O VIDEIRINHO

domingo, janeiro 29, 2012

ME*DAS

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O meu burro, digo táxi, deixou-me completamente derruído em plena Av. Fernão de Magalhães. 

Soou um “pô,pô,pô” e entrou em paragem taxicirculatória. 

Aproveitando a inércia da marcha, encostei "à mão", accionei os intermitentes de emergência, coloquei o triângulo, não sem antes ter estreado o colete reflector da Emporio Armani que uma passageira me deixou em minha casa há uns tempitos, depois de ela mesmo ter tido igual sorte. 

Acolhi-a, como não podia deixar de ser, quer em minha casa, quer no meu leito de outros trabalhos. 

Como bom entendido, (não faço a mínima ideia da mecânica do carro), em lugar de manchar as mãos, abrindo  o capô e olhar o motor, como quem toca com um pau o cadáver de um nu, chamei directamente o ACP. 

Apenas tardou dez minutos a chegar a grua. 

 

O funcionário abriu o capô e ainda que, sem poder ver nada, (os motores de agora estão cobertos com uma tampa que impossibilita o fácil acesso), disse-me em tom boçal, que “tinha toda a pinta de se ter fo**** um rolamento da árvore de cames”. 

Soltou-o assim. 

Sem epidural. 

Já com o táxi sobre o reboque, disse ao “engenheiro” que o ia levar a um especialista em árvore de cames. 

- Esqueça isso. 
Conheço a 'muito melhor' oficina da cidade, respondeu-me o artista. 

E lá fomos. 

A 'muito melhor' oficina era uma fria nave dos subúrbios com dois anafados e gordurosos mecânicos (?) (suponho que a gordura das suas barrigas supurou), que deixaram de jogar futebol com uma lata de cerveja vazia assim que viram o nosso reboque. 

 

Saudaram-me com um característico “o que aconteceu?” e nesse mesmo instante, inclusive antes mesmo de dizer-lhes no seu jargão ”nem tenho qualquer p*ta ideia” subiram o meu táxi no elevador e começaram a desmontar peças como se não houvesse um amanhã. 

Três horas e muita mais gordura depois, ainda não haviam dado com o problema. 

Incluso consultaram um site, “Dicas Mecânicas”, na internet. 

Não sei se juntaram o “ pô,pô,pô”, as últimas palavras do meu muribundo táxi, e que eu lhes descrevera, mas não obtiveram a resposta para uma solução. 

Desesperados, os mecânicos, saíram para tomar uma cerveja ás 17,30. 

Aproveitei não estarem para espreitar por debaixo do táxi. 

Pequei numa gambiarra e foquei, tanto o motor como as peças adjacentes. 


Então, chamou-me a atenção um acumular de... parecia lama ou merda, que se havia formado na parte da frente, justamente na zona duma caixa donde saiam diversos cabos que me pareceram do rádio. 

Peguei num pincel grosso para limpar o sebo e ao começar, imediatamente começou a soar nos altifalantes o discurso de tomada de posse de Passos Coelho. 

Continuei a limpar e continuaram os discursos  do PSD “negando por activa e passiva, uma futura subida de impostos, porque significam mais desemprego e mais recessão”. 

Uma vez retiradas as merdas das mentiras do meu rádio, baixei o meu táxi do elevador e..., efectivamente, arranquei-o à primeira. 

Fugi da oficina sem esperar sequer pelos mecânicos, não sem antes escrever no “Dicas Mecânicas”:
“Não fazeis a mínima ideia de mecânica”.

Ah! Não ouvi o final dos discursos.
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sábado, janeiro 28, 2012

- Esta noite o coração late, but not too late !

PROCURO

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Por muito que insistam os anúncios de automóveis, não importa se existe ou não a perfeição. 

Agrupemos conceitos: perfeito é o que ninguém conseguiu superar até ao momento. 

Aqui os nossos deuses, os criadores, são substituídos sem pudor algum. 

Nem traumas por parte de ninguém. 

Refiro-me à perfeição subjectiva da arte. 

Para mim, a canção perfeita, que não a tua, é sem dúvida, "Enjoy the Silence" dos Depeche Mode (ao menos até que venha outro e a supere). 

Ou em pintura “O Grito” de Edvad Munch, ou em literatura, “À Rebours” de  Joris-Karl Huysmans, ou em mulheres,  Sharleen Spiteri ou Natalie Portman (aqui tenho dúvidas), ou em lábios e beijos, os teus, sem qualquer dúvida. 

 

Esta é a minha lista, que não a tua: não há duas iguais. 

E com ela nos adentramos no submundo das sensações íntimas, aquelas que me produz a canção, ou o quadro, ou o livro, ou o rosto, ou o beijo  de judas. 

Repetir cada experiência supõe uma busca desesperada para voltar a sentir o mesmo que aquela primeira vez, um remake daquele orgasmo virtual, auditivo ou táctil. 

E preciso, necessitamos usar essas sensações como referência para tudo o demais. 

Somos sensíveis, mas também inconformistas. 

Procuramos estímulos a qualquer preço. 

O meu meio é o meu próprio táxi. 


Procuro réplicas dessas mesmas sensações de fio a pavio da cidade, qual “drogado” em síndroma de abstinência (daí as minhas olheiras). 

Procuro esse rosto que se pareça ao de Natalie Portman, ou essa sinfonia de buzinas em pleno engarrafamento que imite o ritmo de Enjoy the Silence. 

Procuro outros beijos como os teus porque tu já não estás. 

Algumas cópias conseguem fazer-te esquecer o que andavas a procurar. 

Também escrevo. 

Escrevo para me encontrar.
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sexta-feira, janeiro 27, 2012

- Levo uma vida saudável.
Saúdo todo o mundo.
Olá pessoal !

TRISTIMANIA

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Tirada DAQUI

Dizem os sábios que, em tempos de crise, aumentam as vendas de batons vermelhos e encurtam-se as bainhas das saias.

Os teus lábios são de um vermelho intenso e o teu vestido, (haja Deus!), apenas te cobre parte das coxas. 

Tu também andas em crise, mas não económica: viajas no meu táxi, sem pressa, para um destino bem partilhado, alheia ao taxímetro e a tua roupa parece cara, caprichosamente conjugada. 

Mas esses olhos demonstram tristeza e os teus dedos brincam ás escondidas com as mangas do casaco. 

E franzes as sobrancelhas e arqueias as comissuras formando as correspondentes covinhas em ambos os lados do queixo. 

Desconheço o motivo dessa tristeza ainda, quem sabe, tu a desconheças também ou nem sequer tenhas reparado nela. 

 

Fazem falta motivos para nos deixarmos levar pela melancolia no que dura um trajecto de táxi? 

Segundo o teu ponto de vista, as luzes de Natal induzem a isso, o aquecimento do meu táxi evoca lareiras, a música que agora soa inclui violinos e eu apoio o teu silêncio. 

Há um mês foi Natal e por vezes e ás vezes as reuniões familiares provocam um efeito adverso ao desejado, mais de espelho interior, reflexivo, que de exibicionismo divertido. 

Todo o teu ambiente, enfim, poderia ser propício para te deixares levar por um pranto anestesiado, monótono, linear, sem lágrimas. 

Chorar em seco por simples e puro amor. 

Crer-te suave e frágil por um instante. 

Também não é tão grave.
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quinta-feira, janeiro 26, 2012

- As minhas recordações acabam sempre no recanto que é o poço negro do teu umbigo. 
Desnuda-te, amor.
Hoje há terapia !

BRINCAR...

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Tomamos ao pequeno-almoço publicidade. 

Almoçamos publicidade. 

Jantamos publicidade. 

Ceamos publicidade. 

Também patrocina os nossos sonhos. 

Correctores de olheiras, ginástica passiva, Gutalax, Prozac. 

Venderam-nos estilos de vida que não podemos permitir manter. 

Sabem que o sabemos, por isso depois venderam-nos extremamente bem a esperança, com um azul de fundo tão agradável e uma postura em cena tão perfeita, que sucumbimos e confiamos-lhe o nosso voto para outros quatro anos. 

Outra vez. 

E outra vez. 

O pack inclui amnésia selectiva. 

A sodomia que antes destroçava o estado de bem-estar é assumida como necessária: compra vaselina e encomenda-te ao “senhor”. 

 

Assumimos (e os espanhóis ainda mais) sem rezingar que um assessor do banco de investimentos Lehman Brothers para a península ibérica, controle agora o Ministério espanhol da Economia. 

Assumimos que um desbocado continue a zurrar no meio do Atlântico contra os cont'nentais que lhe fornecem a ração diária de palha. 

Assumimos que elegemos mais um prestidigitador para chefiar o nosso futuro. 

Assumimos um homiliasta nas Finanças. 

E assumiremos cortes e recortes, subidas de impostos, despedimentos, reduções de direitos arduamente conquistados e tudo o mais que faça falta enquanto os mesmos que provocaram esta crise continuam a ganhar mais e mais dinheiro. 


E a tudo isto, no fim, chamar-lhe-emos democracia. 

Gostaria de isolar-me no meu táxi, mas não posso. 

Os clientes são cada vez menos e os poucos que restam não fazem mais que recordar-me o mal que estão as coisas e o pior que ficarão. 

Por isso a única saída para comigo és tu, o amor e as quatro invioláveis esquinas da tua cama. 

As nossas noites e os nossos beijos livres de impostos (por enquanto). 

Os orgasmos, as carícias. 

Tomarmos banho juntos. 

Ler um PDF projectado nas tuas costas ou, porque não?, no teu peito. 

Brincar no corredor, só os dois, à cabra-cega. 

Ou aos médicos (de brincar).
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terça-feira, janeiro 24, 2012

- Num estado democrático existem duas classes de políticos:
Os suspeitos de corrupção e os corruptos !
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AYN RAND, (1905/1982), (palavras da escritora e filósofa russo-americana, fugitiva da Revolução russa, pronunciadas após a sua chegada, em 1926, aos EUA)


"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está  condenada!”

Apetece acrescentar: 
"... e que chegou a hora de começar a matar estes filhos da puta, ou eles acabarão connosco!”

quarta-feira, janeiro 18, 2012

- Ao fundo da rua, controle de alcoolemia. 
Peço ao passageiro do meu táxi que conduza por mim. 
Acede e mandam-nos parar. 
Dá positivo. 
Que parvalhão !

PSIQUIATRICES

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Na terceira quarta-feira de cada mês o meu psiquiatra e eu fazemos o que ele denomina: 
“Terapia de ruas abertas”. 

Trasladamos o seu consultório para o meu táxi e o divâ para o assento traseiro do condutor. 

Segundo diz, muitos dos meus traumas procedem do táxi e não há melhor forma de abordar qualquer problema do que, precisamente, desde dentro dele. 

A terapia consiste em dar voltas pela cidade enquanto ele me 'psicoanaliza' a partir do assento traseiro, como se ele fosse o passageiro e eu o taxista, só que no final do trajecto eu pago-lhe o que marca o taxímetro. 

 
 
Costuma marcar algo mais do que me cobra normalmente por uma hora de terapia convencional, coisa que o chateia bastante (e a mim também). 

O facto é que ontem aconteceu algo incomum. 

Enquanto me falava de minhas projecções 'clientelisticasas', biopsiando o meu interior qual rata de laboratório, olhando-me fixamente através do espelho retrovisor, movi o espelho para que ele se reflectisse a si mesmo, com os seus olhos em contacto directo com os seus próprios olhos e então, o meu psiquiatra implodiu. 

PUM!!!
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segunda-feira, janeiro 16, 2012

- “Noite de sexo selvagem”, pensas ao ver esse rasto de roupa no chão, desde a porta da rua, até à tua cama.
Depois vês que toda a roupa é tua !

A COSTUREIRINHA

 .
 

Descartada já a realidade prática do sentimento, agora que jogamos ao amor platónico, recomendo-vos uma lésbica. 

Não haverá ciúmes, que é a parte ruim do assunto. 

A essência dos ciúmes está, precisamente na comparação. 

Que terá ESSE que eu não tenha? 

Os ataques de ciúmes são punhaladas na base do ego e aqui, neste caso, não há ego que valha. 

Se te enamoras de uma lésbica não te podes comparar com uma mulher, por muito varonil que seja. 

Haverá sempre um abismo genital entre ambos. 

Se Ana, o amor platónico que ontem conheci no meu táxi, mantém uma relação com outra mulher, é porque ela é parte da sua natureza. 

Descartar-me-à, não pela minha falta de qualidades, mas sim porque simplesmente não a atraem os homens. 

Deste modo, o meu ego manter-se-á intacto e o nosso será impossível (como sempre foi) mas por culpa “de ninguém”. 

Como conceito teórico, parece-me que não está mal. 

Passemos á prática. 


Telefonei a Ana que me marcou encontro ao fim da tarde. 

Era uma casa de tectos altos, num maltratado terceiro andar sem elevador. 

Aí trabalhava mas também vivia, ou pelo menos vi uma cozinha e um quarto com uma cama de casal e duas mesinhas de cabeceira. 

O salão parecia, nunca melhor dito, um atelier de alfaiate: várias máquinas de coser, manequins e mesas com tecidos desdobrados formavam uma espécie de Tetris intransitável. 

Depois de mostrar-me a casa, ofereceu-me uma cerveja e sentámo-nos num sofá vintage. 

Ana vestia uma blusa branca, muito aberta e sem sutiã. 

Os seus seios pareceram-me pequenos e firmes e os seus mamilos pareciam mensagens em Braille da mesma blusa. 

Usava uma saia curta de tecido, sem meias (fazia calor) e no final das suas suaves e bronzeadas pernas, umas All Star azuis, desgastadas. 

 

Assim disposta, recostada no sofá e com a bainha da saia no limite do indecente, parecia uma ninfa dos subúrbios: formosa, próxima, casual e irresistível. 

Estivemos a falar, durante cinco ou seis cervejas, do seu trabalho, a sua vida e vice-versa. 

Incidiu no muito que havia influído a sua condição de lésbica nos seus desenhos. 

Nisto, levantou-se do sofá e puxando-me disse-me: 

- Façamos algo. 
Despe-te. 

- O quê? 

- Sossega. 
Não vou violar-te. 
Despe-te. 
Já venho. 

Sem perceber nada, comecei a despir-me e então ela apareceu com um vestido de mulher na mão. 

O vestido parecia inacabado, ainda com as guias das costuras à vista. 

Ajudou-me a vesti-lo e começou a ajustá-lo com alfinetes na zona do peito e das ancas. 

Ajoelhou-se diante de mim para um arranjo e, com o seu rosto a escassos centímetros das minhas entrepernas, com a sua boca separada de mim pelo fino tecido do vestido, (podia notar o calor da sua respiração), disse-me: 

 

- Já tinhas vivido alguma situação mais sensual do que esta? 

Antes que pudesse dizer algo, tocou-me em cheio na minha cada vez maior intumescência e disse-me: 

- Deixa lá. 
Não faz falta que me respondas. 

E por aí ficou a coisa. Bem, por aí não. 

Depois disto ofereceu-me o vestido: 

- Para que o vista o teu amor e te recordes de mim. 

Também me cedeu um pequeno espaço ao fundo do seu estúdio para actualizar o “INSÉTE” quando quisesse. 

- Talvez te inspires na escrita enquanto me vês a trabalhar. 

Saí dali bêbado e excitado. 

Extasiado e confuso em partes iguais. 

Sois muito peculiares.
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domingo, janeiro 15, 2012

- Se quando estás contente, cantas; por que não cantas para estar contente ?

...ANA

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Ontem entrou no meu táxi a vigésima sétima mulher da minha vida. 

Tinha os olhos cor verde militar e sem qualquer dúvida, transmitiam uma paz indescritível: olhavam como a pedir perdão e os seus cílios eram toldos contra o pranto acumulado. 

O seu lábio inferior tinha pequenos sulcos, como os discos de vinil  e  cada vez que passeava a ponta da sua língua da esquerda para a direita, qual agulha de gira-discos, soava uma canção diferente dos Beatles. 

Pena que a ponta do seu queixo apontasse um decote até onde eu não podia viajar: demasiado alto o horizonte do meu espelho retrovisor. 

No meu táxi não falo a ninguém do meu “INSÉTE”. 

A ninguém, excepto ás vinte e sete mulheres da minha vida. 

A esta, em concreto, disse-lhe que estava a trabalhar numa nova telenovela  e que com a sua maneira de comer a rua com os olhos, dava o perfil que andava à procura para uma de minhas personagens. 

Ela mostrou-se muito encantada:

 

- A sério? 

- Diga-me: o que vê? 
Em que se fixa? perguntei. 

- Fixo-me nas pessoas. 

- Pode precisar um pouco mais? 

- No vulgar que é a gente. 
Dedico-me ao mundo da moda e horroriza-me o mau que costuma vestir o pessoal em general. 

- De verdade? 
Porque entrou no mundo da moda? 

- Sou lésbica. 

- Como? 

- Que sou lésbica. 
Excita-me desenhar roupa de mulher. 
Imaginar o corpo perfeito e vesti-lo ao meu gosto. 
Confeccionar o vestido e prová-lo em modelos. 
Ajustá-lo ali e acolá, sentir o contacto da sua pela com a minha própria criação... Buff... 
É tudo. 

- Puxa! 

- O quê? 
Já não me encaixo no perfil que procuras? 

- Mmmm...  
Não de todo, mas interessa-me muito o que disse. 
Talvez mude de personagem.

 

- A verdade é que ficaria encantada ser uma personagem de telenovela. 
Agora tenho pressa, mas se quiser podemos encontrar-nos outro dia e falamos com mais calma, disse-me 

– Sim, pois claro. 

Começou a procurar algo na sua carteira. 

- Toma este cartão de visita. 
A direcção é do meu estúdio. 
Liga-me ou envia-me um e-mail e falamos, OK? 

- OK! 

- Aqui. 
Para aqui. 
Nesse portal. 
Quanto te devo? 
Perguntou-me abrindo o porta-moedas. 

- Não, não. 
Nada. 
Nunca cobro nada aos personagens da minha telenovela.  

- Viva! 
Obrigado! 
Falamos depois, sim? 

- "Tá bem!" 

- Tchau. 

E saiu do táxi. 

Por alguma estranha razão atraía-me mais ainda. 

Olhei o cartão de visita. 

Chamava-se Ana. 

Guardei o seu contacto no meu telemóvel: LesbiANA (22381...). 

Posso chegar a apaixonar-me por esta “catraia”. 

Telefono-lhe???
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sábado, janeiro 14, 2012

- Se alguém vier ter contigo, não lhe vires as costas, pode ser um anjo !

FEÉRICO

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Os anos foram-se, mas não será algo a que não estejamos acostumados. 

Por muito que se repita a sensação e as advertências cheguem a tempo, no final os fogos de artifício encontram-te a olhar para outro lado. 

Ficas como um louco, como se tivesses saído de um filme que termina a metade do argumento, como se o árbitro apitasse para o final do jogo aos trinta minutos. 

Gostemos ou não, os anos, os bons e os maus, terminam sempre surpreendentemente. 

Tanto é assim que parece que enchemos as cidades de luzes e grinaldas, como sinal de alerta para que ninguém tenha um susto de morte ao soarem as badaladas. 

Assim coloca-se música nas ruas, engalanam-se  as montras, enviamos postais e mais cartas (“Feliz Natal e Próspero Ano Novo”, rezam os ditos cujos, como realmente dizendo: “Aí vem outro, outra vez”) e trocamos felicitações em vídeo e telemóvel, cartas e mensagens em catadupa. 

Fogos de artifício marcaram a festa de réveillon em Edimburgo
Algumas deixaram de ter graça e perderam o prazo de validade em 2006. 

Não importa. 

Na realidade só estamos a tentar alertar-nos uns aos outros. 

O ano acaba – estamos a dizê-lo -, acaba de fazer o que estavas a fazer. 

Por isso sucedem-se os ornamentos e há anúncios de presentes e gorros vermelhos coroados com pompons brancos, compilações especiais comemorativas, os mais geniais de 2011, os mais ricos, os mais rápidos, as frases, o top ten, aqueles acessórios que não deixaste de comprar para a tua casa ou para o teu carro. 

Somos assim. 

Mas se não for por isto, pelas canções desta época natalícia e outdoors, pelas rabanadas e os jantares de Natal, mais que muitos, encontrar-se-iam a celebrar no Ano Novo com o corpo em Janeiro e a cabeça em Novembro numa postura certamente incómoda.

 

Pode parecer falta de originalidade, no entanto, este ritual de avisos luminosos e acústicos é um excelente método para evitar que os anos passem rápidos e discretos ao nosso lado. 

Começas a receber indirectas em Novembro. 

Num dia estás com o teu outonal estado de ânimo a ver a televisão e surpreendes-te contando o quarto anúncio de perfumes num mesmo intervalo. 

Deixa-lo passar. 

Convences-te de que é casualidade e o mundo continua o seu  trilho encosta abaixo para o fim de ano. 

E então chega esse momento que não podes negá-lo. 

Estás no meio de uma avenida cheia de luzes e cheira a castanhas, há um homem com barba postiça e os escaparates reluzem. 

Alguém acerca-se de ti e pergunta-te: 
“ E tu o que fazes (fizeste) neste Réveillon ?”.

É isso. 

Bem vindo pelo menos a mais um ano. 

Sinal de que estás (estavas) vivo.
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sexta-feira, janeiro 13, 2012

GORGOMILO

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Graças ás luzes de Natal os passageiros do meu táxi olham para cima em lugar de olharem para a frente e assim posso ver melhor as suas gargantas, os penduricalhos ou adornos que luzem nos seus pescoços e, sobretudo, as suas maçãs-de-adão. 

O inquietante mundo das maçãs-de-adão. 

A portentosa maçã-de-adão do homem, a delatora maçã-de-adão do transexual ou esse tímido caroço, quase inexistente nas mulheres. 

O “caroço” é a mais estranha protuberância do corpo humano. 

Sobressai do gorgomilo para demonstrar, sem palavras, o seu timbre de voz. 

 

No entanto, as mulheres não têm caroço, ainda que a voz de algumas seja bem mais grave que a de muitos homens. 

Que segredo esconde então a protuberância? 

Que ocultam as mulheres? 

Mas mais inquietante ainda é a sua equivalência, também, no inglês (adam´s apple). 

Desconheço por que lhe chamam assim, a sua raiz etimológica. 

Prefiro inventá-lo para mim. 

Ou melhor, ajuda-me tu. 

Por que acreditas que alguns povos lhe chamam maçã-de-adão?
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quinta-feira, janeiro 12, 2012

- Estou a sair de férias, volto assim que me encontrar !

SONHOS SONHADOS

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Tirada DAQUI

Não utilizei drogas, juro-o. 

Adormeceu sozinha. 

Por vezes o sono chega sem querer. 

Morfeu é um vírus que vive do ar. 

Ela não pretendia adormecer ali, no assento traseiro do meu táxi, mas as ruas daquele trajecto eram monótonas, a temperatura de berço d'amor, a música suave e eu desta vez conduzia como dando uma massagem ao asfalto. 

Chegou um semáforo e fixei-me nela. 

Dava um ar de Amélia, aquela minha noiva que me durou três cinemas, mas com os lábios mais grossos e o cabelo mais longo e encaracolado. 

De facto, um caracol rebelde tapava o seu nariz e ao respirar movia-se em espiral como um tornado sobre o oásis da sua boca. 

Também tinha os dois primeiros botões do seu casaco desabotoados, a lapela entreaberta e, mais abaixo, um decote picaramente marcado pela sua postura, inchado mas não demasiado, copa B atirando ao C.

 
Abriu o semáforo. 

Então perdi o interesse de ser taxista: encostei num local, puxei o travão de mão e colei-me por entre os assentos como uma lagartixa até atingir o seu pescoço. 

Cheirava a uma mistura de pele recém passada a ferro e citrinos. 

A amparo acolchoado. 

A desejo. 

Tão pouco pude e nem quis evitar cair na tentação de pressionar, com cuidado, os meus dedos sobre a sua jugular: 73 pulsações por minuto. 

Tranquilizo-me comprovar que os utentes do meu táxi estão vivos. 

As suas pálpebras moviam-se.

Estava, sem dúvida, em fase R.E.M.



E assim aproveitei a profundidade do seu sono para pousar, muito lentamente, a minha cabeça sobre o seu decote. 

Notei-o quente. 

E macio como talvez seja o céu. 

E aí fiquei até que a mim também se me fecharam os olhos. 

Pouco a pouco. 

Sem poder evitá-lo. 

Adormeci. 

Despertei em minha casa e na minha cama. 

Tudo tinha sido um sonho. 

Sonhei que estava a sonhar aproveitando enquanto ela sonhava. 

De qualquer modo, necessito encontrar uma noiva. 

Urgentemente. 

Nota: 
Se queres ser minha noiva contacta-me.
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quarta-feira, janeiro 11, 2012

VÁ BARDAMERDA senhor Governador!!!

 

VÁ BARDAMERDA senhor Governador!!!


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