O VIDEIRINHO

quinta-feira, março 01, 2012

UMA HISTÓRIA…

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Travo. 

Refiro-me ao táxi. 

À direita, um enorme cartaz com uma mulher de aspecto saudável (sorriso natural, sem olheiras), entusiasma-me a tornar-me banqueiro. 

Insiro na ranhura (para mim, tudo é sexo) do painel do auto-rádio um CD dos “Depeche Mode”: começa a soar “Enjoy the silence”. 

Aumento o volume até ao limite dos meus tímpanos. 

Retomo a marcha, viro à esquerda sem me interrogar porquê e travo numa passadeira para que atravessem dois homens carregados com sacos do El Corte Inglés. 

Um deles olha-me e levanta as sobrancelhas.


DEPECHE MODE - ENJOY THE SILENCE   

 

No estribilho, com a minha voz dissonante, começo a cantar: All I ever wanted/all I ever needed/is here… in my arma. 

O caminhar de uma mulher adulta dá-me a ideia para o início de uma possível história. 

Leva uma saia comprida e larga com estampado de flores. 

Saco do bloco de notas e, aproveitando outro semáforo, escrevo: 
O roçar das suas pernas ao andar geram calor. 
Esse calor poderia aproveitar-se como efeito de estufa para que as flores da sua saia cresçam. 
Em cada passo, as flores seriam mais e maiores”. 

Rasgo a folha, amarroto-a e atiro-a para o assento traseiro. 

Não gosto. 

Volta o estribilho: Words are very unnecessary / they can only do harm… 

Acendo um cigarro. 

Ao longe, uma mulher “encalhada” na borda do passeio levanta um braço. 


Aproximo-me. 

Ela continua com o braço levantado olhando para o meu táxi. 

Creio que quer algo. 

Detenho-me a seu lado e baixo a música. 

Inclina a cabeça até ao buraco da janela e diz-me: 

- Está livre? 

– Eu? Pergunto surpreso; sorriso malicioso. 

– O seu táxi, diz-me séria. 

– Qual táxi? 

– Isto é um táxi, certo? 

Olho para o taxímetro; a mulher tem razão, mantenho o ‘aviso’ de livre. 

– Sim, sim, desculpe. 
Entre. 

– Não sei se me hei-de fiar… 

- Entre, entre. 

A mulher abre a porta traseira e mal se senta ajusta o cinto de segurança. 



– Para a Rua Vasques Mesquita. 

Com o nome Rua Vasques Mesquita ocorre-me outra história. 

Pego no bloco de notas. 

– Perdoe-me, mas tenho pressa. 

Guardo o bloco. 

Iniciamos a viagem. 

A meio do caminho, depois de múltiplas nuances, dou conta de que me esqueci de accionar o taxímetro.

A mulher nem sequer repara no meu despiste. 

Parece nervosa. 

Vejo-o nos olhos. 

O seus olhos olham, mas como sem olhar. 

Aqui há outra história. 

24JUL2011
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