O VIDEIRINHO

quarta-feira, maio 27, 2009

SORVO DE FELICIDADE

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Diz-se que na farmácia há de tudo, mas tão-pouco é uma certeza.


Resulta ser confortador que se tenham inventado mais remédios que enfermidades, do mesmo modo que é haver ou ter-se encontrado fins muito mais precisos para as enfermidades de sempre, mas o avanço da ciência, sempre em luta com os feiticeiros da tribo, é irreprimível e incontida.


Em breve será possível adquirir em qualquer farmácia, não sem antes consultar o farmacêutico, uma enzima capaz de eliminar as más recordações.


Um piedoso produto que domestique a amnésia e elimine as sombras da memória, essa “cega abelha da amargura”, que trabalha por sua conta, mas por nosso risco.


Assegura-se que o piedoso achado foi satisfatoriamente testado com ratos.


E os ratos, inclusive os coloridos, esquecem.


Recomendou Miguel de Unamuno, ter boa memória e também bom ouvido.


Quiçá esta última capacidade seja a que mais contribua para tornar possível esse sorvo de felicidade, disso que chamamos felicidade, que nos visita de vez enquanto.


Não há nada cujas recordações sejam todas prazenteiras, porque se apresentam sem pedir permissão e não há maneira de exigir-lhes uma conduta adequada, já que não temos o direito de admissão.


De mim posso dizer-lhes que das três famosas potências, ando regular de entendimento, muito mal de vontade e estupendamente de memória.


Agora mesmo me recordei de alguns pregões da infância e do que li sobre os pregões de vendedores ambulantes em alguns países da América latina.


Entre os seus benéficos produtos terrestres, oferecem “ervas para esquecer”, junto com a carqueja e a flor de alecrim.


Atahualpa Yupanqui fez até uma canção.


Talvez algum laboratório tenha comprado a fórmula a um desses beneméritos vendedores de ervas milagreiras.



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2 comentários:

claras manhãs disse...

Era só o que faltava!
Mas não perceberão que as memórias, principalmente as que nos traumatizaram nos fizeram ser quem somos?
Tirar memórias será amputar emocionalmente uma pessoa, mesmo que seja uma memória de violação, por exemplo

xistosa, josé torres disse...

claras manhãs

Há quem não guarde memória dos tempos idos ... que esqueça pura e simplesmente.
Tal é possível, porque a memória é a agenda das experiências vividas.
Eu arranquei algumas páginas á agenda ( e não são tão antigas quanto isso).
Não me sinto amputado, mas enriquecido, porque esqueci o que queria, se bem que ficam sempre uns resquícios.

É muito subjectivo e penso que varia de pessoa para pessoa.
Episódios de há cerca de 40 anos que os bani.
Foram nas folhas da agenda.