Nesse reino e para não destoar da mediania besteira, (dos indigentes, digo, dirigentes), o estrénuo amigo dos Zés e das Marias, não podia ficar atrás do palrador e vai daí, sem querer deixar transparecer a sua verdade interior, disse tudo o que lhe vai no interior, com aquela sinceridade só ao alcance dos grandes oradores. Não é invenção minha e para o provar, aqui fica a crónica no JN, do escritor, jornalista e diplomado em Direito, Manuel António Pina.
Ferreira Fernandes (FF) acha no DN que a expressão "o trabalho liberta" usada por Portas na Madeira significa que ... 0 trabaIho liberta (diga-se, como curiosidade, que "trabaIho" vem do latim "tripalium", aparelho de tortura composto de três paus). E estranha FF que gente como eu dê à inocente expressão um sentido perverso, por tê-Ia visto em "filmes" (filmes!) como Auschwitz ou Dachau, em cujos cinematográficos portões avultava, para os que os atravessavam a caminho da morte, a afrontosa ironia "Arbeit macht frei" . A inocência linguística de FF é chocante, para não dizer mais. lnfelizmente, depois de Auschwitz, certas palavras perderam a inocência, e não serão decerto Portas e FF quem poderá restituir-lha. Não, a palavra Auschwitz não é apenas um inocente topónimo; não, "Sieg heil!" não é apenas uma saudação inocente; não, "Lebensraum", "Blitzkrieg", "Pogrom" não são inocentes substantivos. Tais palavras fazem sentido, um sentido terrível, na História (pois as palavras têm História) e carregam consigo esse doloroso sentido (ao menos para os que não descartaram alegremente a memória). Alguém que explique a FF que "solução final" não é o resultado de uma equação nem a mistura completa de um soluto num solvente ...
* Título de um livro de Álvaro Magalhães
Sem comentários:
Enviar um comentário