O VIDEIRINHO

domingo, abril 06, 2014

ESTRANHO VIZINHO (PARTE II)

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... CONTINUAÇÃO 



Chegado ali, abriu o frigorífico e sacou uma lata de cerveja Finkbrau, do Lidl: a primeira em muitas semanas, tal como se tinha comprometido consigo próprio, na noite anterior ao seu primeiro dia de trabalho. 

Olhou-a longamente, abriu-a, voltou a olhá-la e quase de um só trago, e sem se separar do frigorífico, bebeu-a. 

Já vazia, deixou-a na bancada. 

Com a garganta fresca, foi até ao seu quarto, despiu-se olhando a sua cama como se da sua defunta esposa se tratasse e deitou-se. 

Tinha imaginado inúmeras vezes este momento: enquanto o sol e o cansaço o golpeavam com força e o muro custava a crescer, ele via-se sobre o seu colchão, mergulhado num longo e completo sono. 

Mas a imaginação é isso mesmo: imaginação. 

A realidade era um homem esmagado que não podia nem fechar os olhos porque, quando o fazia, centenas de fileiras de tijolos e toneladas de cimento esmagavam a sua paz de espírito. 

Era impossível. 

 

Voltou a rezingar algo, mas desta vez sim, entendeu ele mesmo o que se escapava entredentes: um “p*ta que pariu”. 

Depois desse “p*ta que pariu”, levantou-se, voltou à cozinha ás escuras e bebeu outra cerveja. 

E outra. 

E outra. 

E da cerveja (que, entretanto, acabara), passou ao vinho e do vinho ao whisky e do whisky a deixar cair, sem amortecer, a sua cabeça sobre a mesa. 

E daí até despertar, treze horas depois, olhando através da janela da cozinha o seu muro, cheio de um imenso e vermelho.

 Porquê? 

Estancou o génio do seu amanhecer e alegrou-se (e pela primeira vez em muitos anos a sua alegria, sim, era como a nossa; chamar-lhe humano, agora sim, era justo) de não saber a resposta e de ter aprendido, por fim, a viver num mundo no qual podia fazer as coisas sem qualquer razão, sem nenhum porquê.
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1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Isto agora há cada marca. Uma vez, em Lisboa na tasca de Delta Café, uma coisa fina, só tinham uma marca alemã, que já me lembro do nome: Best? ou coisa parecida.