Quinta-feira, Janeiro 12, 2012

SONHOS SONHADOS

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Tirada DAQUI

Não utilizei drogas, juro-o. 

Adormeceu sozinha. 

Por vezes o sono chega sem querer. 

Morfeu é um vírus que vive do ar. 

Ela não pretendia adormecer ali, no assento traseiro do meu táxi, mas as ruas daquele trajecto eram monótonas, a temperatura de berço d'amor, a música suave e eu desta vez conduzia como dando uma massagem ao asfalto. 

Chegou um semáforo e fixei-me nela. 

Dava um ar de Amélia, aquela minha noiva que me durou três cinemas, mas com os lábios mais grossos e o cabelo mais longo e encaracolado. 

De facto, um caracol rebelde tapava o seu nariz e ao respirar movia-se em espiral como um tornado sobre o oásis da sua boca. 

Também tinha os dois primeiros botões do seu casaco desabotoados, a lapela entreaberta e, mais abaixo, um decote picaramente marcado pela sua postura, inchado mas não demasiado, copa B atirando ao C.

 
Abriu o semáforo. 

Então perdi o interesse de ser taxista: encostei num local, puxei o travão de mão e colei-me por entre os assentos como uma lagartixa até atingir o seu pescoço. 

Cheirava a uma mistura de pele recém passada a ferro e citrinos. 

A amparo acolchoado. 

A desejo. 

Tão pouco pude e nem quis evitar cair na tentação de pressionar, com cuidado, os meus dedos sobre a sua jugular: 73 pulsações por minuto. 

Tranquilizo-me comprovar que os utentes do meu táxi estão vivos. 

As suas pálpebras moviam-se.

Estava, sem dúvida, em fase R.E.M.



E assim aproveitei a profundidade do seu sono para pousar, muito lentamente, a minha cabeça sobre o seu decote. 

Notei-o quente. 

E macio como talvez seja o céu. 

E aí fiquei até que a mim também se me fecharam os olhos. 

Pouco a pouco. 

Sem poder evitá-lo. 

Adormeci. 

Despertei em minha casa e na minha cama. 

Tudo tinha sido um sonho. 

Sonhei que estava a sonhar aproveitando enquanto ela sonhava. 

De qualquer modo, necessito encontrar uma noiva. 

Urgentemente. 

Nota: 
Se queres ser minha noiva contacta-me.
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