O VIDEIRINHO

quinta-feira, abril 10, 2014

SINAIS AO TEMPO

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Não fico satisfeito em espreitar-te através das cortinas e atrás da janela, vizinha, quero tocar-te cada dia pela manhã. 
Sobretudo pela manhã, na primeira hora, quando estás sem maquilhagem, quando ainda ninguém te colocou a manápula em cima. 
Ser o primeiro a acariciar a tua cara, o teu peito, o teu pescoço, essa melena dourada. 
Sem maquilhagem, sem lacas, sem extensões nem estiramentos. 
Sem pestanas postiças nem lábios delineados. 
Tenho o meu quarto cheio das tuas fotografias. 
Todos os que consegui encontrar na internet. 
É o bom que tem o seres famosa. 
Encontro centenas de fotos tuas. 
Disfarçada de natural. 
Mas sempre com outros. 
Nunca comigo. 
Sei onde tens tudo até ao sinal ou verruga mais pequeno, pelas tuas poses na espanhola Interviú

 

Mas não, não gosto de exibí-los num quadro no meu quarto. 
Gosto de imaginá-los de noite. 
Os teus sinais como luas novas. 
Comprei um telescópio para vê-los a partir da minha janela, enquanto te despes, languidamente, para te meteres na cama. 
Enquanto calças umas meias coloridas e zebradas para desceres a correr pelas escadas com os sapatos na mão para não caires rolando. 
Na lufa-lufa do dia, na acalmia da noite. 
Olhar os teus sinais e verrugas. 
Trinta e dois sinais. 
Tens trinta e dois sinais. 
Tenho quase a certeza que nunca os contaste. 

 

É certo que nunca te poderei dizer que te amo, nem te poderei contar que no meu quarto guardo uma foto de cada sinal. 
Decerto que qualquer dia te irás do terceiro andar do bloco defronte e eu terei que guardar o meu telescópio. 
Certamente que então porei um nome a cada lua nova do teu corpo e criarei um universo paralelo em que continuarei a sonhar contigo. 
Até lá… sim, por favor, descalça de novo as meias, gosto do sinal na tua virilha. 
A esse, quando partires, chamar-lhe-ei Estrela em tua honra. 
Pequeno. 
Oculto. 
Insinuante. 
Como tu atrás das cortinas.
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