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Consciente do fim do engano e dos males do tabaco, decidi de forma definitiva deixar de fazê-lo, conseguindo que a minha mente se molde aos meus desejos em (quase) todos os momentos da minha rotina: já não me custa não fumar no meu táxi, nem depois das refeições, nem nos bares, nem quando entretanto leio um bom livro, nem depois de uma boa (ou até, má) queca.
Foi só questão de entender que o tabaco não melhora quotidianamente a minha vida, as minhas relações sociais antes pelo contrário: míngua a minha saúde, a minha economia e a confiança em mim mesmo.
Tudo o que disse funciona para tudo, excepto quando escrevo algumas patacoadas por aí.
Aí olvido-me desta minha nova faceta (nova só agora, que na vida real tem mais de vinte anos) livre de fumos e de acender um cigarrito atrás de outro sem ser consciente do que aspiro, pese o bem que ele me inspirou a escrever o que eu aspiro.
Quando escrevo torno-me esquizofrénico.
O tempo não passa e já pode tremer o solo num grau 9,9 (escala de Richter) que pensarei que fui eu, com a força sísmica de minhas palavras.
Nesse intervalo desbordo-me e não passo cartão a nada.
Agora, não sei quantas horas depois da minha primeira letra, quando regressar ao frio solo dos vivos, observo o cinzeiro a abarrotar e interrogo-me quem terá fumado isso (incluso olho ao meu redor, assustado, como se alguém que não vi o fumou por mim).
Então, agora, por causa desse meu nobre afã por deixar de fumar, em lugar de um, sou dois: o orgulhoso não fumador e o escriba que fuma como uma chaminé (nunca entendi esta expressão: fumar como uma chaminé).
Sei que se deixasse de escrever também deixaria de fumar, mas antes morto que seco em palavras.
Tomara eu encontrar uma alternativa para continuar a escrever sem fumar.
Aceito soluções; há alguma ideia?
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