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| Tirada DAQUI |
Não utilizei drogas, juro-o.
Adormeceu sozinha.
Por vezes o sono chega sem querer.
Morfeu é um vírus que vive do ar.
Ela não pretendia adormecer ali, no assento traseiro do meu táxi, mas as ruas daquele trajecto eram monótonas, a temperatura de berço d'amor, a música suave e eu desta vez conduzia como dando uma massagem ao asfalto.
Chegou um semáforo e fixei-me nela.
Dava um ar de Amélia, aquela minha noiva que me durou três cinemas, mas com os lábios mais grossos e o cabelo mais longo e encaracolado.
De facto, um caracol rebelde tapava o seu nariz e ao respirar movia-se em espiral como um tornado sobre o oásis da sua boca.
Também tinha os dois primeiros botões do seu casaco desabotoados, a lapela entreaberta e, mais abaixo, um decote picaramente marcado pela sua postura, inchado mas não demasiado, copa B atirando ao C.
Abriu o semáforo.
Então perdi o interesse de ser taxista: encostei num local, puxei o travão de mão e colei-me por entre os assentos como uma lagartixa até atingir o seu pescoço.
Cheirava a uma mistura de pele recém passada a ferro e citrinos.
A amparo acolchoado.
A desejo.
Tão pouco pude e nem quis evitar cair na tentação de pressionar, com cuidado, os meus dedos sobre a sua jugular: 73 pulsações por minuto.
Tranquilizo-me comprovar que os utentes do meu táxi estão vivos.
As suas pálpebras moviam-se.
Estava, sem dúvida, em fase R.E.M.
E assim aproveitei a profundidade do seu sono para pousar, muito lentamente, a minha cabeça sobre o seu decote.
Notei-o quente.
E macio como talvez seja o céu.
E aí fiquei até que a mim também se me fecharam os olhos.
Pouco a pouco.
Sem poder evitá-lo.
Adormeci.
Despertei em minha casa e na minha cama.
Tudo tinha sido um sonho.
Sonhei que estava a sonhar aproveitando enquanto ela sonhava.
De qualquer modo, necessito encontrar uma noiva.
Urgentemente.
Nota:
Se queres ser minha noiva contacta-me.
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