
Começam as filas.
Os transeuntes que não tomam parte nelas, podem contemplá-las até ao voltar da esquina.
Quem as compõe não se alinha, mais ou menos ordenada e respeitosamente, para assaltar uma ourivesaria, nem para adquirir um peixe ilustre numa qualquer peixaria, mas sim para procurar trabalho.
São os primeiros penitentes em grande procissão da crise.
O único que pedem à vida, é que lhes dê possibilidades de ganhá-la honradamente.
Asseverava Platão: “Os números governam o mundo” e por cá, “O Governo descarta a hipótese de chegar aos 500.000 desempregados este ano”, mas os portugueses, tão-pouco descartamos a possibilidade do desemprego passar á frente do Governo, da Oposição, da Banca e da mãe que os pariu.

O português é feito de uma matéria dura, mas muito maleável.
Abrandou nos complacentes tempos de bonança fictícia, quando acreditávamos que a tal sociedade de bem-estar estava feita para todos.
A muitos, deu-lhe para trocarem de carro e de parceira, que são as duas coisas mais caras e a viver como tinham ouvido viver os que podem, que nunca escassearam no nosso meio.
Bruscamente, despertámos do nosso sonho.
A Segurança Social desequilibra-se.
Ao ritmo de desempregados a que se assiste, por mês, não pode resistir uma pequena nação como a nossa sem chegar à imobilidade absoluta.

Detesto duas coisas igualmente, as filas e as catacumbas.
Ambas as repulsões são de índole freudiana, já que são os locais que mais frequentei na minha infância e, em algumas ocasiões pela vida fora.
Tanto em brincadeiras, como na fila do bacalhau por volta de 1976.
Os refúgios caseiros ainda não chegaram, mas as filas estão a reaparecer.
Bem sabe qualquer um dos deuses, que eu não propendo para o pessimismo, mas em caso de incêndio há que alvorotar-se.
Se conservamos a calma, corre-se o risco de morrermos carbonizados.
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