O VIDEIRINHO

quarta-feira, janeiro 13, 2010

INSTRUÇÕES DE UM RELÓGIO

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Por vezes faço questão de sair de casa sem ele.

Sinto-me mais livre, mais dono do meu tempo, embora não me descure dos compromissos com hora marcada.

Chego aos lugares orientando-me por uma espécie de relógio interior que, por não ter marca famosa, não desperta a cobiça de ninguém.

Pensa nisto: quando te oferecem um rel
ógio, oferecem-te um pequeno inferno florido, uma coroa de rosas, um cárcere ao ar livre.

Não te dão somente um relógio, para q
ue o utilizes muito feliz e espero que dure porque é de uma boa marca, suíço com âncora de rubis; não te oferecem somente esse pequeno canteiro (pedreiro) que colocas no pulso e passearás contigo.

Oferecem-te – não o sabem, o terrível é que não o sabem -, presenteiam-te um novo pedaço frágil e precário de ti mesmo, algo que é
teu, mas não é o teu corpo, que tens de o sujeitar ao teu corpo com uma correia, como um braço desesperado desprendendo-se do teu pulso.


Presenteiam-te a necessidade de dar-lhe corda para que continue a ser um relógio; oferecem-te a obsessão de chegares à hora exacta ás montras das joalharias/relojoarias, num qualquer anúncio pela rádio ou serviço telefónico.

Presenteiam-te o medo de perdê-lo, de que to roubem, de que te caia ao chão e avarie.

Oferece
m-te a sua marca e a segurança que é uma marca melhor do que as outras, oferecem-te a tendência a comparares o teu relógio com os demais relógios.

Não te pres
enteiam um relógio, tu és o presenteado, a ti oferecem-to para os anos do relógio.

Ali ao fundo está a morte, mas não tenhas medo.

Segura o relógio com uma mão, com a outra, segura entre o polegar e indicador a coroa, puxa-a para fora suavemente e roda-a.


Agora abre-se outro prazo, as árvores deixam cair as suas folhas, os barcos remansam em regatas, o tempo como um leque vai-se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Que mais queres, que mais queres?

Áta-o ao teu pulso, deixa-o bater em liberdade, imita-o anelante.

O medo oxida as âncoras, cada coisa que pode alcançar-se e foi olvidada vai corroendo as veias do relógio, gangrenando o fr
io sangue dos seus pequenos rubis.

E além ao fundo está a morte, se não corrermos e chegarm
os antes e compreendemos que já não importa.

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