.
Chegado ali, abriu o frigorífico e sacou uma lata de cerveja Finkbrau, do Lidl: a primeira em muitas semanas, tal como se tinha comprometido consigo próprio, na noite anterior ao seu primeiro dia de trabalho.
Olhou-a longamente, abriu-a, voltou a olhá-la e quase de um só trago, e sem se separar do frigorífico, bebeu-a.
Já vazia, deixou-a na bancada.
Com a garganta fresca, foi até ao seu quarto, despiu-se olhando a sua cama como se da sua defunta esposa se tratasse e deitou-se.
Tinha imaginado inúmeras vezes este momento: enquanto o sol e o cansaço o golpeavam com força e o muro custava a crescer, ele via-se sobre o seu colchão, mergulhado num longo e completo sono.
Mas a imaginação é isso mesmo: imaginação.
A realidade era um homem esmagado que não podia nem fechar os olhos porque, quando o fazia, centenas de fileiras de tijolos e toneladas de cimento esmagavam a sua paz de espírito.
Era impossível.
Voltou a rezingar algo, mas desta vez sim, entendeu ele mesmo o que se escapava entredentes: um “p*ta que pariu”.
Depois desse “p*ta que pariu”, levantou-se, voltou à cozinha ás escuras e bebeu outra cerveja.
E outra.
E outra.
E da cerveja (que, entretanto, acabara), passou ao vinho e do vinho ao whisky e do whisky a deixar cair, sem amortecer, a sua cabeça sobre a mesa.
E daí até despertar, treze horas depois, olhando através da janela da cozinha o seu muro, cheio de um imenso e vermelho.
Porquê?
Estancou o génio do seu amanhecer e alegrou-se (e pela primeira vez em muitos anos a sua alegria, sim, era como a nossa; chamar-lhe humano, agora sim, era justo) de não saber a resposta e de ter aprendido, por fim, a viver num mundo no qual podia fazer as coisas sem qualquer razão, sem nenhum porquê.
.


1 comentário:
Isto agora há cada marca. Uma vez, em Lisboa na tasca de Delta Café, uma coisa fina, só tinham uma marca alemã, que já me lembro do nome: Best? ou coisa parecida.
Enviar um comentário