O VIDEIRINHO

quinta-feira, julho 04, 2013

AUTOPSIAR

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A grandiloquência faz crer a mais de um que, para apelidar as coisas, não basta com uma palavra. 

Quando num acidente de automóvel morre algum dos seus ocupantes, pode ser que, dada a gravidade do embate, o morto fique encarcerado entre uma amálgama de ferros. 

Os bombeiros deverão aplicar-se a fundo para extrair a vítima. 

Uma vez o delegado de saúde dê a indicação ao levantamento do corpo sem vida do viajante, será levado para a morgue e ali os médicos legistas praticarão a autópsia do cadáver. 

Aristóteles na Grécia e Cícero em Roma elevaram a retórica à categoria de ciência. 

Nascida no tempo dos sofistas, essa teoria viveu os seus momentos de esplendor e glória nos tempos antigos. 

Hoje, a “arte de bem dizer, de dar à linguagem escrita ou falada eficácia bastante para deleitar, persuadir ou comover” também adquiriu outros significados depreciativos, a partir de, fazer um “uso impróprio e intempestivo” da retórica, segundo define o dicionário académico.
 

O exercício do jornalismo, seja oral ou escrito, acarreta boas doses de retórica: doses positivas, que convertem o jornalismo em arte e doses negativas, quando se faz um mau uso das palavras. 

A grandiloquência faz acreditar a mais do que um, que para apelidar as coisas, uma palavra não é suficiente: melhor duas… três ou quatro e adicionar adjectivos e sintagmas preposicionais aos substantivos, para dar brilho ou “armar-se aos cucos” acreditando ser melhor orador que o do nariz de grão-de-bico. 

Erro crasso, claro, quando não se tem um bom conhecimento da língua. 

Porque a retórica torna-se oca e aparecem as redundâncias como setas (cogumelos) em Outono húmido. 

A redundância que é sinónimo do pleonasmo, é o excesso de palavras para dizer a mesma coisa.


Em determinadas ocasiões, a redundância pode ser expressiva ou enfática: “Disse-mo com as suas próprias palavras”, onde as suas próprias palavras se estão a referir à mesma pessoa. 

Estas redundâncias são a parte boa da retórica, a que – como o miúdo que grita que o rei vai nu – consegue que ao pretenso bom orador se lhe descubra a careca. 

No primeiro parágrafo, há uma mudança do significado de falecido: antes era o que morria de velho ou desfalecido por uma doença, agora até o é o morto em acidentes, que não desfaleceu nem no momento de morrer. 

E logo aparecem as redundâncias imperdoáveis: quando os bombeiros “sacam” um corpo, costuma estar sem vida, porque se está vivo, já não falaríamos de um corpo. 

E ao que lhe fazem a autópsia, sorte que é um cadáver, porque se não o fosse, quiçá sairia correndo ao ver o bisturi. 
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