do outro.

Tu sentar-te-ás à direita do Smith, disse o homem.

– Como é o Smith? Perguntou ela.

– Cinquenta e cinco anos, com o cabelo todo branco e óculos.
É inglês, mas safa-se bem em português.
Terás que  dar-lhe muita atenção, já sabes. Gosta de pesca, de casinos e parece-me que já vai no terceiro casamento, mas não abordes o assunto a não ser que ele se descosa.
Em qualquer caso, procura não falar mais para além do estritamente necessário.
Ri-te das piadas, fá-lo sentir-se à vontade.
De todos os modos, consta-me que gosta de mulheres exuberantes.
A tua simples presença eclipsá-lo-á.

 – De acordo!

– Ah!
Só um detalhe mais: quando eu começar a falar-lhe de negócios, nos “copos”, depois da sobremesa, levantas-te e sais por um período não inferior a dez minutos.
Diz que vais ao quarto de banho retocar a maquilhagem ou fazer uma chamada telefónica. Tudo muito natural, sim?
Então propôr-lhe-ei fechar o negócio.

– E o resto?

– Que resto?

– Acabaste de me dizer que éramos seis a jantar.
Faltam três.

- Não. São directores de empresas do grupo. Passamos sem eles.
O objectivo é Smith.

– Entendo.

– É um investidor muitíssimo importante.
Jogo um ‘bónus’ de dois milhões, esta noite.

– Como me apresentarás?

– Como minha mulher.

– Quanto tempo temos de casados?

– Calma.
Não creio que se interesse pela nossa vida sentimental.
Se chegarmos a esse ponto, deixa-me falar a mim. 

– Nome?

– Como te chamas?

– Como tu quiseres.

– Lia.
Lia está bem.
Soa a exótico.

Detivemo-nos à porta de um dos restaurantes mais exclusivos da cidade. 
O porteiro abriu primeiro a porta a ela, que saiu do táxi com suma elegância.
O homem pagou-me a ‘corrida’ e esperou que o porteiro lhe abrisse também a porta do táxi.

O cliente era um homem elegante (penteado de “brilhantina”, botões de brilhantes, Rolex, sapatos de verniz).

Ela, pouco menos que modelo: pernas altas bem constituídas e torneadas, vestido de alta costura, enigmáticas formas e um olhar desses que insinuam que estás disposto a pagar. 

Empresário e jovem acompanhante por horas; um floreado regado com notas de cem euros e uma “passadeira” a condizer com a sua gravata. 
Ela era essa cereja no topo de um bolo que nunca empanturra o bulímico dos negócios ou negociatas. 
A gueixa portuguesa de um jantar (ou uma cena) estudado ao milímetro. 
Impecável “adereço” à conta dos gastos de representação da empresa. 
Mundo vazio. 
Mundo de floreados. 
Todos conformes.
.

Sem comentários: