
Não venho dar nenhuma novidade, nem recordar nada que o consumismo não alerte, pelo menos com uma razoável antecedência.
Não consegui colocar o que queria, que apesar de não ser nada de importante, (ou talvez o seja), dada a ausência, ficou sem efeito.
Por este cardenho, rezam as antigas crónicas que a minha mulher faz anos no dia do pai.
Queixa-se que nem o dia dos anos é só para ela.
Tem que o repartir.
Casei com comunhão de adquiridos, (o normal a.C.).
Já lhe expliquei, que mesmo que não fosse dia do pai, pela escritura do casamento, eu teria sempre direito a metade do dia.
Além de tudo, tem uma grandessíssima vantagem .
Consta-me, não tenho provas e não quero levantar falsos testemunhos, que as mulheres, quando interrogadas, mentem quanto á idade.
Alto!!! Não me batam!.
Não são todas ... Parece-me que só algumas !!!
Quando são imberbes, acrescentam uns pêlos ... e mais tarde, já maduras, retiram aqueles que tinham acrescentado, quando imberbes e os respectivos juros capitalizados ao longo desses anos.
Não as posso recriminar.
A minha mulher, não necessita disso ...
Como além das dádivas ou agruras do tipo de casamento, tem ainda uma metade do seu dia, para o dia do pai.
Ontem, dia 19, olhei-a nos olhos e antes do beijo de parabéns, disse-lhe:
- Quando fizeres trinta anos, estarás velha como eu, mas hoje, vais seguir as minhas indicações e diz, a quem te perguntar a idade, só metade dos anos.
Não é mentir ... se só tens tido metade do dia, só terás metade da idade!
Não sei se fez isso, nem é importante, (sei que não o fez, porque em reuniões, não há telemóveis), esteve todo o dia no Colégio ... o almoço foi a correr ... eu quase que nem tomava café e o jantar, já em casa, foi um polvo à lagareiro, especialidade minha e que uma cunhada e a namorada do meu filho adoram, já que esta parte amanhã ao encontro dele, em Manchester, (de férias pascais).
Lembrei-me então dos filhos que criamos e que esvoaçam para outras paragens ... deixando-nos, só o silêncio dos nossos passos ... e o cadenciar ritmado dos relógios ...
Mas destes parei três ... o meu perfeccionismo não me permitia colocá-los todos, a bater ou tocar horas ao mesmo tempo.
Ainda outro dia jogava ao pião, em terras albicastrenses e passado este lapso, vejo-o rodopiar ... sem intenção de parar ... aqui nos arredores do Porto.
Pais há muitos ... mães verdadeiras, são todas, mas há poucas ...
Depois do dia do pai ... fica a minha homenagem ás mães.
POEMA À MÃE
No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro
MÃE:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!
Miguel Torga, in Diário IV
1 comentário:
Xistosa,
Embora um pouco atrasada, mas como o post ainda é atual, deixo aqui o meu abraço pra ti pelo dia dos pais, já passado. E outro abraço para tua mulher.
Feliz Páscoa!
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