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Na primeira gaveta
da mesinha de cabeceira, tenho uma caixa de 24 preservativos vazia na qual
guardo um bloco de notas onde anoto os meus sonhos mais urgentes.
Guardo o
bloco de notas naquela caixa para preservar os sonhos, mas também para que
Beatriz, a jovem que vem limpar e arrumar a casa pense que sou um tipo normal a
atirar para o promíscuo.
De facto, costumo trocar a caixa volta e meia (ainda
que na realidade use os preservativos para fazer blocos de gelo com o formato
dum mamilo túrgido).
Também guardo outro bloco de notas no depósito do
autoclismo (onde anota as ideias mais merdosas), outro no armário dos
medicamentos e primeiros socorros (onde anoto as ideias mais loucas), outro
numa caixa de Chivas Regal 12 anos (onde anoto as ideias mais preferidas),
outro numa fresta atrás do aparelho de ar condicionado (onde anoto as ideias
mais frescas), outro na caixa do correio (onde escrevo histórias de amor não
correspondido) e outro no porta-luvas do táxi (onde anoto, como é óbvio, anedotas
do dia-a-dia, descrição de passageiros, etc).
O caso é que ontem à noite sonhei
que uma mão de mulher me estrangulava.
Assim, imediatamente depois de
despertar, saquei do bloco de notas da caixa de preservativos e anotei os
detalhes:
“Sonho 1233: estrangula-me uma mão de mulher com aliança no dedo anelar
e unhas longas de gel, pintadas, cor vermelha de sangue”.
E assim ficou tudo.
Depois saí para dar uma
volta, como sempre.
A meio da tarde, telefonou-me Beatriz, a jovem que vem
limpar e arrumar a casa.
Necessitava de um adiantamento de salário para uma
urgência.
Como não estava longe, dei uma saltada a casa para dar-lhe o dinheiro
e já agora, transportá-la a sua casa.
A verdade é que ao vê-la, detectei-lhe um
detalhe que me deixou gelado: Tinha as unhas de gel e pintadas na mesma cor das
da mão do meu sonho.
Além disso, no seu dedo anelar luzia um anel que não me
recordo de ter-lhe visto antes (de facto, juraria que me disse ser solteira).
Ela,
no entanto, comportou-se com a mesma confiança de sempre e eu, tratei de
dissimular o meu desconforto o melhor que pude.
Mas tem as chaves de minha
casa.
E não sei porquê, mas sinto medo.
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