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EMMA SHAPPLIN – NOTHING WRONG
Num desses momentos porosos de tua empedernida vida procuras, ou deixas-te encontrar por alguém de quem só conheces matizes, a sua foto de perfil no Twitter, mensagens privadas e acreditas ou necessitas acreditar que há algo mais para lá dela, que necessitas interpretar como teu, como uma parte nova ou adormecida, ou mesmo indescritível de ti, talvez crucial, que modificará a tua vida.
Milhares de mensagens privadas após a primeira mensagem pública decides e ela também decide, parar, encontrarem-se, colocarem-se cara a cara, olfacto a olfacto, gosto a gosto: por fim chega o pânico do primeiro impacto visual, esses recentes primeiros dois beijos e o sentar-se no teu táxi, mesmo a teu lado.
Sorris, arrancas o táxi e então ela começa a falar, tu também falas e sublinham as palavras como dois perfeitos conhecidos.
A engrenagem rola melhor que no melhor dos ensaios, maravilhosa sinergia que notas e necessitas voltar a notar nela, ainda que não consigas interpretar até que ponto, (isso nunca se sabe, pelo menos no primeiro encontro que acreditas importante, com ela não é urgente a urgência).
Decides o mesmo destino dela: torrentes de cerveja, conversa e milhares de desculpas para brindar.
Conta-te e tu também contas, passados líricos, derrubas os teus próprios muros, cego pelo peso atroz do instante.
Não é o álcool que te empurra: são os seus olhos.
De tanto negar a passagem do tempo, fechais a esplanada (*).
E queres mais.
E, em seguida, caminhando ao seu lado, também queres interpretar que ela também quer o mesmo, ou mais, que tu.
É complexo decifrar a linguagem muda de quem agora desejas que seja uma parte generosa de ti, ou tu uma costela mais do seu esqueleto, como dois “Adãos” ante a atónita Eva.
Aqui não actuas como o mórbido náufrago que nada tem a perder, porque nada te importa.
Aqui e agora arriscas e isso nubla e limita os teus desejos.
É o medo de não ser correspondido.
Ao despedires-te dela dás-lhe um leve abraço que nem tempo dá para senti-lo.
Depois um casto beijo na bochecha e ela vai…
Imaginas-te um ponto suspensivo por cada passo que dá a caminho de sua casa.
Queres muito mais do que tudo isto, mas não saberás como dizê-lo.
(*) Talvez não seja propriamente uma boa escolha a traseira de um táxi para começar o contacto, demasiado pequena, demasiado hermética, sem possibilidade de perspectivas para desfrutar dos primeiros olhares.
Mas sem dúvida que poderá não ser um mau sítio para depois dos copos, suficientemente pequeno e recatado para um primeiro beijo.
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