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À minha volta, o mundo expande-se e a mim faltam-me as calças.
É frustrante a barba, os cabelos brancos, a vista cansada, o tacto rectal de um urólogo.
E ter-te saudades num bar qualquer, rodeado de velhos que não projectam sombra.
E usar de porta-copos um relógio.
E desenhar ondas com sementes de abóbora.
E em seguida, chorar numa casa de banho sem porta.
E secar-me com a toalha que eu mesmo passei a ferro.
E depois voltar ao balcão com cara de domingo, e pedir outra cerveja para mim e um gin tónico para essa mulher, a da cara de segunda-feira, a mesma que não parou de me olhar desde que entrei, ou entrou ela, não me recordo bem.
Que a mulher se acerque e se sente a meu lado.
Que me agradeça a bebida e de seguida acrescente:
- Advirto-te que não sou puta.
- Advirto-te que eu também.
Com isto digo-te que podes estar tranquila.
No final da noite ninguém fez amor com ninguém.
Só acabámos trepando no assento traseiro do meu táxi, cada qual imerso no seu próprio orgasmo.
Ela, para se excitar, arranhava a sua própria cara.
Eu necessitei acariciar os estofos.
Tenho-te saudades, já o sabes.
Poderias ter sido tu, mas não queres.
Eu não tenho a culpa de outros mundos.
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