O VIDEIRINHO

quarta-feira, maio 09, 2007

Tenho os dedos a crescer, para escreverem ...

Gostei muito daquela jogatana no meio do mar, onde o bramido das ondas não ecoa nas nossas costas marítimas, a não ser trazido pelo bramante e ensorbebecido energúmeno, que é o deus dum reino só seu.
Nesse reino e para não destoar da mediania besteira, (dos indigentes, digo, dirigentes), o estrénuo amigo dos Zés e das Marias, não podia ficar atrás do palrador e vai daí, sem querer deixar transparecer a sua verdade interior, disse tudo o que lhe vai no interior, com aquela sinceridade só ao alcance dos grandes oradores. Não é invenção minha e para o provar, aqui fica a crónica no JN, do escritor, jornalista e diplomado em Direito, Manuel António Pina.


“O limpa palavras” *


Ferreira Fernandes (FF) acha no DN que a expres­são "o trabalho liberta" usada por Portas na Madei­ra significa que ... 0 traba­Iho liberta (diga-se, como curiosidade, que "traba­Iho" vem do latim "tripa­lium", aparelho de tortura composto de três paus). E estranha FF que gente como eu dê à inocente ex­pressão um sentido perver­so, por tê-Ia visto em "fil­mes" (filmes!) como Auschwitz ou Dachau, em cujos cinematográficos portões avultava, para os que os atravessavam a caminho da morte, a afronto­sa ironia "Arbeit macht frei" . A inocência linguísti­ca de FF é chocante, para não dizer mais. lnfeliz­mente, depois de Auschwitz, certas palavras perderam a inocência, e não serão decerto Portas e FF quem poderá restituir-lha. Não, a palavra Auschwitz não é apenas um inocente topónimo; não, "Sieg heil!" não é ape­nas uma saudação inocente; não, "Lebensraum", "Blitzkrieg", "Pogrom" não são inocentes substan­tivos. Tais palavras fazem sentido, um sentido terrí­vel, na História (pois as pa­lavras têm História) e car­regam consigo esse doloroso sentido (ao menos para os que não descartaram alegremente a memória). Alguém que explique a FF que "solução final" não é o resultado de uma equação nem a mistura completa de um soluto num solvente ...


* Título de um livro de Álvaro Magalhães

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