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Tirada DAQUI
Dizem os sábios que, em tempos de crise, aumentam as vendas de batons vermelhos e encurtam-se as bainhas das saias.
Os teus lábios são de um vermelho intenso e o teu vestido, (haja Deus!), apenas te cobre parte das coxas.
Tu também andas em crise, mas não económica: viajas no meu táxi, sem pressa, para um destino bem partilhado, alheia ao taxímetro e a tua roupa parece cara, caprichosamente conjugada.
Mas esses olhos demonstram tristeza e os teus dedos brincam ás escondidas com as mangas do casaco.
E franzes as sobrancelhas e arqueias as comissuras formando as correspondentes covinhas em ambos os lados do queixo.
Desconheço o motivo dessa tristeza ainda, quem sabe, tu a desconheças também ou nem sequer tenhas reparado nela.
Fazem falta motivos para nos deixarmos levar pela melancolia no que dura um trajecto de táxi?
Segundo o teu ponto de vista, as luzes de Natal induzem a isso, o aquecimento do meu táxi evoca lareiras, a música que agora soa inclui violinos e eu apoio o teu silêncio.
Há um mês foi Natal e por vezes e ás vezes as reuniões familiares provocam um efeito adverso ao desejado, mais de espelho interior, reflexivo, que de exibicionismo divertido.
Todo o teu ambiente, enfim, poderia ser propício para te deixares levar por um pranto anestesiado, monótono, linear, sem lágrimas.
Chorar em seco por simples e puro amor.
Crer-te suave e frágil por um instante.
Também não é tão grave.
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